Capítulo 18
Calderis
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Capítulo 18
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Calderis começou com uma bacia.
O guarda da Porta das Correntes mandou Alice lavar as mãos, o rosto e a sola das botas na mesma água cinzenta em que três mercadores já tinham mergulhado os pés. Depois exigiu que ela jurasse não trazer febre, Ferrugem, cadáver sem absolvição, moeda cortada nem intenção de ferir membro do Conselho dos Doze.
— Se eu tiver intenção de ferir apenas nove, posso entrar? — perguntou Alice.
O homem não achou graça. Tinha bigode encerado, luvas novas e uma mancha vermelha junto à unha do polegar. Alice olhou duas vezes para a mancha.
Bren viu.
— Tinta de lacre — murmurou.
— Eu sei.
O guarda ouviu e escondeu a mão atrás do cinto.
Atrás deles, a fila descia a colina por quase meia légua: carroças de farinha, famílias com colchões amarrados por corda, soldados sem brasão pedindo soldo na entrada, padres examinando gengivas de crianças. Calderis erguia muralhas de pedra clara sobre o rio, torres e telhados amontoados em camadas. De longe, a catedral parecera branca. Junto ao portão, Alice viu as juntas escurecidas por umidade e uma poeira avermelhada acumulada nas gárgulas.
Lucas segurava a pasta das minas sob o casaco. Desde Toma Rusk, ninguém mais se oferecera para carregá-la. Finn mantinha a caixa de pulseiras de cobre presa entre os joelhos sobre a carroça. Odran protegia os fragmentos do Último Sangue dentro de um saco de grão vazio, por acreditar que ladrão procurava relíquia em estojo e comida em saco.
— Nome de nascimento — exigiu o escrivão.
— Alice Venn.
A pena parou.
— Nome de registro.
— Acabei de dar.
— Nome de registro eclesiástico.
Uma náusea quente subiu antes que Alice pudesse culpar a água do portão. Virou o rosto e respirou pela boca. O escrivão reparou; os olhos desceram para o ventre dela e voltaram depressa. Alice apoiou a mão no balcão de carvalho.
Lucas avançou meio passo.
— O registro foi danificado em Salgária. Temos cópia sob selo do mosteiro.
— Perguntei a ela.
— E ela respondeu o que sabe — disse Lucas.
O guarda de bigode tocou a espada. Bren mastigava um talo seco de milefólio e parecia desinteressado, o que significava que já escolhera onde cortar o primeiro homem.
Alice tirou do bolso a cópia incompleta. O escrivão leu Alice Aeli—, franziu a boca e passou o polegar pelo selo.
— Pessoa de nome incompleto não comparece ao Conselho.
— Ótimo — disse Alice. — Eu pretendia comparecer inteira.
Um coche negro parou do lado de dentro. A mulher que desceu usava vestido cor de vinho sem bordado, luvas de couro fino e um anel com cinco ondas. Alice reconheceu Bella Vale antes que alguém anunciasse o nome. Em Kess, Bella os recebera no cais com peixe apodrecendo entre as negociações; em Calderis, trazia dois guardas e a impaciência de quem pagava cada minuto.
— Ela entra sob minha garantia — disse Bella.
O escrivão se levantou.
— Lady Vale, o protocolo de contaminação...
— Foi escrito quando a guarda recebia soldo. Há quatro meses não recebe. Posso comprar a tinta que falta ou o homem que assina com ela. Qual prefere?
O guarda escondeu ainda mais o polegar manchado.
Bella pegou a cópia do registro de Alice, sem pedir, e leu.
— Incompleto é melhor — comentou. — Nome inteiro dá ao inimigo mais coisa para citar num mandado.
Finn produziu um ruído baixo na garganta. Alice olhou para ele. O menino encarava as torres da catedral.
— Tem gente batendo por baixo — disse.
O escrivão derrubou a pena.
Bella devolveu o papel.
— Entrem antes que o protocolo invente outra doença.
A casa Vale ficava no bairro dos Curtidores, longe do palácio e perto o bastante do rio para sentir cheiro de couro, urina e peixe nos dias quentes. Era um casarão estreito, com janelas protegidas por grades decorativas e três saídas que Bella fez questão de mostrar antes dos quartos.
— A porta da frente é para convidados — disse ela. — A cozinha é para credores. O túnel da adega é para parentes.
— Qual deles costuma matar primeiro? — perguntou Bren.
— Parentes.
Criados levaram os cavalos. Uma mulher chamada Wenna entregou a Alice uma toalha e um caldo de nabo. O cheiro de gordura provocou outra onda no estômago. Alice bebeu água, mastigou pão seco e deixou o caldo esfriar sem explicar.
Bella reuniu todos numa sala sem tapeçarias. A mesa estava coberta de placas de cera, fitas, pequenos sinetes e um mapa do Conselho dos Doze.
— Sete selos — disse, empurrando marcadores de osso. — Tenho Vale, dois vassalos do litoral e uma promessa de Mereth que vale menos do que o barbante em que veio amarrada. Oren vota com Merrow. Thorne tem o marechal pela garganta porque paga metade da cavalaria. Sem selo eclesiástico maior, ninguém sobe ao trono, ainda que nove casas se ajoelhem.
Lucas abriu a pasta. A primeira página era a declaração sobre Toma Rusk, endurecida pela saliva seca de Finn.
— A ordem de Merrow muda Oren.
— Se for aceita como verdadeira — respondeu Bella. — Documento acusatório exige três notários de casas distintas ou leitura em praça sob selo do Conselho. Eu controlo uma notária. Merrow controla duas prisões e todos os altares onde os outros gostam de parecer devotos.
Bren colocou a caixa de pulseiras sobre a mesa.
— Temos mortos com nome.
— Morto com nome emociona viúva. Assinatura autenticada move soldado.
Finn abriu a caixa. O cobre tilintou.
— Elian Rusk — leu Lucas numa pulseira. — Filho de Toma.
— E Toma morreu para que isto chegasse — disse Alice.
Lucas recebeu a frase sem defesa. Havia lama antiga na costura da manga dele, apesar de Wenna já ter oferecido roupa limpa.
Bella examinou a ordem de escavação contra a luz.
— Amanhã, três notários. Hoje vocês não existem. Entraram como criados da minha comitiva, e esta sala não recebeu ninguém.
— O portão registrou nossos nomes — disse Odran.
— O portão registra o que eu pago para registrar.
— Merrow saberá — disse Finn.
Bella enfim prestou atenção ao menino.
— Porque os mortos contaram?
— Porque os vivos têm medo antes de ele perguntar.
Alice tocou o ombro de Finn, avisando com os dedos antes de pousar a mão. Ele não recuou.
Um sino bateu na catedral. Outros responderam, doze toques separados. Odran contou movendo os lábios.
— Hora das criptas — disse.
Bella ergueu uma sobrancelha.
— Não existe hora pública das criptas.
— Por isso conheço. Servi aqui quando ainda acreditava que segredo ficava menos sujo em latim.
O velho foi até a janela. No pátio distante da catedral, carroças cobertas entravam por um portão lateral. Nenhuma tinha marca de mercador. As rodas deixavam riscos escuros na pedra.
Alice viu uma mão escapar sob uma lona. Dedos rígidos, pele acinzentada, veios vermelhos até o punho.
— Quantas? — perguntou.
Bella aproximou-se.
— Seis hoje. Quatro ontem.
— Sabia e esperou a gente chegar?
— Sabia que a Igreja transportava mortos. Não sabia que os mortos ainda mexiam.
Bren já estava calçando as luvas.
— Quero ver o rastro.
— Vai ver da janela — disse Bella. — Se sair agora, Merrow ganha um caçador preso e eu perco uma noite inteira subornando carcereiro.
Alice odiou a sensatez dela. Odiou ainda mais o pequeno prazer de ser necessária numa sala em que todos tinham dinheiro ou nome e ela possuía o único nariz treinado para reconhecer podridão de brejo.
— Há entrada por baixo? — perguntou.
Bella marcou um ponto no mapa.
— Lavanderia velha. O capelão vendeu uma passagem de serviço. Ainda não comprei a chave.
— Compre.
Lucas fechou a pasta.
— Primeiro autenticamos.
Alice olhou para ele.
— Primeiro descobrimos se a cidade dorme sobre cadáveres amarrados.
— Se formos presos esta noite, Toma morreu por papéis que ninguém lerá.
A frase acertou os dois. Finn fechou a caixa de pulseiras com força.
Bella moveu um marcador de osso para o centro do mapa.
— Fazemos ambos. Amanhã os notários recebem Lucas. Esta noite, Alice vê as carroças sem cruzar portão nenhum. Bren acompanha. Odran fica com Finn. Ninguém desce à cripta até termos cadeia de custódia das provas.
— Você dá ordem com muita facilidade — disse Alice.
— Anos de prática e pouca oposição competente.
— Encontrou.
Bella sorriu de um lado só.
— Espero que dure.
Antes de anoitecer, Wenna levou Alice ao mercado coberto para comprar roupa que não denunciasse estrada. Bella proibira capa de brejo no bairro da catedral: guardas revistavam lama antes de rosto.
As bancas vendiam sardinha, velas votivas, penas de escriba e pequenos frascos de cinza anunciados como proteção contra Reerguidos. Alice abriu um deles. Havia farinha, carvão e sal de poço contaminado.
— Isso atrai — disse ao vendedor.
O homem arrancou o frasco da mão dela.
— Abençoado por diácono.
— Então atrai com autorização.
Wenna puxou Alice antes que a discussão ganhasse guarda. Compraram um vestido de lã castanha com espaço suficiente para esconder faca na manga e sal na barra. No provador, a criada apertou o cordão da cintura. Alice sentiu o estômago virar.
— Mais solto.
Wenna afrouxou sem comentar. Tinha uma cicatriz larga no pescoço e o hábito de contar troco duas vezes.
— Lady Vale disse que a senhora pode precisar entrar na catedral — falou. — Minha irmã lava mortalhas lá. Há um mês, mandaram costurar bolsos nas mortalhas.
— Para quê?
— Pedaços de papel com nomes.
Alice pagou pelo vestido e pelo silêncio, embora Wenna dissesse que não cobrava pelo segundo.
— Todo silêncio é cobrado — respondeu Alice. — Às vezes só chega tarde.
Na volta, passaram diante de um pátio onde refugiados esperavam absolvição para três cadáveres cobertos por esteiras. Um padre exigia duas moedas por corpo. A família tinha quatro mortos e seis cobres.
Odran, que procurava registros nas capelas, apareceu no fim da fila. Tirou o próprio cordão de prata, largou-o na mesa do padre e completou os ritos. Alice ajudou a virar os corpos e percebeu que um deles era Colm.
O menino de Pedra-Fria abriu os olhos quando ela tocou a esteira. Estava vivo, febril, espremido entre os mortos para entrar na cidade sem pagar tarifa de refugiado.
— Lucas disse que voltava — murmurou ele.
Alice deu-lhe água e mandou Wenna levá-lo à casa Vale.
Calderis cobrava entrada até de quem sobrevivia. Pelo menos uma dívida antiga acabara de atravessar o portão.
O telhado da casa dos curtidores cedeu sob a bota de Bren e quase mandou os dois para dentro de um tanque de urina.
Alice agarrou a chaminé. Bren abriu os braços, recuperou o equilíbrio e olhou para baixo.
— Já escondi cadáver em lugar melhor.
— Espero que não conte a história.
— Eu era novo.
— Isso nunca melhora história de cadáver.
Seguiram por telhados baixos até uma viela atrás do cemitério dos pobres. A noite abafava Calderis com fumaça de lenha e comida velha. Chovia fino. Alice sentia a camisa colar nas costas e uma sensibilidade incômoda nos seios sob o linho. Contara os dias do próprio sangue tantas vezes na estrada que parara de contar para não encontrar a resposta cedo demais. O corpo continuava a conta sem a ajuda dela.
Bren se agachou junto a uma calha.
— Ali.
A sexta carroça passava entre dois muros, conduzida por acólitos com máscaras de pano. Alice e Bren desceram por uma escada externa. Esperaram a carroça dobrar e tocaram o sulco deixado pela roda.
O resíduo vermelho tinha cheiro de igreja úmida e moeda mordida.
— Ferrugem — disse Alice.
Bren esfregou sal grosso. Os cristais estalaram, escureceram nas bordas e pararam.
— Pura o bastante para reagir. Fraca o bastante para transportar.
— Preparada.
— Parece.
Um ruído veio de trás do muro. Três batidas, pausa, três. Depois unhas raspando pedra.
Alice encontrou um respiradouro coberto por grade. A abertura dava para um corredor inclinado sob o cemitério. Lamparinas se moviam lá embaixo. Dois homens arrastavam um cadáver vestido com cota de malha antiga; uma coroa de ferro enferrujado fora presa ao crânio por grampos.
O morto virou a cabeça.
Mesmo a distância, Alice viu os olhos abertos. A boca trabalhou ao redor de uma palavra que não chegou até a rua.
Bren puxou Alice pelo cinto quando ela se inclinou.
— Coroado — sussurrou. — Ou estão tentando fazer um.
— Nas criptas?
— Precisa de cripta e nome. Tem ambos.
Outro corpo passou: mulher em hábito eclesiástico, dedos amarrados com fio rubro. Um confessor caminhava ao lado lendo de uma lista.
— Alda Merin — pronunciou ele. — Absolvida sob o quarto fogo. Restituída ao serviço.
O cadáver sentou na maca.
Alice mordeu a parte interna da face para conter o som. A coisa virou os olhos para a grade. Por um instante, farejou como uma raposa procurando toca.
Alice.
O nome roçou a mente dela com a delicadeza de um anzol. A pele do antebraço formigou. A garça subiu como gosto de água antiga, pedindo memória em troca de fuga.
Alice negou a forma. Encostou a testa no tijolo molhado e ficou humana.
Bren derramou uma linha de sal diante da grade. Lá embaixo, a mulher morta bateu os dentes. O confessor apressou a maca.
Voltaram sem conversar. Na última viela, Alice parou e vomitou o pão seco junto a uma pilha de palha. Bren segurou o cabelo dela, olhando para a rua.
— Cobre demais? — perguntou.
— Caldo ruim.
— Você não tomou.
Alice limpou a boca.
— Então o cheiro.
Bren não insistiu. Tirou do bolso uma folha de hortelã amassada e entregou a ela.
— Conheci muita gente que preferia contar o corpo por último — disse apenas.
— E quantas agradeceram conselho?
— Nenhuma. Por isso parei de dar.
Na casa Vale, Lucas esperava acordado. Alice contou sobre o Coroado, a lista de nomes e a mulher chamada Alda Merin. Odran escreveu o nome num pedaço de madeira; disse que procuraria o registro de morte. Bella mandou comprar a chave da lavanderia por qualquer preço.
Finn estava encolhido junto ao fogo. Quando Alice se aproximou, ele cobriu os ouvidos.
— Eles batem por baixo — disse. — Querem subir, mas alguém ainda segura as portas.
— Quem?
— Um homem com voz de sino.
Merrow.
Lucas colocou a ordem das minas sobre a mesa, longe das chamas.
— Amanhã começamos pelos notários.
Alice mastigou a hortelã. O gosto fresco durou pouco antes de virar metal.
— Amanhã começamos a tirar de Merrow o direito de escolher qual morto sobe.
No quarto, ela encontrou uma bacia de água limpa e uma camisola dobrada. Lucas dormiu no chão, entre a porta e a pasta, sem tentar dividir a cama. Alice deitou de lado. O ventre ainda era plano sob a mão, o atraso apenas uma soma que ela se recusava a pronunciar.
Debaixo das ruas, alguma coisa bateu três vezes. Calderis respondeu com os sinos.
Fim do Capítulo 18