Capítulo 19
Três Notários
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Capítulo 19
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A primeira notária pediu que Lucas tirasse o casaco.
— O documento ou eu? — perguntou ele.
— Os dois podem esconder faca.
Maela Dorn tinha setenta anos, uma lente grossa presa diante do olho esquerdo e dedos tingidos de azul até a segunda junta. Trabalhava numa loja tão estreita que Alice podia tocar as duas paredes abrindo os braços. Pilhas de contratos ocupavam bancos, prateleiras e metade do fogareiro apagado.
Lucas entregou o casaco a Bren. Maela examinou as mangas, o forro e a cicatriz na sobrancelha, como se tudo fizesse parte da cadeia de custódia.
— Conte desde a mina — ordenou.
Lucas contou. Não omitiu Toma Rusk. Quando chegou à escolha do livro, Finn interrompeu.
— Ele abaixou para pegar.
Maela ergueu a lente para o menino.
— Viu?
— Vi.
— Quanto tempo entre ele pegar o livro e a viga cair?
Finn olhou para Alice. Ela não o salvou da resposta.
— Tempo de dois passos. Talvez três.
— E cuspiu nesta página?
— Cuspi.
— Por quê?
— Porque tinta era pouco.
Maela assentiu como se marcas de saliva fossem prática notarial antiga. Vestiu luvas de fio, abriu a ordem de Merrow e separou cada folha com lâminas de osso. Cheirou a cera, raspou uma porção mínima do lacre e derreteu o pó numa colher.
— Selo eclesiástico de fronteira, matriz anterior à promoção de Merrow — disse. — Cera com resina de pinho do norte e cinza de osso. Pararam de usar a mistura há seis anos.
Lucas soltou o ar.
— Então aceita?
— Aceito que a cera tem idade. Aceito que o papel veio do moinho de Vess, fechado há nove anos. Ainda preciso comparar a assinatura.
Bella havia fornecido três cartas de Merrow: uma cobrança de dízimo, um indulto e uma condolência a uma viúva rica. Maela alinhou as assinaturas.
Alice não entendia todos os traços, mas enxergou a repetição física: o modo como o bispo feria o papel ao terminar o M; uma pausa antes do último r; tinta acumulada onde a mão retomava força.
— É dele — disse.
Maela não olhou para ela.
— Na minha mesa, olho vale menos que método.
— Meu olho mantém gente viva no brejo.
— Meu método enforca quem falsifica testamento. Cada ofício com sua praga.
Durante duas horas, a notária mediu ângulos e distâncias. Alice ficou junto à janela observando acólitos passarem em pares. O cheiro de gordura usada no fogareiro embrulhou seu estômago. Mastigou hortelã até a língua arder.
Maela enfim puxou um livro de capa verde e registrou a ordem.
— Autêntica quanto ao suporte, selo e punho. A origem declarada permanece sob testemunho de Lucas Ardel, Finn sem sobrenome, Alice Venn e Bren Kest.
— Kest não estava na sala quando a ordem foi encontrada — corrigiu Alice. — Estava no corredor.
A pena parou.
Maela encarou-a pela primeira vez sem a lente.
— Quase todo mundo acrescenta testemunha. Você acabou de reduzir a força do próprio caso.
— Quase verdade apodrece igual peixe quase limpo.
A velha riscou Bren da linha da descoberta e o manteve na retirada.
— Primeiro selo — disse, pressionando a matriz azul na cera. — Não por Bella. Não por Ardel. Pela correção.
Lucas ofereceu pagamento. Maela recusou.
— Se sobreviverem à semana, cobro cópias. Se não, prefiro não aparecer no livro de despesas de uma casa derrotada.
Quando saíram, dois homens de batina cinza aguardavam do outro lado da rua. Não esconderam os rostos.
— Merrow já sabe — disse Bren.
— Merrow soube antes de batermos — respondeu Alice.
Finn guardou o livro verde dentro da camisa.
— Eles falaram o nome de Maela lá embaixo.
Alice voltou-se para a loja. A notária já fechava as venezianas.
O segundo notário recebeu-os numa casa com oito criados e nenhuma cadeira confortável.
Ser Edric Pell era ligado à Casa Mereth por uma filha casada e à Igreja por três sobrinhos ordenados. Tinha unhas polidas, barba cheirando a cravo e uma coleção de pássaros empalhados. Alice sentou sob um falcão coberto de poeira.
— Maela Dorn autentica até recibo de prostituta morta — disse Pell, virando o selo azul entre os dedos. — A reputação dela é útil, mas um selo não forma corrente.
— Por isso viemos buscar o seu — disse Lucas.
Pell sorriu.
— Vieram comprar.
Bella não fingiu indignação.
— Diga o preço.
— A doca oriental de Kess. Vinte anos de concessão a Mereth, sem tarifa Vale sobre ferro e sal.
Bella apoiou as luvas no colo.
— A doca paga os armazéns de inverno.
— Então mantenha os armazéns e perca o Conselho.
Alice observou a mão direita de Pell. O polegar alisava sempre a mesma rachadura no braço da cadeira. Medo, não ganância pura.
— Merrow ameaçou seus sobrinhos — disse ela.
Pell parou.
— Não sei do que fala.
— Sabe. Homem ganancioso olha para moeda. O senhor olha para a porta toda vez que o sino bate.
Um criado deixou cair uma colher no corredor. Pell se levantou pela metade.
Bella viu a abertura.
— Onde estão?
— Em retiro.
— Cripta é retiro para padre morto — disse Bren.
Pell mandou os criados saírem. Esperou a porta fechar.
— Merrow recolheu noviços e parentes de oficiais na ala norte. Diz que é proteção contra tumulto. Minha filha recebeu um pedaço da batina de Arven esta manhã.
— E ainda exige a doca — disse Alice.
— Medo não paga resgate.
— Concessão de vinte anos também não abre cela.
Bella puxou o contrato para si.
— Dez anos sobre a doca de reparos, não a oriental. Ferro sem tarifa durante cinco. Sal continua pagando. Em troca, seu selo agora e o testemunho de que Merrow mantém reféns.
— Não tenho prova.
— Tem a batina.
Pell esfregou a barba.
— Se eu testemunhar, matam Arven.
— Se não testemunhar, usam Arven na próxima ameaça — respondeu Bella.
Alice sentiu desprezo e reconhecimento ao mesmo tempo. Sybelle também sabia oferecer apenas escolhas em que a outra pessoa perdia.
Pell pediu vinho. O cheiro fez Alice levantar depressa. Encontrou a latrina no fim do corredor e vomitou água e hortelã. Quando voltou, Lucas estendeu um pano limpo.
— Comida da cidade — disse ela antes que ele perguntasse.
— Você quase não comeu.
— Exatamente.
Ele não insistiu, mas seus olhos demoraram nela.
Pell analisou os papéis menos tempo que Maela e com mais suor. Confirmou fibras, cera e assinatura. Ao chegar à declaração de Toma, fez uma careta.
— Isto prejudica Ardel.
— Foi o que aconteceu — disse Lucas.
— Retire e sua acusação fica mais limpa.
— Fica falsa.
— Fica apresentável.
Lucas colocou a página de volta na pilha.
— Toma permanece.
Alice quis tocar a mão dele. Guardou o impulso no bolso.
Pell selou o registro com cera amarela. Bella assinou a concessão reduzida. O notário segurou o contrato como homem que recebera comida misturada a veneno e precisava agradecer.
— Segundo selo — disse. — O terceiro deve ser de casa distinta. Procurem Nilo Var, notário real. Ele odeia Merrow desde que o irmão foi enterrado sem o fogo completo.
— Onde? — perguntou Bella.
— Arquivo da Ponte. Sai ao toque das quatro.
O sino bateu três.
Na rua, uma carroça eclesiástica bloqueava a passagem. Homens de Merrow revistavam pedestres sob pretexto de procurar relíquias roubadas. Bella dividiu o grupo: ela e Lucas levariam os originais por uma rota; Alice, Bren e Finn levariam cópias e os dois registros pela feira.
— Se nos pegarem? — perguntou Finn.
Alice entregou-lhe um saco de cebolas e escondeu o livro verde no fundo.
— Chora.
— Não consigo por ordem.
— Pense na comida de Odran.
Finn começou a rir. Alice decidiu que também servia.
Nilo Var desapareceu entre o sino e a ponte.
Encontraram o arquivo aberto, uma cadeira caída e tinta ainda pingando da mesa. Não havia sangue. Havia um sapato sob a janela, dois dentes junto ao tinteiro e marcas de arrasto no assoalho.
Bren tocou a tinta.
— Menos de meia hora.
Lucas verificou as gavetas.
— Levaram os livros de comparação.
Alice se ajoelhou perto do sapato. A sola trazia barro claro com palha moída, diferente da lama escura da rua.
— Estábulo.
— Há cem — disse Bella.
Finn ficou junto à parede, olhos fechados.
— Ele está vivo.
— Nilo? — perguntou Lucas.
— Não sei o nome. Um homem conta os próprios dentes e repete que faltam dois. Tem sino perto. E água correndo.
O Arquivo da Ponte ficava sobre um canal. Sinos eram ouvidos de qualquer bairro. Alice examinou o barro de novo. Encontrou uma semente chata presa no salto.
— Feno de junco. Não palha de trigo.
Bren cheirou.
— Canal dos Matadouros. Alimentam mula com junco porque custa menos.
Bella chamou a guarda da casa. Lucas segurou o braço dela.
— Se marcharmos com brasão, movem Nilo.
— Se formos poucos, matam todos.
Alice já prendia o cabelo.
— Mande seus homens cercarem o canal sem entrar. Bren e eu seguimos o barro.
— Eu vou — disse Lucas.
— Você leva os originais para Maela. Se Nilo morreu, precisamos provar o desaparecimento e preservar os dois selos.
Ele reconheceu a lógica e a odiou.
Alice, Bren e Finn seguiram vielas até o canal. O menino insistira em ir porque a voz do homem funcionava como fio; Alice permitiu e ressentiu a própria decisão. Controlar Finn por proteção ainda era controlar. Mesmo assim, manteve-o entre ela e Bren.
Encontraram o estábulo pelo cheiro. Duas mulas pastavam junco num pátio cercado. A porta do depósito tinha cera rubra na fechadura.
Bren apontou para uma janela alta.
— Garça?
A memória pedida subiu: Lucas soltando pontos apertados da bota durante a tempestade. Alice recuou da forma. Aquilo era pequeno, mas escolhido. Não entregaria.
— Escada.
Subiram por caixotes. Alice entrou primeiro. O depósito guardava arreios, sal contaminado e três cadáveres cobertos por mantas. Nilo estava amarrado a uma coluna, rosto inchado, dois dentes faltando. Um acólito escrevia diante dele. Outro segurava uma tenaz.
— Diga que a ordem é falsa — exigiu o acólito. — Confesse tentativa de derrubar a Igreja.
Nilo cuspiu sangue.
— Ainda não vi a ordem.
Alice desceu sobre o homem da tenaz. O caixote quebrou sob os pés; os dois caíram. Bren entrou pela janela e acertou o segundo com o cabo da faca. Finn ficou no alto, como mandado, até um dos cadáveres mexer sob a manta.
— Alice.
Ela rasgou o pano. Veios vermelhos cobriam o pescoço de uma mulher. Os olhos abriram.
Bren jogou sal na boca da morta e acendeu a manta. O fogo subiu depressa. Os outros dois corpos começaram a se contorcer.
— Tirem Nilo!
Alice cortou as cordas. O notário não conseguia ficar em pé. Finn desceu e passou o ombro sob o braço dele. Bren derrubou uma lamparina sobre o sal contaminado; em vez de deter os Reerguidos, os cristais crepitaram vermelhos e atraíram as mãos dos mortos.
— Sal ruim! — gritou.
Saíram pelo pátio enquanto o depósito ardia. Guardas Vale chegaram pelos dois lados. Um acólito escapou pelo canal; Bella proibiu perseguição.
— Temos o notário — disse. — Não gasto homem por criado de bispo.
Nilo ouviu.
— Eu não autentico hoje.
Bella olhou para o rosto dele.
— Merrow arrancou seus dentes e você quer dormir?
— Merrow arrancou dois dentes porque eu me recusava a mentir sobre algo que nem tinha visto. Se eu selar agora sob sua guarda, dirão que Vale comprou o que a Igreja não arrancou.
— Precisamos do terceiro selo antes do Conselho de amanhã — disse Lucas, chegando com Maela e dois oficiais.
Nilo limpou sangue do queixo.
— Então façam em público. Ao nascer do sol, na escadaria do Arquivo. Maela examina, Pell confirma, eu autentico diante de quem quiser ver. Três casas, três métodos, uma corrente.
Bella ficou furiosa porque não controlara a ideia. Alice gostou do notário por isso.
Merrow contra-atacou antes da noite.
Acusou Lucas de roubo de relíquias, Bella de heresia e Alice de contaminação voluntária. Guardas eclesiásticos cercaram a casa Vale com mandados. Uma proclamação pregada nas esquinas afirmava que os documentos das minas eram peças produzidas por uma metamorfa capaz de assumir qualquer rosto.
— Não assumo rosto humano — disse Alice, lendo a cópia.
— Mentira boa usa uma verdade que o público não conhece — respondeu Bella.
Maela foi levada para um quarto seguro. Pell trancou-se na própria casa. Nilo dormia sob vigia, com Odran costurando o corte da boca.
Finn colocou sobre a mesa um pedaço de papel que tirara do casaco de um dos acólitos.
Era uma lista de nomes. Maela Dorn aparecia riscada. Edric Pell vinha seguido por sobrinhos. Nilo Var tinha a palavra quebrar. Alice encontrou o próprio nome incompleto no fim: Alice Aeli—. Levar viva à cripta. Preparar nome.
Lucas leu por cima do ombro dela.
— Preparar para quê?
Odran tomou o papel. A pele do velho perdeu cor.
— Sacramento.
— Qual?
— Ainda não sei o bastante para dizer sem pôr ideia perigosa na boca errada.
Alice dobrou a lista.
Do lado de fora, os homens de Merrow começaram a cantar uma ladainha. Não atacaram. Queriam que a vizinhança visse quem estava cercado.
Bella moveu os dois selos autenticados para uma caixa de ferro.
— Ao amanhecer fazemos a terceira autenticação em praça.
— E se Pell não sair? — perguntou Bren.
— Sai. Dei a ele uma doca.
— E se Nilo morrer?
— Não morre — disse Odran, ainda segurando agulha ensanguentada. — Hoje escolho o vivo.
Nilo abriu um olho inchado.
— Sempre reconfortante ouvir isso do padre.
Alice foi até a janela. Sob a chuva, os mandados de Merrow amoleciam nas paredes. A tinta escorria, mas os guardas permaneciam.
Três notários formariam uma verdade aceita pelo Conselho. Um aceitara por método, outro por suborno e medo, o terceiro precisara ser arrancado de um depósito com mortos preparados. A lei chamava os três selos de corrente limpa.
Alice conhecia corrente. Mesmo lavada, ainda prendia.
Ao amanhecer, Maela montou a mesa na escadaria do Arquivo da Ponte. Pell chegou cercado por criados e fingiu não ver a filha esperando do outro lado da praça com o pedaço de batina de Arven. Nilo precisou ser carregado numa cadeira, mas exigiu que o colocassem de pé para selar.
Merrow mandou um diácono ler a acusação de heresia. A multidão respondeu atirando cascas de nabo, não por apoiar Bella, mas porque o homem bloqueava a vista.
Maela repetiu o exame em voz alta. Pell confirmou a cera e a assinatura. Lucas declarou a origem dos papéis e tornou a dizer o nome de Toma Rusk. Finn ergueu a página com a própria marca.
— Fui eu que cuspi — anunciou.
Alguém riu. Outros pediram silêncio.
Nilo leu a ordem inteira. Sangue novo apareceu no canto da boca quando pronunciou Merrow.
— O suporte é antigo, os selos são autênticos e as testemunhas aceitam prejuízo contra si mesmas — declarou. — Pela Lei dos Doze Selos, reconheço cadeia suficiente para audiência e leitura pública.
Pressionou a matriz vermelha.
Os homens de Merrow avançaram. A guarda de Bella fechou a escadaria; guardas de Mereth fecharam o outro lado, protegendo a concessão comprada. Por um momento, verdade institucional dependeu de qual soldado recebera soldo naquela semana.
Maela levantou o registro com três cores de cera.
— Está autenticado.
A praça repetiu a frase, primeiro em vozes separadas, depois como rumor correndo pelas ruas. Copistas começaram a trabalhar ali mesmo. Uma folha foi para Oren, outra para os quartéis, outra para o mercado.
Pell encontrou a filha. Ela o abraçou; ele continuou segurando o contrato da doca por cima do ombro dela. Nilo sentou antes de cair. Maela cobrou de Bella o preço de vinte cópias e nem um cobre a menos.
Alice olhou para os três selos. Método, suborno e dentes quebrados tinham produzido algo que o reino aceitaria como fato.
Agora Merrow precisaria destruir mais do que uma pasta.
Fim do Capítulo 19