Capítulo 20
Sob a Catedral
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Capítulo 20
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A passagem que Bella comprara cheirava a mofo e cera derretida — preço pago a um capelão que preferia ouro a absolvição, e não escondia isso de ninguém que pagasse bem. Ficava atrás de uma lavanderia da catedral, uma porta baixa de madeira inchada que só abria se alguém soubesse empurrar com o ombro e não com a mão.
— O capelão jura que a porta dá direto numa galeria de serviço acima das salas de confissão — disse Bella, dobrando um mapa desenhado à pressa sobre a mesa da cozinha da casa Vale. — Jura também que nunca desceu além dela. Não confio em homem que vende passagem e não sabe pra onde ela leva.
— Ninguém confia — respondeu Bren, sentado numa banqueta baixa, afiando a faca curta com movimentos que já não precisavam de atenção nenhuma. — A pergunta é se ele mentiu por medo ou por preguiça de descobrir.
— As duas coisas custam o mesmo, no fim — disse Alice.
Odran ajeitou o cordão de nós no pulso, os dedos trêmulos de idade, não de medo — ou pelo menos era o que ele mesmo insistia, toda vez que alguém reparava no tremor.
— Vou rezar na escada de serviço — disse o velho exorcista. — Não pra te proteger, garota. Não tenho esse poder mais, se é que tive um dia. Só pra segurar a represa um instante a mais, se precisar.
— Um instante já ajuda — respondeu Alice.
Lucas ficou junto à mesa com os documentos das minas espalhados diante dele, mas não lia nada havia minutos. Olhava para Alice do jeito que olhava para um mapa com um caminho perigoso desenhado nele: querendo apagar a rota, sabendo que não podia.
— Não gosto disso — disse ele, por fim, a voz baixa o bastante para não soar ordem.
— Ninguém pediu que gostasses — respondeu Alice, sem aspereza.
— Pediria que fosse outra pessoa, se pudesse pedir alguma coisa.
— Não pode. — Ela parou diante dele, a mão pousando de leve no braço dele, gesto raro o bastante para ele prestar atenção redobrada. — Nenhum de vocês entra numa sala cheia de confessor sem levantar suspeita no primeiro passo. Eu entro com asa e saio com o que ouvir. É simples assim, mesmo não sendo fácil.
— Simples e fácil nunca foram parentes — murmurou Bren, sem erguer os olhos da faca.
Bella entrou pela porta da cozinha sem bater, um mapa dobrado debaixo do braço, e desenrolou-o sobre a mesa por cima dos documentos de Lucas sem pedir licença.
— O capelão diz que a galeria corre por cima de três salas — disse ela, o dedo traçando um caminho tracejado a carvão. — A do meio é onde os confessores costumam se reunir à noite, segundo ele. Não sei se ele mentiu sobre isso também. Descobre por mim.
— E se eu não encontrar nada? — perguntou Alice.
— Então voltas com nada, e eu ainda terei gastado ouro à toa — respondeu Bella, sem rodeio nenhum. — Prefiro isso a não tentar. Ouro se recupera. Tempo, não.
Bren riu baixo, sem erguer os olhos da faca.
— A senhora fala de ouro do mesmo jeito que fala de gente — comentou. — Como se ambos fossem só recurso a gastar.
— São — respondeu Bella, sem se ofender. — A diferença é que gente reclama antes de ser gasta. Ouro, não.
Finn não podia descer — Bella dissera que menino que ouvia demais era isca fácil demais, e Alice concordara, odiando cada palavra da concordância. O garoto ficou sentado num canto da cozinha, encolhido, olhando para a própria mão como se contasse alguma coisa nela.
— Se eu sentir ele te tocar — disse Finn, de repente, sem erguer a cabeça —, eu grito. Bem alto. Prometo.
— Promessa aceita — respondeu Alice, e foi a coisa mais próxima de conforto que conseguiu oferecer ao menino naquele instante.
Alice desceu sozinha. Lucas ficou na casa Vale com os documentos espalhados sobre a mesa, o maxilar travado numa linha dura que ela já sabia reconhecer; Odran rezava baixo na escada de serviço, um cordão de nós passando entre os dedos como quem segura uma represa com palavras velhas. Bren vigiava a rua com a faca aberta sobre o joelho, afiando a lâmina sem pressa nenhuma.
Na fresta acima das vigas, a pele começou a formigar. Emprestou a memória do sabor de chuva numa tarde de infância: água limpa numa concha de barro, de antes de Sybelle ensinar que a chuva do brejo também carregava podridão. A lembrança saiu como um fio puxado do carretel; a garça entrou no lugar dela.
As pernas ficaram finas, o pescoço comprido, os olhos laterais estreitaram o mundo a sombra e eco. O pensamento humano escorregou — Lucas, minas, culpa — nomes pesados demais para caber num bico oco. Sobrou só instinto: não bater asa, não espantar rato de sacristia, escutar.
O corredor de serviço era mais estreito do que parecia no mapa do capelão. A garça precisou dobrar o pescoço para passar por baixo de uma trave rachada, as penas roçando pedra fria de um lado e madeira bichada do outro. Um rato correu por perto, e o instinto de ave quase traiu tudo — o bico abriu, pronto para bicar, antes que alguma coisa mais funda, ainda humana, lembrasse que caçar ali significava barulho, e barulho significava descoberta.
A catedral respirava devagar. O incenso não cobria tudo. Por baixo dele vinha cheiro de cobre e pedra fria, e algo doce e podre que fazia a garça querer voar dali e ficar ao mesmo tempo — o mesmo impulso partido ao meio que Alice reconhecia, de outras formas, de outras fugas.
Dois confessores passaram por baixo da viga onde ela se equilibrava, tão perto que a garça sentiu o calor dos corpos subindo. Um deles carregava um turíbulo apagado; o outro, um livro fino amarrado com corda encerada. Nenhum dos dois ergueu os olhos. A garça esperou o coração de pássaro desacelerar antes de seguir andando pela viga, pata sobre pata, cada passo medido para não fazer a madeira velha ranger.
O mundo em forma de ave media perigo por cheiro e vibração, não por raciocínio. A pedra sob as patas guardava um frio antigo, mais fundo que qualquer inverno de brejo; vinha de baixo, subindo pelas juntas da construção como se a própria terra ali fosse mais velha e mais faminta que em qualquer outro lugar que Alice já tivesse pisado, em qualquer forma. Duas vigas adiante, uma teia grossa de aranha balançava com o vento de um respiradouro invisível; a garça desviou por instinto, sem pensamento nenhum atrás do gesto, e só o resquício humano notou o alívio de ter evitado o barulho de romper fios secos.
Vinha vozes de mais de uma sala, abafadas pelas pedras, um coral irregular de sussurros que não formavam palavra nenhuma até a garça se aproximar da fresta certa. Encontrou-a acima de uma porta de ferro entreaberta: um triângulo de luz alaranjada subindo em direção ao teto, cera queimando em correntes de metal em vez de castiçais comuns. O calor daquela luz batia na pena da garça como se fosse fogo de verdade, embora a distância dissesse que não podia ser.
Os confessores estavam reunidos numa sala sem janelas, mantos rubros escuros, cor não de sangue fresco, mas de vela queimada até o fim. Eram cinco, mais do que Alice esperava — Bella só tinha mencionado três nas conversas anteriores. Um deles, a voz rascante como quem discursava direto do túmulo, lia de um livro preso por correntes:
— O equilíbrio fede. Maelor morto, o trono vazio, cadáveres demais acumulados nas fronteiras. Vharos não dorme mais: sussurra. Se não acordarmos o sacramento com disciplina, ele acorda sozinho, e acorda com fome.
A garça gelou na trave. Sacramento — a mesma palavra que Finn repetia dormindo.
Outro confessor tomou a palavra, as mãos cruzadas dentro das mangas largas:
— Acordar serve para direcionar, com rédea curta. Reerguidos nas criptas inferiores, sim, mas sob nome. Sem nome, a Ferrugem escolhe a culpa ao acaso. Com nome, escolhemos nós quem paga.
Alguns riram, um riso seco, mais nervoso do que alegre.
— E quem escolhe o nome? — perguntou um quarto confessor, mais gordo, a voz carregando uma nota de desconforto que os outros não pareciam sentir. — Já enterramos condenados demais sem julgamento justo. Um dia alguém pergunta as contas.
— Ninguém pergunta conta a quem segura o reino de pé — respondeu o primeiro, sem se virar para encará-lo. — Preferes perguntar quando não houver mais reino pra perguntar nada?
O quarto confessor calou-se. Não parecia convencido — parecia só cansado demais para discordar em voz alta.
— E a metamorfa do brejo? — perguntou um terceiro, mais jovem, a voz ainda sem o hábito de mandar.
O silêncio que veio depois pesava de um jeito diferente do anterior.
— Sybelle Venn criou uma ferramenta — respondeu o primeiro, fechando o livro acorrentado. — A filha está na capital. Se ela chegar perto demais do selo, o Confessor Rubro vai provar o nome dela inteiro.
— E se ela já estiver perto? — perguntou o quinto confessor, que até então não tinha falado, a voz baixa e cortante como faca nova.
Todos os outros se viraram para ele.
— É modo de dizer — completou o quinto, um sorriso fino sob o capuz. — Só acho engraçado como todos falam da metamorfa como se ela estivesse longe, quando o próprio bispo Merrow duplicou a guarda da escada norte esta semana. Não se dobra guarda por precaução vazia.
A garça não entendeu a palavra inteiro. Entendeu perigo — a asa já pronta para abrir.
Algo puxou então, e não veio como som: veio como pressão atrás dos olhos de ave, um dedo enfiado fundo no crânio. A garça cambaleou sobre a trave; a visão dobrou-se em duas — penas e chão de pedra de um lado, do outro um lampejo de cozinha escura, chão pegajoso, uma voz de mulher que podia ser a da mãe.
Alice.
A voz que respondeu não pertencia a Sybelle — vinha de mais fundo, mais antiga, muitas vozes presas numa garganta só e seca.
Tu sabes o que escondes no ventre. Tu sabes o que tua mãe queimou em Mara.
Alice quase voltou humana ali mesmo, no meio da viga — quase caiu. Segurou a forma com dentes humanos que a garça não possuía. Tinha emprestado memória demais; a lacuna se abriu, e Vharos escorreu por dentro dela como água por rachadura.
Confessa, sussurrou a pressão. Ou nós confessamos por ti.
Vieram imagens: prisioneiros acorrentados num porão de pedra úmida; Sybelle com uma lâmina de sal e ferro na mão; uma menina pequena rindo debaixo de um salgueiro, rosto que Alice não conseguia formar, só o buraco onde a amizade devia estar. Depois veio outra imagem, mais nova, mais afiada: Lucas dormindo na casa Vale, o rosto relaxado de quem confia demais em quem divide o quarto com ele — e a pressão riu daquilo, um riso sem boca, sem som, só sensação.
Ele nem sabe o que carrega perto, sussurrou a voz. Nem sabe o nome do que dorme ao lado dele.
A garça gritou sem som e bateu a asa uma vez — erro. Um dos confessores ergueu a cabeça na direção do teto.
— Há vida nas vigas — disse ele.
O quinto confessor, o de voz cortante, ergueu-se devagar da cadeira.
— Eu confiro — disse, já caminhando para baixo da viga, o capuz inclinado para cima.
Correr em forma de ave era quase voar caindo. Alice sentiu a memória da chuva de infância partir de vez; não soube dizer o que mais tinha perdido além do gosto dela. A viga rachou sob o peso errado de uma pata que escorregou; um pedaço de madeira caiu no chão de pedra com um estalo seco que ecoou pela sala inteira.
— Ali! — gritou alguém.
Desceu pela fresta apertada, as penas raspando pedra dos dois lados, o coração de ave batendo tão rápido que doía até em forma animal. A pele humana voltou num arranhão de unhas contra a pedra, no último trecho estreito demais até para a garça passar sem esforço. Odran a puxou para dentro da escada de serviço, as mãos velhas surpreendentemente firmes; Lucas apareceu no patamar de cima, o rosto tenso, já com a mão no cabo da faca.
— Quanto tempo — perguntou ele.
— Tempo demais — respondeu Alice, a voz ainda rouca de garganta de garça, o corpo tremendo do esforço de reverter a forma tão depressa.
Contou o que lembrava enquanto Odran fechava a porta baixa atrás deles, trancando com uma tranca de ferro que rangeu alto demais para o gosto de todos: o sacramento, as criptas, os cinco confessores, o quinto de voz cortante que quase a viu, o próprio nome, Mara dentro do sussurro. Não escondeu nada que importasse — nem a imagem de Lucas dormindo, embora a voz tenha saído mais baixa nessa parte.
Lucas empalideceu ao ouvir aquele trecho.
— Ele viu... me viu dormindo?
— Viu através de mim — corrigiu Alice. — Estar lá seria outra coisa, mas isto já é ruim o bastante.
Odran fechou os olhos como quem sente uma dor velha voltar.
— Vharos te tocou — disse o exorcista, apertando o cordão de nós na mão até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Me cutucou — corrigiu Alice. — Como quem aperta carne numa feira antes de decidir se compra.
— Não brinques com isso — disse Odran, sério como Alice raramente o via. — Um toque desses não se apaga sozinho. Fica escondido, esperando o momento de doer mais.
Lá em cima, Finn gritou uma vez, curto e seco. Bren correu escada acima; Alice subiu logo atrás, o coração já batendo em garganta humana outra vez, as pernas ainda bambas do esforço da transformação dupla. O menino estava acordado, os olhos vidrados, a boca ainda aberta:
— Ele quer o nome inteiro — disse Finn. — Disse que você já começou a esquecer quem ama.
Alice olhou para Lucas. Ele não pareceu ter ouvido — ou fingiu bem demais que não ouvira. A náusea subiu de novo, física e outra coisa junto, medo e exaustão misturados no mesmo gosto de metal.
— Amanhã eu abro a passagem até as criptas — disse Bella, surgindo no corredor como se já soubesse de tudo antes de alguém contar, o vestido ainda com pó de rua de alguma negociação da noite. — Você entra de novo. Não como ave, desta vez. Como mulher, com sal na luva e uma boa mentira pronta na boca.
— Depois do que aconteceu lá embaixo? — perguntou Lucas, a voz subindo. — Um confessor quase a viu. Vharos falou com ela direto na cabeça.
— Por isso mesmo — respondeu Bella, sem se abalar. — Agora sabemos que há cinco confessores, não três. Sabemos que duplicaram a guarda da escada norte. Sabemos que um deles desconfia. Informação ruim ainda é informação. O que não dá é pra parar agora e fingir que não sabemos de nada.
Alice riu, um riso ácido, sem alegria nenhuma dentro dele.
— Salvar o mundo é um luxo — disse ela. — Sobreviver a ele é o ofício.
Lucas tocou o ombro dela. Desta vez Alice não recuou. A pressão na mente tinha ido embora — por enquanto. Debaixo da catedral, alguma coisa tinha acabado de aprender o caminho até ela.
Alice guardou cada palavra dos confessores — acordar, nome, metamorfa — do mesmo jeito que Bren guardava rastro de bicho: não para acreditar cegamente, mas para sobreviver ao que viesse depois. O selo ainda não tinha rosto. Já tinha dentes.
Fim do Capítulo 20