Capítulo 14
Lembrados
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Capítulo 14
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A estrada para a fronteira não perdoava quem dormia profundo.
Acamparam numa curva de pedra seca, onde o vento dispersava o cheiro de cavalo antes que ele grudasse na lona. Sal em círculo largo, fogo baixo para não anunciar posição a quem passasse longe. Finn dormia no centro, o sal ainda amarrado na garganta. Os homens de Bella acampavam distantes o bastante para a proteção deles ser mais nominal do que real. Alice ficou de vigia com a faca no colo, ouvindo Lucas respirar fundo, Bren roncar baixo, Finn resmungar palavras soltas no sono.
Antes de se deitar, Bren tinha revisado o círculo de sal três vezes, testando com a bota cada trecho onde o vento poderia ter aberto uma brecha.
— Se algo passar do sal pra dentro — avisara ele, apontando primeiro para Lucas, depois para Alice —, cabeça e sal, nessa ordem. Ninguém improvisa ordem diferente essa noite. Sinto isso no ar.
Ninguém perguntou o que ele sentia exatamente. Bren tinha o hábito de acertar demais para valer a pena discordar.
Finn gemeu no sono antes de qualquer cheiro chegar, um som fino e contínuo entre pesadelo e palavra.
— Alice — murmurou o menino, ainda de olhos fechados. — Tem gente vindo. Gente que já morreu.
Alice já estava de pé antes de ele terminar a frase, a faca na mão, os olhos correndo pela escuridão além do círculo de sal. O aviso de Finn valia mais que qualquer sentinela: ele ouvia a fome deles antes de qualquer nariz sentir o cheiro.
O cheiro chegou logo depois, confirmando o menino: cobre quente, linho podre, o bafo de uma confissão velha demais para ser sincera.
— Acordem — sussurrou Alice, já de pé.
Bren levantou num salto, faca numa mão e sal na outra. Lucas desembainhou a espada ainda deitado, rolando para fora das mantas. Três formas paravam na borda da luz do fogo, veios vermelhos pulsando sob a pele deles como se escutassem o coração de alguém à distância.
Lembrados.
— Três — contou Bren, baixo, os olhos correndo de um corpo a outro. — Alice, o do meio é o mais fraco, veio quase apagado. Lucas, pega o da direita, ele carrega lança, não deixa ele te encurralar contra a pedra. Eu fico com o soldado.
— E Finn? — perguntou Lucas, sem tirar os olhos dos mortos.
— Finn fica onde está — respondeu Bren. — Se mexer, atrai olhar. Se ficar quieto, é só mais uma sombra.
Finn, já acordado, encolheu-se junto à fogueira sem precisar de segunda ordem, as mãos apertando o pano de sal contra o próprio peito com tanta força que os nós brancos dos dedos brilhavam à luz das brasas.
O rosto do mais novo — um soldado, ainda com farrapos de uniforme — se rasgou num sorriso torto quando a voz saiu dele e dos outros dois ao mesmo tempo:
— Alice do brejo. Alice das tranças. Você deixou Mara na lama.
Os joelhos de Alice quase cederam, como se alguém tivesse aberto à força uma porta que ela mantinha trancada havia anos. A menina sem rosto do buraco de sempre latejou fundo. Por fora, Alice não deixou nada se mover.
— Não escuta ele — rosnou Bren, arremessando um punhado de sal na direção do soldado.
— Mara esperou. Sybelle arrancou. Você assentiu — riu o Lembrado, a voz rachando no meio da frase.
Lucas avançou contra o segundo Lembrado, o de lança, exatamente como Bren tinha mandado — cortando de lado, sem se deixar prender contra a pedra atrás dele. A lança raspou o ombro da capa; ele girou o corpo e cortou o tendão do joelho do morto, derrubando-o antes de acertar o golpe final.
— Não fala com eles, nenhum dos dois! — gritou Bren, por cima do ombro, enquanto trocava golpes rápidos com o soldado, aparando um corte que teria aberto o próprio braço se tivesse chegado meio palmo mais perto.
Alice deixou a víbora subir só até o tendão da mão — o suficiente para o corte certeiro, caro o bastante para levar embora o nome de um riacho da infância dela. Voltou humana ofegando, a faca ainda firme entre os dedos. Bren cortou o fio de Ferrugem que prendia o primeiro corpo à terra; Lucas derrubou o segundo com um golpe nas pernas; o terceiro caiu cego, sal na órbita dos olhos.
Finn, do chão, tinha os olhos fechados e a boca se mexendo em silêncio — Alice reconheceu depois que ele estava contando, do jeito que Bren tinha ensinado, três nomes de coisas comuns repetidos sem parar, para não deixar espaço na cabeça para a voz que chamava por Mara.
Um quarto Lembrado saiu debaixo da carroça de documentos.
Ninguém o vira porque usava o corpo de uma mulher pequena, dobrado entre as rodas. Ela agarrou Finn pelo tornozelo e puxou. O menino bateu a cabeça numa pedra. A carroça inclinou quando o morto usou o eixo para se erguer.
A caixa com as cópias de Bella escorregou para a borda. Abaixo havia um barranco cheio de água.
— Lucas! — gritou Alice.
Ele estava entre os dois. À esquerda, Finn era arrastado para fora do círculo. À direita, a caixa começava a cair.
Lucas agarrou a alça de couro.
Alice atravessou o sal e se lançou sobre Finn. A Lembrada tinha unhas dentro da bota do menino. Alice cortou dois dedos, chutou o maxilar e puxou Finn de volta. O morto mordeu sua capa e rasgou a lã até o ombro.
— Mara pediu para você voltar — sussurrou com voz de menina.
Alice enfiou sal nos olhos da criatura. Bren terminou com a faca na garganta.
Quando olhou para Lucas, ele prendia a caixa contra o peito. Finn sangrava na têmpora, desacordado.
— Você escolheu papel — disse ela.
— Você já estava com ele.
— Eu gritei seu nome.
— E vi você alcançar Finn. Se eu soltasse, perdíamos os documentos e ele continuava salvo.
— Você não sabia.
— Sabia que você era mais rápida.
A resposta tinha confiança dentro. Também tinha cálculo. Alice odiou não conseguir separar os dois.
Bren cambaleou um passo para trás quando tudo terminou, a manga do braço esquerdo rasgada onde a lança do soldado tinha raspado fundo o bastante para sangrar.
— Você está ferido — disse Lucas, já se aproximando.
— Estou vivo — corrigiu Bren, apertando o pano contra o corte. — São coisas diferentes, mas hoje aceito as duas juntas.
Silêncio depois. Cheirava a carne queimada e a mentira antiga.
Finn chorava sentado nas mantas, as mãos apertadas contra os ouvidos.
— Eles sabem o que a gente esconde — disse o menino, a voz fina de novo.
— Sabem o que a Ferrugem consegue pescar — corrigiu Bren, ainda ofegante, limpando a testa com as costas da mão. — É pesca, longe de adivinhação. Jogam anzol até fisgar alguma dor de verdade.
Alice respirava em golfadas curtas demais. Mara. Sybelle. Você assentiu, dissera o morto — e ela não lembrava de ter assentido a nada. Lembrava só de uma dor vazia, sem imagem para segurar.
Lucas tocou o braço dela, hesitante.
— Alice.
— Não pergunta agora — respondeu ela, seca.
Ele fechou a boca sem insistir. O respeito dele doeu mais do que uma pergunta teria doído.
Bren limpou a faca na perna da calça, devagar.
— Lembrado usa culpa de verdade pra te pegar. Metade serve de isca; a outra, de fisgada. Você é quem escolhe o que mata primeiro.
Ao amanhecer, Bren queimou os três corpos com sal misturado à lenha, até a fumaça virar um cheiro que dava para suportar.
— Veio fica na terra se não queimar — explicou ele, empurrando um tronco mais para dentro do fogo com a bota. — Isso planta medo pro próximo viajante. Fumaça resolve agora.
Alice ajudou a empilhar a lenha, as mãos pretas de cinza até o pulso. Lucas anotou no caderno as marcas erradas nos veios de Ferrugem, a letra tremendo mais do que de costume. Finn cantarolou de novo sem melodia nenhuma — a própria voz, não a de nenhum morto.
Ninguém dormiu o resto da manhã. Bren foi buscar água num riacho próximo. Lucas e Alice ficaram sentados junto à fogueira já morta, os corpos reduzidos a cinza e osso enegrecido.
— Eu não sabia sobre Mara — disse Lucas. — Sobre o buraco que você carrega.
— Eu também não sei — respondeu Alice. — Sei que falta alguma coisa. Sei que dói quando falam o nome dela. Não sei se fui cúmplice ou só uma criança que não entendeu nada.
— Você tinha quantos anos?
— Não sei nem isso. Sybelle apagou o número junto com o resto.
Lucas ficou calado por um momento, os olhos fixos nas cinzas ainda fumegantes.
— Quando eu tinha dez anos — disse ele, por fim —, meu tio Aldric me ensinou a jogar cartas escondido da minha mãe. Perdíamos moedas de mentira, feitas de casca de nogueira. Ele trapaceava e eu sabia que ele trapaceava, e gostava mesmo assim, porque era o único adulto que brincava comigo sem cobrar nada depois. Contei essa história pra você agora porque é a única lembrança boa que ainda tenho dele, e hoje de manhã um cadáver falou com a voz dele e eu quase esqueci que a lembrança boa existia.
Alice olhou para ele, surpresa com a oferta — um pedaço de infância trocado por outro, mesmo que o dela continuasse com um buraco no meio.
— Obrigada — disse ela, simples. — Por contar isso sem eu pedir.
Lucas abriu a palma da mão sobre o joelho, sem pedir nada com o gesto.
Alice entrelaçou os dedos nos dele. O aperto veio firme, e o tremor era dos dois, não só dela.
— Tenho medo de ser só o que minha mãe fez de mim — disse ela. — Medo de te arrastar comigo nisso.
— Tenho medo de limpar o nome de Ardel e não sobrar mais nada depois — murmurou Lucas. — Fica. Estou escolhendo hoje, sem prometer final feliz. Só isso.
— Escolha de hoje é pouco — disse Alice, a voz baixa, quase experimentando o próprio medo em voz alta pela primeira vez. — E se amanhã eu esquecer seu nome do jeito que esqueci o de Mara? E se um dia eu virar víbora e não sobrar memória suficiente pra voltar humana, pra voltar pra você?
— Então eu grito seu nome até você lembrar — respondeu Lucas, sem hesitar, como se já tivesse pensado nisso mais vezes do que admitia. — E se não lembrar, eu conto de novo. Quantas vezes precisar.
— Isso é teimosia com pretensão de plano.
— Só tenho essa teimosia pra te oferecer; documento e espada ficam de fora — disse ele. — Aceita mesmo assim?
Alice sentiu o peito apertar de um jeito que não tinha nada a ver com medo de morrer.
— Aceito hoje — disse ela. — É o máximo que eu prometo por enquanto.
Ela o beijou primeiro. Lucas respondeu devagar, uma mão subindo até a nuca dela. Quando o desejo apertou a distância, Alice apoiou a palma no peito dele e parou.
— Hoje não.
— Por Finn?
— Pela caixa.
Lucas soltou a cintura dela.
— Eu escolheria de novo se você já estivesse alcançando o menino.
— E eu talvez ainda beijasse você depois. As duas coisas podem ser ruins juntas.
Bren, do outro lado do acampamento, fingiu estar muito ocupado afiando a faca. Finn dormia de verdade, com um curativo na têmpora.
Quando se afastaram, Alice olhou para a escuridão que já começava a clarear no horizonte.
— Se os mortos guardam o que minha mãe rouba — murmurou ela — esse reino inteiro é um arquivo de crimes.
— Então lemos o arquivo — disse Lucas. — Juntos. Sem martírio de nenhum dos dois.
— Hoje — concordou Alice. — Amanhã sangramos de novo, provavelmente.
Montaram e deixaram os Lembrados queimados para trás; a culpa viajava com eles de qualquer jeito, presa na sela. Mara continuava sem rosto, mas ganhara peso de gente de verdade — perigosa e viva ao mesmo tempo.
À tarde, pararam num riacho raso. Alice lavou um arranhão no antebraço, a pele ardendo com a água fria. Lucas passou um pano limpo sobre o corte sem comentar nada sobre o beijo, nem sobre juramento algum. Bren ensinou Finn a olhar o próprio reflexo antes de beber água de qualquer lugar: a Ferrugem gostava de água parada, disse ele, cuspindo na terra por precaução.
— Mara — disse Lucas, horas depois, quando a estrada já estava vazia de novo.
— Um buraco — respondeu Alice. — Por enquanto, tenho só isso onde devia existir uma pessoa.
— Quando você souber quem ela foi — murmurou Lucas — não precisa me contar tudo de uma vez. Só precisa decidir se ainda quer ficar.
— Quero ficar hoje. É o máximo que eu prometo por enquanto.
Lucas aceitou a resposta sem pedir mais. Alice sentiu um desejo mudo crescer entre os dois, uma aliança sem palavras — talvez o máximo que Rhydan oferecesse a quem carregava culpa alheia e própria no mesmo alforje.
Bren examinou os veios finos no chão onde os Lembrados tinham caído, vermelhos e já morrendo sem cadáver para sustentá-los.
— A terra lembra o que passa por cima dela — disse ele. — Não armem tenda aqui de novo amanhã.
Alice assentiu, olhando para Lucas — os olhos cansados, a mandíbula ainda travada. O beijo da manhã não tinha apagado o medo de nenhum dos dois; só dera calor o bastante para carregá-lo estrada afora.
Dois homens de Vale chegaram perto do meio-dia. A proteção prometida por Bella viajara uma légua atrás, longe o suficiente para não ouvir o ataque. O mais novo, Sivo, trazia o ombro coberto de sangue. O outro não vinha.
— Teren correu quando ouviu a mulher chamar — explicou Sivo. — Disse o nome da esposa dele. Fui atrás até a ravina. Perdi o rastro.
Bren examinou a mordida no couro do ombro. Não atravessara a camisa.
— Há quanto tempo?
— Desde antes do amanhecer.
— Vivo não fica quatro horas com Lembrado por acaso — disse Bren.
— Então está vivo — respondeu Sivo.
— Ou guardado como isca.
Alice separou água, sal e corda. Lucas fechou os fechos da caixa.
— A estrada até as minas já está comprometida. Se atrasarmos, os homens de Mereth podem retirar o que restou.
Sivo olhou para ele.
— Teren tem duas filhas em Kess.
— Eu não disse que não vamos.
— Disse com a mão — cortou Alice. — Está abraçado à pasta outra vez.
Lucas apoiou a caixa na carroça.
— Vou com você. Bren fica com Finn e os documentos.
— Bren conhece Lembrado melhor.
— E você precisa de alguém que não responda se usarem Mara.
A farpa era justa. Alice pegou a corda.
Seguiram Sivo pela ravina. O rastro terminava numa capela sem teto, tomada por urtigas. Teren estava ajoelhado diante do altar, vivo, com as mãos amarradas por raízes. Uma mulher morta penteava o cabelo dele com os dedos.
— Lysa — murmurava Teren. — Eu voltei.
O Lembrado virou o rosto para Alice.
— Você também voltou, Mara.
Alice parou. Lucas tocou suas costas uma vez, sem empurrar.
— A pessoa errada — disse ela.
— A mãe sempre dizia isso — respondeu o morto.
Sivo tentou correr até o companheiro. Lucas o segurou. Alice espalhou sal na única saída da capela e apontou para as raízes.
— Quando eu cortar, puxe Teren. Não fale com a mulher.
Lucas assentiu.
Alice rastejou pelo lado do altar. O Lembrado continuou usando vozes: Mara criança, Sybelle, Wat sem rosto. Nenhuma dizia algo inteiro. Eram pedaços pescados em buracos.
Ela alcançou Teren e serrou a primeira raiz. A mulher atacou. Lucas atravessou o sal, recebeu as unhas no antebraço e enfiou a espada sob o queixo do morto. Sivo puxou Teren. Alice cortou a última amarra e os quatro caíram para fora da capela.
O corpo feminino parou no limite de sal.
— Leve o papel, Ardel — disse com a voz do pai de Lucas. — Deixe a carne.
Lucas empalideceu, mas não respondeu. Derramou óleo. Alice lançou a tocha.
Teren acordou chamando Lysa, morta havia três invernos. Tinha veios leves nos punhos onde as raízes entraram. Bren precisaria decidir se eram ferida ou Ferrugem.
Na volta, Lucas carregou Teren nos ombros e deixou a caixa aos cuidados de Sivo. Alice notou a correção deliberada. Não a confundiu com mudança completa.
— Você não precisa encenar uma lição — disse.
— Ele não consegue andar.
— A caixa também não.
— A caixa não pesa tanto.
— Mentira ruim.
Lucas ajeitou Teren.
— Estou tentando.
— Eu vi.
Foi a coisa mais próxima de paz que tiveram naquela tarde.
Finn puxou a manga de Alice e sussurrou:
— A voz disse que Mara esperou. Isso é verdade?
— Não sei — respondeu Alice, sem mentir para o menino. — Se for, alguém vai pagar por isso. Não você.
Finn fechou a boca e montou de novo, quieto. O grupo seguiu para a fronteira, para a tempestade e as minas — os próximos nomes no mapa de culpa de todos eles.
Alice evitou metamorfosear pelos dois dias seguintes, com medo de perder mais um nome como tinha perdido o do riacho. O corpo doía de tanta tensão guardada. Lucas notou e não comentou nada. Bren pareceu aprovar em silêncio, os ombros relaxados de quem entendia bem que guardar a própria forma também era uma escolha válida.
Ao entardecer do segundo dia, viram fumaça de chaminé subindo ao longe — sinal de vila viva. Alice respirou fundo: vila viva era coisa rara na estrada, e coisa rara também virava alvo fácil. Seguiu em frente assim mesmo, uma mão no cabo da faca, a outra ainda guardando o calor de onde Lucas tinha entrelaçado os dedos horas antes.
Fim do Capítulo 14