Capítulo 15
Tenda e Tempestade
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Capítulo 15
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A agulha de sovela atravessou o couro e entrou na base do polegar de Alice.
Ela xingou, chupou o ponto de sangue e prendeu a bota esquerda entre os joelhos. A sola abrira junto ao calcanhar naquela manhã. Bren cedera uma tira de couro de alforje e um pedaço de fio encerado, depois observara o trabalho por tempo suficiente para ofendê-la.
— Se quiser rir, ao menos segure a lamparina.
Bren ergueu a luz. A chama amarela cavou as rugas ao redor dos olhos dele.
— Estou tentando descobrir como alguém que fecha barriga de porco com três pontos faz esse ninho numa bota.
— Porco não caminha.
— Depois que você cuida, espero que não.
Finn soltou uma risada pelo nariz. Estava sentado sobre um marco derrubado, envolto numa manta grosseira.
Lucas conferia os documentos de Bella dentro do abrigo. Desde o ataque dos Lembrados, tocava a pasta de couro a cada poucos minutos. Tocava também a espada. A pasta recebia mais cuidado.
Alice puxou o fio com força demais. O nó afundou no couro.
Finn acompanhou o olhar dela.
— Ele já contou as folhas quatro vezes.
— Cinco — disse Bren. — Na quarta, você estava falando com um morto.
O menino recolheu o queixo entre os joelhos.
Alice quis acertar Bren com a bota. Em vez disso, cortou o fio com os dentes.
— A voz usou o nome de Mara — disse Finn.
Lucas parou de virar páginas. Alice não olhou para ele.
Na noite anterior, o Lembrado chamara Mara com voz de menina. Bren queimara o corpo antes que Alice descobrisse se a criatura sabia mais alguma coisa ou apenas pescava dentro da ferida.
— A voz usou um anzol — respondeu Alice. — Você mordeu porque conhecia o nome.
— Você também.
Ela examinou a costura torta. Um ponto frouxo deixaria entrar barro. Passou outro.
Lucas saiu do abrigo com a pasta debaixo do braço.
— O menino não tem culpa de ter ouvido.
— Eu sei onde está a culpa do menino.
— Sabe?
A pergunta veio baixa. Alice sentiu a farpa.
Bren entregou a lamparina a Finn e se levantou.
— Vou olhar as armadilhas.
— Você pôs as armadilhas há meia hora — disse Alice.
— E já me afeiçoei.
Ele pegou a lança e seguiu pelo capim. Finn foi atrás.
Alice enfiou o pé na bota. A tira nova apertava o calcanhar, mas a sola ficou presa.
— Serve — disse Lucas.
— Sua aprovação salvou o couro.
Ele se agachou diante dela. Tinha lama seca no joelho e uma linha vermelha junto à sobrancelha, lembrança da pedra que um Lembrado arremessara.
— Está apertada — disse ele.
— Está inteira.
— Até abrir sua pele.
— A pele fecha.
Lucas tirou a faca e usou a ponta para soltar dois pontos, sem cortar o resto da costura.
— Pronto — disse ele.
Ela calçou a bota outra vez. O couro ainda segurava e deixou espaço no calcanhar.
— Irritante.
— Aceito como agradecimento.
Um vento frio atravessou a estrada e virou as folhas soltas que Lucas deixara sobre uma pedra. Ele se ergueu depressa, agarrou duas e pisou na terceira. Alice segurou a quarta antes que voasse para a vala.
O céu a oeste tinha engrossado até ficar da cor de uma contusão. Nuvens baixas roçavam os morros. Alice sentiu cheiro de chuva, forte e mineral, seguido por um bafo de cobre que a fez procurar movimento no capim.
— Bren — chamou.
O caçador surgiu adiante com Finn nos calcanhares.
— Vi.
— Você viu nuvem — disse Alice. — Sentiu o cobre?
— Pedra molhada — respondeu Bren.
O primeiro trovão rolou atrás do morro.
Bren apontou para as cargas.
— Tenda pequena entre as duas pedras. Lona grande sobre o abrigo. Sal em sacos, não no chão. Mexam.
Alice guardou a bota remendada e correu.
A chuva alcançou o acampamento antes de conseguirem o segundo nó.
Lucas puxava a lona grande sobre o que sobrara do telhado. Bren segurava uma ponta; Finn arrastava uma pedra que mal conseguia mover. Alice subiu na parede baixa, amarrou a corda ao redor de uma viga apodrecida e testou a madeira com o peso.
— Vai quebrar — gritou Lucas.
— Então pare de puxar.
— Se eu parar, a lona vai embora.
— Escolha a desgraça de que gosta mais.
Uma rajada encheu a lona como barriga de animal morto. A viga estalou. Alice saltou antes de cair com ela e afundou as duas botas na lama. Lucas largou a corda para agarrá-la pela cintura. A lona escapou da mão dele, chicoteou Bren no ombro e voou por cima da parede.
Bren ficou parado sob a chuva, cabelo grisalho colado à testa.
— Gostei mais dessa — disse Alice.
Ele cuspiu água.
— Tenda. Agora.
A tenda pequena cabia entre duas pedras altas. Alice passou uma volta pelo ressalto da primeira enquanto Lucas fincava estaca com o punho da espada. Bren e Finn levaram as cargas para o abrigo.
Alice entrou com água descendo por dentro da camisa. Lucas veio atrás, carregando mantas, a pasta de couro e o saco de comida.
— Finn? — perguntou ela.
— Com Bren. Secos o bastante.
Lucas apoiou a pasta sobre o saco de aveia. Alice conteve a água que entrava pela costura com um pano velho. Um trovão apagou a vela; Lucas segurou o antebraço dela, o polegar sobre a cicatriz deixada por Sybelle. Quando reacendeu a chama, Alice afastou a mão.
— Preciso ver as folhas — disse Lucas.
Ele alcançou a pasta.
Alice guardou o álcool.
— Você já viu.
— A borda molhou.
— Finn passou a noite ouvindo uma coisa que conhecia o nome de Mara. Bren sentiu cobre e fingiu que era pedra. As montarias estão presas numa vala. Você quer contar folhas.
Lucas abriu a primeira fivela.
— Quero impedir que a única prova aceita por Bella vire polpa.
— Bren consegue olhar couro. Eu consigo olhar Finn.
— Então olhe.
Alice sentiu a raiva subir rápida, como água de chuva entrando por toca de rato.
— Mande.
— Eu não mandei.
— Usou a voz de homem que espera ser obedecido. A palavra muda pouco.
Lucas fechou os dedos sobre a fivela, mas não a soltou.
— O que você quer de mim?
— Que fique onde está por dez minutos sem tocar nessa pasta.
— Por quê?
Ela odiou a pergunta porque tinha respostas demais. O nome de Mara ainda arranhava por dentro. O raio fizera as mãos dela tremerem. Lucas estava a meio braço de distância, molhado e vivo, e Alice queria essa distância fechada. Dizer qualquer parte disso entregaria a ele uma faca sem cabo.
— Porque há gente aqui.
— Os papéis tratam de gente.
— Papel não tem febre, fome nem voz de morto na cabeça.
— Papel registra quem causou isso.
— E enquanto você registra, alguém segura a bacia.
Lucas puxou a pasta para o colo.
— Sem esses documentos, Merrow chama cada cadáver de acidente. Bella perde o direito de audiência. Os homens que abriram as minas continuam recebendo soldo.
— Finn está no outro abrigo.
— Com Bren.
— Porque você decidiu que isso bastava.
— Você decidiu a mesma coisa quando entrou aqui.
A farpa encontrou carne. Alice levantou tão depressa que bateu a cabeça na lona. A tenda balançou.
— Eu estava amarrando sua cobertura.
— Nossa cobertura.
— A pasta ganhou lugar seco antes das minhas ervas.
— Se o selo apodrecer, a cópia vale tanto quanto história de bêbado.
— Então durma abraçado com ele.
Lucas ficou muito quieto. Ele fazia isso quando a raiva chegava: prendia cada músculo como se ainda houvesse criados do lado de fora e um pai avaliando sua postura.
— Você me acusa antes que eu tenha escolhido — disse ele.
— Você escolheu agora.
Ele respirou pelo nariz. A mão direita apertou a pasta; a esquerda, vazia, ficou sobre o joelho.
— Ontem você queria seguir o Lembrado que chamou Mara. Finn caiu. Eu o tirei do alcance enquanto você procurava uma morta no escuro.
Alice sentiu o golpe no mesmo lugar onde a voz da criatura entrara.
— Cale a boca.
— Você perguntou quem eu escolho.
— Eu disse para calar a boca.
— E eu escolhi Finn.
Ela deu um passo para ele. Faltava espaço para outro. Lucas não recuou, mas largou a pasta.
— Você quer que eu diga que papel é inútil porque Sybelle ensinou você a desconfiar do que não consegue ler — disse ele. — Quer que eu fique perto, mas transforma isso numa prova de caráter para não precisar pedir.
Alice acertou o rosto dele com a palma.
O estalo se perdeu sob a chuva. Lucas virou a cabeça. Uma marca vermelha apareceu na face, quatro dedos nítidos.
Alice olhou para a própria mão. Quis ter usado o punho. Quis arrancar o golpe do ar. Nenhuma vontade ajudou.
Lucas tocou o lábio com a língua. Quando tornou a encará-la, a contenção tinha rachado.
— Minha família guardou baús enquanto as aldeias pagavam. Cada vez que fecho essa pasta, eu sei. Ainda vou levá-la às minas.
— Mesmo se alguém ficar embaixo da pedra.
— Você já decidiu que sim.
— Eu conheço homens que chamam abandono de cálculo.
— E eu conheço uma mulher que chama medo de prudência.
Alice desamarrou a aba.
— Saia.
— Está caindo o céu.
— Leve o papel. Ele precisa mais de você.
Lucas pegou a pasta. A hesitação durou um fôlego. Depois ele saiu para a chuva.
Alice amarrou a aba e ficou agachada no escuro, porque a vela apagara outra vez.
Ela remendou a bota de novo.
Dois pontos que Lucas soltara tinham aberto sob a lama. Alice passou a sovela com os dedos rígidos, furou o couro no lugar errado e desfez o trabalho. A chuva batia na lona. A cada clarão, a sombra das mãos dela crescia sobre a pedra.
O pior da raiva perdera calor. Restava uma dor áspera na garganta e a lembrança da face dele cedendo sob a palma. Sybelle batia sem perder a precisão. Alice sempre desprezara essa calma. O próprio golpe fora rápido, sujo e igualmente dado.
Ela puxou o fio até o ponto morder o couro.
Alguém mexeu na aba.
— Se for você, Lucas, procure outra tenda.
— Tenho barba demais para ser Lucas — respondeu Bren.
Ele entrou de lado, carregando uma panela pequena coberta por um prato de madeira.
— O menino está com Lucas — disse Bren. — O rapaz conta uma história de notário e Finn exige detalhes da digestão.
Bren apoiou a panela perto dela. O cheiro de cebola e gordura encheu a tenda.
— Trouxe comida para me fazer falar?
— Trouxe porque você erra ponto quando está com fome.
— Você nunca me alimentou por respeito à costura.
— Também quero minha sovela de volta.
Alice abriu a tampa. Papas de aveia, cebola tostada e pedaços de queijo boiavam na superfície.
— Finn comeu?
— Raspou o fundo da primeira panela. Depois perguntou se mortos sentem gosto. Mandei perguntar a um.
Alice comeu uma colherada. Estava salgado demais. Comeu outra.
Bren observou a bota.
— A cara dele tem seus dedos.
Alice raspou queijo do fundo da panela.
— Ele falou de Sybelle.
— Eu imaginei.
— Saia, Bren.
Bren se arrastou até a aba. Antes de sair, deixou um embrulho sobre as mantas.
— Lucas mandou.
Dentro havia metade de um queijo, uma maçã e o frasco de alecrim-de-brejo envolvido na camisa seca de Lucas.
— Ele foi ver os cavalos — disse Bren. — A pasta ficou com Finn.
— Finn não lê os selos.
— O menino disse que papel não grita.
Bren saiu.
Alice comeu a maçã até o caroço. Desmanchou a costura da bota e recomeçou. Com os dedos aquecidos pela panela, os pontos entraram iguais.
Depois pegou a camisa de Lucas.
O rasgo ficava perto da barra. Alice dobrou as bordas do linho para dentro e fechou-o com pontos pequenos. Quando terminou, a chuva estava mais fraca.
Alice dobrou a camisa e saiu.
O abrigo tinha um fogo pequeno entre pedras. Finn dormia com os pés sobre a pasta de couro. Lucas passava gordura numa rachadura do casco da égua cinza.
Alice parou sob o resto do telhado. Lucas olhou para ela, depois voltou ao casco.
Alice se agachou do outro lado da perna do animal e apalpou a borda da rachadura.
— Amanhã ela vai sem carga.
— Eu levo a pasta.
— Claro que leva.
Lucas soltou a perna do animal. A marca dos dedos ainda estava no rosto dele, mais escura perto da mandíbula.
Alice estendeu a camisa dobrada.
— O frasco estava inteiro.
Ele recebeu a peça e encontrou a costura com o polegar.
— Obrigado.
— Eu bati em você.
Lucas colocou a camisa sobre uma pedra seca.
— Bateu.
— Não vou explicar até parecer outra coisa.
— Ainda bem.
Ela limpou gordura dos dedos num punhado de palha.
— Sinto muito.
Lucas assentiu uma vez. A boca dele continuou dura.
— Eu não devia ter usado Sybelle para ferir você — disse. — Queria ganhar a briga.
— Ganhou?
— Minha cara diz que não.
Alice passou o polegar no resto de gordura. Queria tocar a marca e não confiava na própria mão.
— Eu queria que ficasse — disse ela. — Depois do Lembrado. Depois do raio. Queria você perto e fiquei com raiva porque precisaria pedir.
Lucas olhou para o fogo.
— Eu queria abrir a pasta porque consigo proteger papel. Gente muda de lugar, sangra, decide partir.
— Papel também queima.
— Você sabe ajudar.
— Às vezes.
Comeram o queijo em silêncio. Era duro e salgado; Alice mastigou mesmo assim e ouviu Finn respirar.
Um lado da boca dele cedeu. O outro estava inchado.
Alice recolheu a camisa e se levantou.
— A tenda está menos molhada.
Lucas olhou para ela, atento.
— Quer que eu volte?
— Quero.
Ele ficou de pé.
Lucas pendurou a camisa remendada numa corda dentro da tenda e sentou perto da entrada. Deixou espaço entre os dois. Alice fechou a aba, acendeu a vela e colocou a bota ao lado da pedra.
Por alguns minutos, nenhum deles falou. Alice passou cera no último ponto da bota.
— Tenho medo de chegar às minas — disse Lucas.
Alice continuou esfregando a cera.
— Pensei que tivesse medo apenas de perder selo.
— Também. Talvez eu descubra por que meu pai assinou as ordens.
— E se descobrir que ele sabia?
— Vou querer achar uma palavra que torne tudo menos ruim.
— Você conhece muitas.
— Esse é o problema.
— Sybelle sempre achava a palavra certa depois — disse Alice. — Disciplina. Preparo. Proteção. A cicatriz ficava no mesmo lugar.
Lucas tocou a cicatriz com dois dedos.
— Hoje queria prender você aqui e chamar isso de cuidado — continuou ela.
— E eu quis ganhar a briga.
Ela quase riu. Lucas passou a língua no corte do lábio, e o movimento levou os olhos dela até a boca dele.
— Deixe-me ver — disse.
— Você já viu de perto.
— Posso piorar se preferir.
Ele se aproximou. Alice segurou o queixo dele, virou o rosto para a vela e examinou a pele. A marca perderia a cor em dois dias. O corte do lábio tinha fechado.
— Vai viver.
— Bren ficará decepcionado.
Alice manteve os dedos no queixo dele. A barba áspera raspou sua palma. Lucas não avançou. Esperou com as mãos abertas sobre os joelhos.
Ela o beijou.
O primeiro toque encontrou gosto de sal. Lucas respondeu devagar. Alice segurou a nuca dele e aprofundou o beijo. O lábio ferido abriu de novo; ela sentiu o ferro do sangue.
— Quer que eu pare?
— Não.
A mão dele ficou na cintura dela, firme e quente.
Lucas tocou a cicatriz novamente. Alice pegou a mão dele e levou-a da cicatriz até a própria nuca.
— Aqui — disse.
Ele entendeu. Os dedos entraram nos cabelos úmidos, massagearam a pele sensível junto à raiz. Alice fechou os olhos. A chuva, o fogo distante e a pasta de couro ficaram além da lona. Dentro havia a vela curta, lã molhada, uma bota remendada e o joelho dele entre os seus.
Lucas desatou o cordão da camisa dela e parou.
— Alice.
Ela abriu os olhos.
— Eu quero.
— Amanhã também?
— Amanhã vou reclamar da estrada, da sua pasta e da maçã verde. Quanto a isto, quero hoje sabendo que amanhã existe.
Ele assentiu. Alice puxou a camisa pela cabeça.
O ar frio tocou sua pele antes da boca dele. Lucas beijou o ombro e a curva do pescoço. Alice abriu os botões da camisa dele e encontrou uma marca branca sob as costelas.
— Cavalo — explicou Lucas.
— Imagino que tenha vencido.
Ela riu contra a boca dele. Lucas deitou a manta sobre o chão mais seco. Tiraram as roupas molhadas aos poucos, tropeçando em botas e fivelas, com pausas para rir baixo e ouvir se Finn chamava. Ninguém chamou.
Quando ficaram pele contra pele, Alice sentiu o cuidado dele como uma pergunta repetida. Respondeu puxando-o para mais perto, guiando a mão, dizendo sim quando a respiração já não bastava. O desejo veio quente e fundo, misturado à vergonha de ser vista e ao alívio de não precisar se esconder. Ela conhecia o próprio corpo, conhecia homens e conhecia o que podia acontecer quando dois corpos se encontravam assim. Mesmo assim, escolheu não interromper. Prendeu as pernas ao redor dele e recebeu Lucas por inteiro, sem erva, barreira ou retirada.
A tempestade cobriu os sons. Alice mordeu o ombro dele quando o prazer apertou como maré presa entre raízes. Lucas escondeu o rosto no pescoço dela. Depois ficaram imóveis, ainda unidos, respirando o mesmo ar abafado.
Ele se afastou apenas quando ela soltou as pernas. Alice sentiu o calor dele permanecer dentro dela. Alcançou o pano limpo do estojo, mas ficou deitada por mais alguns instantes, a mão aberta sobre o ventre. Conhecia os dias do próprio sangue. Conhecia sementes, riscos e escolhas. A conta passou por sua cabeça e seguiu adiante sem pedido de arrependimento.
Lucas se apoiou num cotovelo.
— Está bem?
— Estou com frio numa parte e calor em todas as outras.
Ele puxou a manta sobre os dois.
— Posso buscar outra.
Alice segurou o pulso dele.
— Pode ficar.
Lucas ficou.
Mais tarde, limparam-se com o pouco de água que não tinha gosto de couro. Alice vestiu a camisa remendada dele; a barra chegou à metade das coxas.
Comeram o pedaço que Bren deixara. Lucas cortou as bordas duras; Alice tomou-as da mão dele e mastigou mesmo assim. A vela diminuiu até formar um lago de cera no prato.
Deitados de lado, Alice encostou as costas no peito dele. Lucas não perguntou por Mara.
— Se eu encontrar alguma coisa nas minas sobre Sybelle...
— Mostre.
— Mesmo se ferir?
— Principalmente.
— E se houver alguém sob a pedra?
A pergunta abriu o resto da briga entre eles. Alice virou de frente.
— Ajude a pessoa.
— E se a prova puder impedir outras mortes?
— Então vou odiar qualquer escolha que fizer.
— Justo.
— Também vou ajudar a tirar a pedra. Você decide o que faz com as mãos.
Lucas passou o polegar pela sobrancelha dela.
— Ainda pode ser o papel.
— Eu sei.
Ficaram acordados até a chuva virar goteira mansa. O desejo voltou sem urgência. Alice o beijou outra vez, e eles se tocaram devagar, sem atravessar a mesma distância. Quando o sono chegou, a mão de Lucas descansava aberta sobre a cintura dela. Alice poderia sair sem afastá-la. Escolheu fechar os olhos.
Finn os acordou batendo uma colher numa pedra.
— Bren disse que, se não levantarem, ele fica com o queijo.
Alice abriu os olhos. A claridade atravessava a lona. Lucas dormia de costas. Ela lembrou cada ponto da camisa que vestia e cada coisa que fizera depois de vesti-la.
— Já comemos — respondeu.
Finn ficou quieto do lado de fora.
— Todo?
Alice ouviu a indignação do menino e sorriu.
— Sobrou casca de maçã.
— Vocês são péssimos.
Os passos dele se afastaram.
Alice saiu da manta. As coxas doíam de leve. Entre elas, seu corpo guardava umidade e uma sensibilidade nova. Ela se lavou, vestiu as próprias calças e calçou a bota remendada. A sola segurou.
Lucas tocou a face diante do pequeno espelho de metal.
— Está pior.
— Combine com o cavalo. Diga que caiu.
— De cara na mão de uma mulher?
Alice prendeu o cabelo.
— Acidente comum nas estradas.
Ao saírem, encontraram Bren enrolando cordas junto ao abrigo. Ele olhou a camisa de Lucas no corpo de Alice, depois para a marca no rosto dele.
— Vejo que fizeram as pazes pela metade.
— A outra metade não lhe diz respeito — respondeu Alice.
Bren mordeu um pedaço de queijo.
Finn estava junto à égua cinza, dividindo aveia com ela na palma. Parecia ter dormido pouco. Alice se aproximou e examinou seus olhos, as unhas, a cor da boca.
— Ouviu alguma coisa?
— Chuva. Bren roncando. Vocês discutindo antes.
— Se quiser queijo, roube o bolso esquerdo de Bren.
O menino foi embora sem hesitar. Bren protestou quando Finn enfiou a mão no casaco.
Lucas guardou a pasta nas próprias costas e prendeu os fechos. A égua cinza seguiria sem carga. Alice verificou o casco mais uma vez, distribuiu suas ervas entre as outras montarias e montou.
A estrada tinha virado uma faixa de barro cortada por água. O ar cheirava a capim lavado. Seguiram para as pedras das minas, onde Finn dizia que a voz despertaria. Bren tomou a dianteira. Finn veio atrás dele, mastigando o queijo roubado. Lucas cavalgou ao lado de Alice.
— A bota? — perguntou.
Ela moveu o pé no estribo.
— Inteira.
— A pele?
— Também.
Depois de uma légua, Alice ajustou as rédeas e olhou para Lucas. A marca de sua mão continuava visível na face dele; sob a capa, a camisa remendada roçava a pele dela. Nenhum dos dois tentou dar à noite um nome maior do que cabia na manhã.
Seguiram para as pedras das minas.
Fim do Capítulo 15