Capítulo 16
Semanas na Estrada
14 min read
Carregando capítulo...
Capítulo 16
14 min read
Carregando capítulo...
Na primeira semana depois da tempestade, a bota de Alice abriu três vezes.
Na segunda, Finn aprendeu a escrever o próprio nome sem inverter o segundo ene.
Na terceira, Lucas parou de perguntar se ela queria dividir a tenda. Deixava a manta dobrada do lado esquerdo e aceitava a resposta quando ela a usava ou não.
A estrada mudou de barro para cascalho, depois para pedra escura. Comeram aveia com cebola até Bren trocar uma armadilha por duas galinhas magras. Dormiram num celeiro, sob uma ponte e numa hospedaria onde o colchão tinha mais pulgas do que palha. Sivo e Teren voltaram a Kess depois que os veios nos punhos de Teren desapareceram. Levaram uma cópia do relato do ataque e a promessa de não caminhar sozinhos quando mortos chamassem por esposas.
Alice marcava o tempo pelo próprio sangue. A tempestade caíra no fim dos dias férteis; ela fizera a conta naquela noite e não tornara a fazê-la em voz alta.
Lucas ensinava leitura durante as paradas do meio-dia. Usava cópias sem selo, para que chuva e gordura não destruíssem prova. Finn começara com nomes de carga. Alice, com contratos.
— Cessão — leu ela.
— Isso.
— Palavra longa para roubo.
— Às vezes significa empréstimo.
— Roubo com prazo.
Finn inclinou-se sobre a folha.
— Aqui diz que Mereth recebeu vinte barris.
— Trinta — corrigiu Lucas.
— O três parece dois.
— Só quando você quer que pareça.
Bren limpava uma perdiz do outro lado da fogueira. Separou o fígado, salgou uma borda e esperou. A carne não mudou de cor.
— Limpa — disse Finn.
— Leia seu papel. Eu ainda sei matar almoço sem escriba.
Alice reconhecia letras, receitas e marcas de erva desde o brejo. O protocolo de Lucas parecia feito para impedir que alguém entendesse onde acabava uma ordem e começava uma desculpa. Ele mostrou como procurar verbos: entregar, receber, autorizar, reter.
— Quem faz o verbo paga a conta — explicou.
— Nem sempre. Quem escreve escolhe o verbo.
Lucas sorriu.
— Por isso você lê as assinaturas depois.
Alice encontrou numa cópia o nome de Merrow e seguiu a linha com o dedo. Autoriza abertura de galerias penitenciais para recuperação de relíquias sob custódia de Casa Ardel.
— Recuperação — disse. — Já sabiam que havia algo.
— Ou queriam parecer que sabiam.
— E seu pai recebeu.
— Recebeu.
Ele não desviou. Nas primeiras semanas, teria explicado que Ardel estava sob pressão, que a Igreja controlava títulos e que recusar custava terras. Agora deixava o verbo ficar sobre a mesa.
Alice dobrou a folha.
— Amanhã leio a próxima sozinha.
— Amanhã essa cópia ainda terá cebola no canto.
— Prova de cadeia alimentar.
Lucas tomou o papel antes que Finn usasse o verso para praticar letras.
Naquela noite, Alice dividiu a tenda. Dormiram juntos sem repetir a tempestade, os pés frios enroscados sob a mesma manta. Quando Lucas tentou falar das minas, ela colocou a mão sobre sua boca.
— Você tem o dia inteiro para ser documento.
Ele beijou a palma.
— E agora?
— Agora ronca.
— Bren ronca.
— Você argumenta dormindo. É pior.
Do abrigo ao lado, Bren disse:
— Os dois calam ou ensino Finn a ler contratos em voz alta até amanhecer.
Finn começou:
— Pela presente cessão...
Alice atirou uma meia pela abertura. O menino riu e ficou com ela.
O enjoo apareceu numa manhã de queijo ruim.
Alice acordou com gosto azedo, saiu da tenda e vomitou junto a um espinheiro. Bren examinou o queijo, cheirou a água e abriu a boca para perguntar. Ela mostrou o dedo do meio.
— Diagnóstico claro — disse ele.
Finn também teve dor de barriga. Lucas não. A culpa podia ser o queijo, a água do poço ou a gordura de galinha que Bren guardara tempo demais.
Alice contou os dias outra vez enquanto lavava a boca.
Seu sangue atrasara dois. A estrada atrasava tudo: sono, fome, cicatrização. Sybelle ensinara que viagem podia fazer um corpo perder um ciclo sem qualquer semente envolvida. Alice conhecia poejo, zimbro e folhas que impediam fixação quando usadas cedo. Não procurou nenhuma.
A ausência da procura ficou guardada como faca ainda na bainha.
— Febre? — perguntou Lucas.
— Queijo.
— Finn comeu menos e está quase morrendo atrás da pedra.
— Finn representa qualquer dor como execução pública.
O menino respondeu de trás da pedra:
— Ouvi isso.
— Então não morreu.
Seguiram devagar. O ar das terras altas era seco, e o horizonte ganhava dentes de rocha. As minas ficavam além de três elevações. Bren desviou por aldeias para procurar relatos de animais contaminados. Em uma delas encontraram um grupo de refugiados de Pedra-Fria.
Colm estava entre eles.
Crescera pouco desde que Alice o deixara no posto, mas a sujeira mudara de lugar. Usava o casaco grande de um carroceiro e ajudava a descarregar nabos. Quando viu Lucas, correu. Parou antes de abraçá-lo, como se lembrasse que homens nobres podiam cobrar por isso.
Lucas fechou a distância.
Alice observou de perto da montaria. Sentiu alívio. Em seguida, irritação porque o alívio parecia dar razão à escolha de Lucas em Pedra-Fria.
Colm mostrou que ainda tinha a faca curta que Alice lhe dera. A lâmina estava sem ferrugem.
— Limpei com areia — disse. — E corto pão, não gente.
— Pão reclama menos.
Ele olhou para Finn.
— Esse é outro?
— Outro o quê?
— Menino que vocês pegam na estrada.
Finn estreitou os olhos.
— Eu vim por vontade.
— Também disse isso.
Os dois decidiram se odiar por uma tarde. Disputaram quem montava melhor, quem sabia fazer fogo e quem tinha visto o morto mais feio. Colm venceu a última com detalhes de Pedra-Fria; Finn respondeu que ouvia mortos sem precisar vê-los. A disputa acabou.
Alice encontrou a mulher que conduzia os refugiados, Mestra Ilen, consertando uma roda. O posto para onde tinham levado Colm fechara depois de um surto. Agora viajavam para Kess, onde Bella aceitava testemunhos em troca de trabalho nos armazéns.
— O menino falou de vocês — disse Ilen. — A mulher do brejo que ensina a cortar pão e o nobre que salva antes de pensar.
— Ele melhorou a história.
— Criança faz isso quando precisa dormir.
Colm entregou a Alice um pedaço de pão sem pedir. Estava duro na borda, mas limpo.
— Você vai para as minas? — perguntou.
— Vou.
— Tem mais coisa lá que em Pedra-Fria?
— Provavelmente.
— Então não vai.
Alice mastigou o pão.
— Eu não disse que obedecia você.
— Disse que adulto escolhe quem manda nele.
Ela lembrava de ter falado algo parecido, embora não as palavras.
— Escolhi mal.
Colm pareceu satisfeito com a resposta. Ao partir, deu a Finn uma pedra branca que usava para marcar caminho.
— Para quando as vozes mentirem sobre saída.
Finn guardou sem agradecer. Depois correu de volta e entregou a Colm o segundo saco de sal.
— Para se algum morto chamar.
Alice não interferiu na troca.
Naquela noite, o enjoo não voltou. Seu sangue também não. Quatro dias podiam ser estrada. Cinco podiam ser corpo. Ela não contou a Lucas.
Não por medo de prendê-lo ou de ser presa. Ainda não havia fato para dividir, apenas uma conta sem resultado. Alice recusou dar a uma possibilidade o poder de organizar o acampamento.
A briga dos documentos voltou no sexto dia de atraso.
Lucas queria seguir pela estrada principal para alcançar as minas antes de uma patrulha Mereth. Bren insistia no desvio por um poço onde três veados tinham morrido. Alice escolheu o poço. Perderam um dia queimando carcaças e encontraram uma placa de carga eclesiástica entre os ossos.
— Útil — disse Lucas, limpando lama do selo. — Ainda assim, perdemos a dianteira.
— Ganhamos três aldeias sem água contaminada — respondeu Alice.
— Se Mereth retirar os livros, perdemos prova contra quem contaminou.
— Mortos futuros não bebem documento.
Lucas guardou a placa com força demais.
— Você transforma qualquer cuidado com prova em abandono.
— Você transforma abandono em futuro evitado.
Finn parou de escovar a égua. Bren continuou retirando carrapatos do couro, mas ouvia.
— Nas minas, pode acontecer de verdade — disse Alice. — Uma mão no papel, outra numa pessoa. Você já mostrou qual se move primeiro.
— No ataque, eu sabia que você alcançaria Finn.
— E se não alcançar?
— Não sei.
Ela queria uma promessa. Queria fazê-lo dizer que escolheria carne. Uma promessa dada ali seria tão útil quanto sal contaminado.
Lucas colocou a placa no chão.
— Meu pai salvou a casa em cada decisão pequena. Um contrato, uma concessão, uma galeria. Quando olhou o conjunto, havia corpos demais para chamar de acidente. Eu sei o que você teme.
— Sabe e continua contando folhas.
— Porque sem elas Merrow faz de cada corpo uma febre isolada. Eu posso escolher alguém diante de mim e condenar cinquenta que nunca verei.
— Pode. E a pessoa diante de você ainda morre sabendo onde pôs as mãos.
Lucas sentou numa pedra. A raiva deixara o rosto dele cansado.
— O que quer que eu faça?
— Quero que não finja que a escolha desaparece porque há número maior do outro lado.
— E você?
— Eu salvo quem alcanço.
— No Vale, você deixou a estrada de casa para salvar nós dois. Em Pedra-Fria, queria abandonar sobreviventes que podiam contaminar outros. Você também conta.
Alice sentiu a resposta como ponta de agulha sob a unha.
— Conto.
Era a primeira vez que admitia sem preparar defesa. Lucas olhou para ela.
— Então nas minas contamos juntos e discordamos depois.
— Vamos discordar durante.
— Claro.
Bren arrancou o último carrapato.
— Bonito. Agora que os senhores resolveram inventar casamento por contabilidade, alguém ajuda com a sela.
Alice arremessou o carrapato no fogo.
Passaram os três dias seguintes consertando o que a discussão não alcançava.
A tira do alforje de Lucas rompeu numa subida. Alice refez com couro de freio e três rebites. A capa dela perdeu um fecho; Lucas moldou outro com a borda de uma moeda sem rosto. Finn copiou placas de estrada num caderno improvisado e Bren corrigiu as distâncias, porque metade dos marcos fora movida por cobradores de pedágio.
Choveu uma tarde inteira. Abrigaram-se num moinho abandonado que ainda cheirava a farinha. A roda girava sem tocar água, empurrada pelo vento, e fazia a parede gemer a cada volta.
Finn encontrou letras riscadas numa viga:
— C... O...
— Colm — completou Alice.
— Não. É Corda velha. Não subir.
Lucas apontou a segunda linha, quase apagada.
Finn olhou para a escada onde já colocara o pé.
— Quem escreve aviso devia começar pela parte que mata.
Alice subiu mesmo assim para verificar o telhado. A corda estava podre, mas as tábuas aguentavam. Encontrou um saco de farinha escondido entre duas vigas e um ninho com quatro ovos.
— Roubo de moinho — disse Lucas quando ela desceu.
— Recuperação de carga abandonada.
— Está aprendendo protocolo.
Fizeram pão chato na pedra. Bren queimou o primeiro. Finn comeu as bordas pretas e declarou que pareciam comida de Salgária, o que iniciou uma discussão sobre se monges queimavam pão por fé ou incompetência.
Depois da refeição, Lucas entregou a Alice o fecho novo da capa. O metal trazia uma garça torta que ele gravara com a ponta da faca.
— Não tenho essa forma no brasão — disse ela.
— Não é brasão.
— Parece ave pisada por carroça.
— Posso derreter.
Alice prendeu o fecho no pescoço.
— A moeda já era feia.
Lucas passou o polegar pelo rebite do alforje que ela consertara.
— Isto segura?
— Até você pôr todos os crimes de Rhydan na mesma bolsa.
— Então até amanhã.
A reparação não apagou a briga. Deu aos dois coisas inteiras para usar enquanto a carregavam.
Naquela madrugada, Alice acordou com fome e comeu o último pedaço de pão frio. O cheiro de gordura no pano provocou outra onda de enjoo. Ela respirou junto à janela até passar.
Bren estava acordado perto da porta.
— Quantos dias? — perguntou.
— Não é assunto seu.
— Se for febre de veio, é.
— Não tenho veios.
— Se for outra coisa, também muda o que levamos para mina.
Alice fechou o pano.
— Ainda não é coisa alguma.
Bren coçou a barba.
— Sybelle contava luas em carvão no batente. Apagou todas quando você nasceu.
— Você estava lá?
— Cheguei depois. Vi as marcas.
Ela odiou receber da boca dele um detalhe da própria origem.
— Não diga a Lucas.
— Não trabalho de parteira nem de confessor.
— Isso não foi promessa.
— Foi limite. Melhor.
Alice tornou à manta. Lucas dormia com a mão sobre o lugar onde ela estivera. Deitou sem mover a mão dele para sua cintura.
No dia seguinte, o atraso chegou a oito dias. Ela encontrou poejo numa encosta, esmagou uma folha entre os dedos e reconheceu o cheiro amargo. Não colheu.
Finn, que vinha atrás, arrancou um ramo.
— Serve para quê?
— Estômago, pulga e decisão tomada tarde.
— Qual temos?
— Pulga.
Ela fez uma infusão fraca para todos. Bebeu meia caneca e jogou o resto no fogo quando ninguém olhava. A escolha era pequena demais para receber nome e grande demais para ser acidente.
Na manhã seguinte, leu sozinha uma ordem inteira. Demorou até o sol alcançar a borda do mapa. Encontrou uma referência que Lucas não notara: galeria inferior, sepulturas prévias, autorização condicionada ao ofício do confessor Merrow.
— Condicionada — disse. — Seu pai não podia abrir sem Merrow presente.
Lucas releu e assentiu.
— Isso muda a cadeia.
— Não muda o lucro.
— Não.
Ele copiou a linha e escreveu abaixo o nome dela como descobridora. Alice viu.
— Não preciso de crédito.
— Precisa de cadeia de custódia.
— Palavra de salão.
— Nome no papel impede que eu finja depois que encontrei sozinho.
Ela deixou ficar.
No último acampamento antes das minas, Finn leu para todos a carta de Colm, ditada a Mestra Ilen antes de seguirem para Kess. Havia duas linhas: Chegamos. Não morri. A faca corta pão.
Finn tropeçou em chegamos e recomeçou. Alice sentiu cheiro de caldo e precisou virar o rosto. A náusea passou sem vômito.
Bren percebeu. Não falou.
Lucas estava ocupado corrigindo a pronúncia do menino. Alice pousou a mão sobre o ventre apenas para apertar a faixa da calça, que parecia mais incômoda depois de tantas refeições de aveia. O gesto não trouxe resposta.
À frente, a entrada das minas era um risco preto entre rochas. Ao redor dela, antigas casas de trabalhadores tinham telhados afundados e portas marcadas com o selo de Merrow.
Alice guardou a carta de Colm junto à cópia do próprio nome incompleto.
Antes de dormir, verificou o estoque: duas medidas de sal puro, três frascos de óleo, linha, pinça, mel, uma faixa limpa. Acrescentou pão para Finn e retirou a erva que faria dormir fundo. Ninguém devia dormir dentro de pedra.
Lucas dividiu os documentos em três bolsas. Deu uma a Bren, uma a Finn e manteve os originais.
— Se eu mandar correr, corram com o que tiverem — disse.
Alice apertou a fivela da bolsa de Finn.
— Se eu mandar largar, larga.
Lucas sustentou seu olhar.
— Discutimos durante.
— Exato.
— Amanhã descemos — disse Lucas.
Bren conferiu sal, óleo e corda.
— Amanhã vocês descobrem se aprenderam alguma coisa ou só ficaram melhores em discutir.
Finn terminou a palavra difícil na segunda tentativa. Alice repetiu em silêncio os verbos da ordem: autorizar, abrir, receber, ocultar. Depois apagou o fogo e entrou na tenda pela esquerda.
Lucas entrou mais tarde e deixou a pasta do lado de fora, sob a guarda de Bren. Não pediu elogio pelo gesto. Alice abriu espaço na manta. Dormiram sem resolver as minas, o atraso de seu sangue ou a pergunta que os esperava debaixo da pedra.
Fim do Capítulo 16