Capítulo 13
Porto de Favores
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Capítulo 13
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Kess cheirava a peixe, piche e ambição molhada.
Os navios se empilhavam no cais como dentes tortos, cascos negros de piche recente, homens gritando números de carga de um convés a outro. Alice gostou daquilo mais do que esperava: número era negócio, e negócio deixava rastros até quando mentia. Três embarcações permaneciam presas por correntes grossas ao cais leste. As velas verdes de Mereth estavam dobradas; lacres negros de Casa Vale cobriam os cabrestantes.
Bren guiou os quatro por becos onde o sal branco manchava as pedras do chão e os guardas mediam capas gastas com desprezo antes de deixar alguém passar.
Um guarda de capacete amassado — a placa de latão no peito dizia apenas Sargento, o resto do nome raspado pelo tempo — parou o grupo na entrada do mercado de peixe, a lança atravessada.
— Documento de passagem — disse ele, sem olhar para os rostos, só para as mãos, procurando arma escondida.
— Não temos documento de casa nenhuma — respondeu Bren, sem se abalar. — Temos moeda e um recado pra Lady Vale.
O sargento — Alice ouviu um dos outros guardas chamá-lo de Aldous — cuspiu de lado, no meio das escamas de peixe já jogadas no chão.
— Todo bêbado do porto tem recado pra Lady Vale. Metade mente. A outra metade mente melhor.
— Diz que é sobre o bispo Merrow — disse Lucas.
Aldous ergueu os olhos pela primeira vez, mediu Lucas dos pés à cabeça, e baixou a lança devagar, sem pressa nenhuma de parecer impressionado.
— Cais sete — disse ele, por fim. — E se estiverem mentindo, eu mesmo vou procurar vocês depois, um por um.
Um mercador de peixe salgado, gordo e suado apesar do vento frio do cais, tentou empurrar um cesto de sardinhas fumadas para Finn quando o grupo passou por perto da barraca.
— Preço de amigo pro rapaz! — gritou ele, um homem que Bren depois chamou de Mestre Halden, conhecido em toda Kess por vender o peixe mais caro e mais barato ao mesmo tempo, dependendo de quem perguntasse o preço.
— Não come nada oferecido de graça neste porto — murmurou Bren, sem parar de andar. — Nem peixe, nem promessa.
Finn assentiu, sério, guardando o conselho junto dos três nós de sal no pescoço.
— Casa Vale, cais sete — disse Bren, ajeitando a mala no ombro. — O palácio vem até Bella quando ela quiser, não o contrário.
Era um galpão grande, de madeira e ferro, com janelas altas demais para qualquer um espiar de fora. Dois homens de armas barraram Bren e Finn na porta e deixaram passar só Lucas e Alice.
— Menino ouve demais pra ficar perto de salão de negócio — resmungou Bren, empurrando Finn para um banco encostado na parede.
Antes de Bella recebê-los, uma escrivã de cabeça raspada levou Alice e Lucas ao cais retido.
— Lady Vale não negocia sobre carga que o interessado não viu — disse. — Assim ninguém perde tempo fingindo surpresa.
Chamava-se Neva Sorn e trazia no cinto seis chaves, cada uma presa por corrente própria. Abriu o porão do primeiro navio Mereth. Lá dentro, barris de minério ocupavam três fileiras. Sal grosso cobria o chão, mas tinha manchas cinzentas.
Bren, impedido de entrar no galpão, surgira no cais mesmo assim. Agachou-se na escada e tocou um cristal com a ponta da língua.
— Morto.
Neva franziu a testa.
— É sal real.
— Era. Minério bebeu o que prestava.
Alice abriu um barril. As pedras vermelhas estavam envolvidas em palha e tiras de pergaminho. Uma delas trazia o selo partido de Ardel. Outra, a marca de uma ordem eclesiástica.
Lucas desceu dois degraus e parou.
— A carga saiu das minas depois da interdição.
Neva consultou a prancheta.
— Mereth declara ferramentas agrícolas e pigmento para azulejo.
— Azulejo que morde — disse Alice.
Um baque veio do fundo do porão.
Os carregadores se entreolharam. Neva ergueu a lanterna. Entre dois barris havia uma grade pequena, coberta por lona.
— Ratos — disse.
Bren tirou a faca.
— Rato não bate três vezes.
Sob a lona encontraram um homem. Usava ferro no tornozelo e tinha a boca costurada com fio de vela. Veios vermelhos cobriam o pescoço, mas ele respirava. Neva xingou e chamou os guardas.
Alice cortou os pontos. O homem cuspiu sangue e disse uma palavra:
— Livro.
Lucas encontrou um livro de carga sob a palha. Metade das páginas tinha sido arrancada. As restantes registravam minério, nomes de compradores e pagamentos ao ofício do confessor M. em datas anteriores à queda de Ardel.
— Merrow — disse Lucas.
— Uma letra não derruba bispo — respondeu Neva.
— Um homem vivo pode ajudar.
O prisioneiro começou a convulsionar. Bren abriu sua camisa. Um pedaço de minério fora costurado sob a pele do peito.
— Testemunha selada — disse. — Se tirarmos, sangra. Se deixarmos, a Ferrugem chega ao coração.
Alice pediu pinça e álcool. Neva trouxe uma caixa de cirurgião do navio. Lucas segurou o homem enquanto Alice abriu os pontos. O minério saiu com carne grudada e uma marca legível: o báculo partido usado por confessores de fronteira.
O homem sobreviveu. Chamava-se Daro Pell, conferente de carga. Mereth o prendera quando ele ameaçara levar os livros a Vale. Não sabia quem era Merrow; conhecia apenas o agente que recebia as caixas e pagava em moeda eclesiástica.
Neva levou Daro para a enfermaria de Bella. O livro seguiu numa caixa lacrada.
— Agora entendem o bloqueio — disse ela. — Mereth diz que Lady Vale reteve navios por dívida. Ela reteve porque carga comprometida não recebe seguro e porque três capitães tentaram partir à noite.
— Bella já tinha prova — disse Lucas.
— Tinha carga, testemunha costurada e meia letra. Vocês trouxeram origem, ordem e nome inteiro do bispo. Talvez juntos virem alguma coisa que tribunal não ria antes de queimar.
No cais, marinheiros Mereth gritavam que Vale praticava pirataria em terra. Guardas mantinham as correntes. Cada dia parado custava peixe podre, salários e juros.
Alice entendeu por que Bella os receberia. Três navios perdendo dinheiro compravam aquela audiência; esperança, fé e piedade ficavam fora da conta.
Lady Bella Vale estava debruçada sobre uma mesa coberta de mapas, uma régua de latão na mão marcando distâncias. Perto da porta, um homem de meia-idade esperava de pé, vestido bem demais para o galpão ao redor, o casaco de veludo verde-escuro já manchado de sal na bainha — sinal de quem tinha vindo de longe e não se importava de estragar o tecido bom para chegar até ali.
— Lorde Perrin, da Casa Oren — apresentou Bella, sem largar a régua. — Estava de saída.
— Estava esperando resposta — corrigiu o lorde, a voz fina e educada, o tipo de educação que soa mais como ameaça do que como cortesia. — Minha casa não gosta de esperar, Lady Vale.
— Sua casa vai esperar o tempo que eu decidir — respondeu Bella, sem erguer os olhos do mapa. — Diga a Oren que a resposta chega quando eu tiver uma resposta que valha o papel do selo. Até lá, guarde o casaco bonito. Sal estraga veludo mais rápido do que promessa estraga aliança.
Perrin apertou os lábios, fez uma reverência mínima, quase insultuosa de tão curta, e saiu passando perto demais de Alice, medindo-a com o mesmo desprezo com que os guardas mediam capas gastas.
Vestia escuro, com as mangas arregaçadas até o cotovelo e luvas finas manchadas de tinta nas pontas dos dedos. Os rumores diziam viúva; os sobreviventes da corte diziam estrategista. Tinha os olhos cor de chá forte e um sorriso que não prometia carinho nenhum.
— Lucas Ardel — disse ela, sem largar a régua. — Ainda vivo, e trazendo documentos que cheiram a mofo e a verdade em partes iguais.
Lucas inclinou a cabeça — uma cortesia calculada, não submissão.
— Lady Vale. Preciso de audiência real e apresento provas de que a desgraça da Casa Ardel foi conveniente demais para alguém.
— Porta aberta, não prova — corrigiu Bella, sem erguer os olhos do mapa. — Prova todo mundo tem guardada numa gaveta. O difícil é sobreviver depois de mostrar.
Alice ficou de pé, as mãos visíveis nos flancos. Bella a mediu do joelho ao cabelo ainda úmido de estrada.
— A metamorfa do brejo. Sybelle continua produzindo ferramentas interessantes, pelo visto.
— Sou filha dela — disse Alice. — Não sou ferramenta de salão de ninguém.
— Melhor ainda. Ferramenta que responde vale o dobro numa mesa de negociação. Fiquem de pé ou sentem, mas decidam logo — eu canso rápido de gente parada.
Bella queria cópias dos documentos das minas, dos selos eclesiásticos, dos nomes riscados dos registros. Queria o testemunho de Odran, a análise de Bren, o elo entre o bispo Merrow e os enterros secretos. Queria sobretudo uma amostra das minas que pudesse ser comparada ao minério retido nos navios. Em troca oferecia passagem à corte, proteção de nome mais do que de espada, e informações sobre os Reerguidos nas criptas — quando lhe conviesse dar essas informações, e não antes.
— Não faço caridade — disse Bella, o dedo pousado sobre o desenho de Calderis no mapa. — Faço coroa. A minha, de preferência. Uma Igreja que esconde surtos é uma Igreja que eu derrubo sem pedir licença ao trono. Vocês limpam o nome de Ardel. Eu derrubo Merrow. Isso é alinhamento, não amizade.
Lucas abriu a pasta de couro sobre a mesa. As mãos dele estavam firmes; Alice viu o custo daquela firmeza no jeito como a mandíbula dele travava.
— Se a senhora mentir sobre a proteção...
— Se eu mentir, você morre e eu perco um peão útil — completou Bella, sem se abalar. — Vou usar vocês na frente de batalha. Vou sacrificar algum de vocês se a conta pedir isso. Não finjo o contrário para ninguém aqui.
— Você chama de acordo a admissão de que nos usaria de qualquer jeito — disse Alice.
— É o mesmo acordo que qualquer um faria — respondeu Bella —, só que eu não escondo a letra miúda debaixo do sorriso. Prefere que eu minta um pouco, pra parecer mais gentil?
— Prefiro saber o tamanho da faca antes de dormir perto dela.
Bella riu, um som curto, quase de aprovação.
— Então já entendemos uma à outra.
— Ainda não entendemos nada — cortou Lucas, a voz mais firme do que Alice esperava. — A senhora quer os documentos originais ou cópias?
— Cópias primeiro. Originais quando eu decidir confiar o suficiente pra arriscar perdê-los.
— Então temos negócio sem confiança nenhuma — disse Lucas.
— Correto — concordou Bella. — É negócio. Confiança é palavra de padre e de noivo, como algum caçador sábio deve ter dito a vocês antes de chegarem aqui.
Bren, do lado de fora, teria rido daquilo — Alice teve quase certeza disso.
— E se recusarmos os termos? — perguntou Alice.
— Então saem pela porta que entraram, com os documentos debaixo do braço e nenhuma proteção quando Thorne mandar prendê-los por traição inventada — respondeu Bella, sem hesitar. — Estou descrevendo o mapa exato do que acontece sem mim, longe de ameaçar. Vocês já viram o bastante da estrada pra saber que eu não estou exagerando.
Alice trocou um olhar com Lucas. Nenhum dos dois gostava da resposta; nenhum dos dois tinha uma melhor.
— Preciso falar com ele a sós — disse Alice, para Bella, sem pedir licença de verdade.
Bella deu de ombros e voltou a marcar distâncias com a régua, como se a conversa deles não valesse pausar o próprio trabalho.
Alice puxou Lucas pelo cotovelo até o canto do galpão, perto de uma pilha de caixas de peixe seco que cheiravam forte o bastante para disfarçar qualquer sussurro.
— Ela vai nos jogar na frente de batalha assim que parar de precisar de nós — disse Alice, baixo. — Ela mesma acabou de dizer isso, sem nem gaguejar.
— Eu sei — respondeu Lucas. — E se não aceitarmos, Thorne me prende no primeiro dia em Calderis, ou pior. Você prefere qual risco?
— Prefiro nenhum dos dois. Mas escolher entre dois ruins ainda é escolher, e você sabe disso melhor que eu, escriba.
— Então escolhemos o ruim que nos deixa vivos mais tempo — disse Lucas. — Bella é cruel, mas é cruel de um jeito previsível. Merrow é cruel escondendo. Prefiro o inimigo que me avisa antes de me usar.
Alice olhou de volta para a mesa, onde Bella continuava trabalhando como se os dois já tivessem decidido havia horas.
— E se ela decidir que Finn vale mais morto que vivo, numa dessas contas dela?
— Então brigamos com ela nesse dia — disse Lucas. — Hoje, brigamos com Merrow. Um inimigo de cada vez, Alice. É a única matemática que ainda faz sentido pra mim.
Ela não gostou da resposta. Gostou ainda menos de não ter uma melhor para opor a ela.
— Testemunho de Odran também — disse Alice, por fim. — Mas ele decide o que escreve. Ninguém escreve por ele.
— Combinado — disse Bella, rápida demais para parecer generosa. — Um homem que já perdeu a fé na própria Igreja escreve verdade melhor que qualquer secretário meu.
Silêncio. Lucas engoliu em seco antes de responder.
— Eu aceito mostrar — murmurou.
Bella estendeu a mão por cima do mapa — uma cicatriz fina cruzava a palma dela, sem anel algum nos dedos.
— Então temos contrato. Vocês vão às minas e trazem os livros originais, a ordem de Merrow e uma cadeia que três notários consigam seguir: pedra, carroça, navio e pagamento. Eu mantenho os navios Mereth bloqueados até voltarem, preservo Daro Pell vivo e abro acesso à corte quando a prova estiver completa. Bren fica fora dos salões. Finn fica com Bren. Odran escreve o que testemunhou, com as palavras dele. E você, Alice — nada de metamorfose dentro de salão.
Alice apertou a mão dela.
— Nada de metamorfose. Não sou decoração de festa de ninguém.
Lá fora, Lucas ficou calado até chegarem ao cais.
— Uma aliança com alguém pior do que nós?
— Com alguém honesta sobre ser pior — disse Alice, chutando uma pedra do caminho. — Isso assusta mais do que qualquer sermão de padre.
Bren esperava com Finn perto das caixas de carga, mastigando algo que cheirava a sardinha fumada — Alice suspeitou de Mestre Halden e não perguntou. Bella apareceu ali pessoalmente, o que Bren, mais tarde, garantiu ser raro.
— Não peçam pureza quando chegarem à corte — disse Bella, diretamente a Lucas. — Peçam tempo. E não se deixem prender antes de pisar no salão.
Virou-se para Alice.
— Não mostre os dentes na primeira audiência. Mostre quando eu apontar o pescoço certo.
Alice inclinou a cabeça, séria.
— Só mordo quem merece.
Bella riu, um som curto e seco.
— Então vão andando.
Os homens de Vale carregaram provisões novas para os cavalos: capas sem o brasão de Ardel, sacos de pão e carne salgada. Alice vestiu a capa nova sem agradecer ao ar, só por hábito de estrada. Lucas guardou as cópias dos documentos em três lugares diferentes — escriba paranoico, finalmente encontrando uso para a paranoia.
Bren estudou as rotas possíveis: postos eclesiásticos ou um atalho por terra seca. Escolheram o atalho. Finn já montava sem gritar a cada solavanco. Ao anoitecer, acamparam longe do porto — sal em círculo, fogo baixo, carne salgada assando na ponta de um graveto. O contrato com Bella era como corda: útil enquanto ninguém puxava demais.
Alice olhou o mar uma última vez antes de a estrada virar para o interior. Calderis puxava como um ímã de culpa lá no horizonte. Kess ficou para trás — um porto que não perdoava ninguém e não precisava perdoar, só negociar.
— Confia nela? — perguntou Lucas.
— Confio que ela quer vencer — respondeu Alice. — Igual a nós. Por enquanto, basta.
Montaram e a estrada subiu, entrando pelas terras altas de Rhydan.
No segundo dia, Finn ouviu uma voz baixa ao atravessarem uma ponte de pedra. Bren amarrou o sal no pano dele sem perguntar nada; Lucas apertou os lábios e não respondeu a voz nenhuma. Alice contou os próprios passos até a voz calar — água mentia perto de gente com segredo, tinha aprendido com Bren no porto.
À noite, Lucas revisava os selos à luz de vela; Alice ficava de vigia perto da entrada da tenda; Bren afiava a faca devagar, sem pressa nenhuma. O contrato com Bella pesava menos no peito do que o medo de Merrow — um bispo com arquivo secreto valia mais perigo do que um bispo com sermão bonito.
— Calderis vai nos engolir ou nos cuspir de volta — murmurou Bren, testando o fio da lâmina no polegar. — Preparem o estômago.
Alice assentiu. A capa nova de Vale não escondia o cheiro de brejo que ainda grudava nos ombros dela. Seguiu andando mesmo assim.
Lucas caminhou ao lado dela por um trecho, a voz baixa, contando quem na corte curvaria a cabeça e quem não curvaria — Perrin entre os que curvariam primeiro, apostou ele, porque veludo caro se rasgava fácil quando o vento virava. Alice ouviu só metade, pensando em Bella apontando um pescoço qualquer com aquele dedo manchado de tinta. Finn já amarrava o próprio sal sozinho, sem precisar de ajuda de Bren. E Bren contou uma história de um porto onde um Lembrado se levantou do cadáver de um confessor — mentira enterrada rasa demais, resumiu ele, cuspindo no chão depois.
Ao cair da noite, acamparam longe de qualquer posto eclesiástico: sal em círculo, fogo aceso, o mapa de Calderis aberto sobre os joelhos de Lucas. As provas estavam no alforje; o medo, no peito de todos. Kess já era passado, um cheiro de peixe que ia sumindo aos poucos. À frente ficava a capital — os sinos ainda distantes, mas já dava para imaginar o som deles.
Fim do Capítulo 13