Capítulo 12
Nome nas Páginas
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Capítulo 12
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Odran cobrou uma vela por hora de leitura.
— Pensei que já tivéssemos pago em grão — disse Alice.
— Aquilo pagou enterro. Tinta tem outra fome.
Ele colocou quatro velas curtas sobre a mesa do scriptorium. Cada uma tinha um prego atravessado no meio. Quando a cera chegasse ao ferro, a consulta terminaria. Atrás dele, prateleiras cobriam as paredes até o teto. Os livros mais antigos eram caixas de madeira com folhas soltas; os novos traziam couro, fechos e o selo do Fogo Penitente.
Lucas tirou as luvas como quem entrava numa capela.
— Registros de surtos, dízimos de sal, ordens de escavação e nomes removidos.
— Você pede quatro arquivos e trouxe quatro velas. Isso seria poesia se não fosse contabilidade ruim.
Odran entregou-lhe uma chave. Alice recebeu um pano para limpar poeira.
— E eu?
— Você procura Venn.
Ela quase devolveu o pano.
— Não fui registrada aqui.
— Sua mãe foi.
Odran apontou uma estante baixa, próxima do chão. Os livros tinham lombadas sem título. Alice puxou o primeiro e encontrou listas de parteiras, batismos, mortos sem família e crianças cujos nomes tinham sido corrigidos por ordem de confessor. Lia devagar. Marcas de remédio e receitas obedeciam a lógica; nomes cerimoniais vinham cercados de abreviações que pareciam pernas de aranha.
Lucas sentou ao lado e mostrou como separar lugar, linhagem e nome dado.
— A primeira coluna é o nome de uso. A segunda, o nome ritual.
— Por que alguém precisa de dois?
— Um para a praça. Outro para altar, casamento e enterro.
— Um nome escondido que padre guarda parece menos religião que coleira.
Lucas não respondeu. Copiou uma ordem de remessa de sal. Bren revistava relatórios de caça, usando o dedo faltante como marcador. Finn ficou numa mesa menor com folhas de descarte e uma ponta de carvão. Odran mandara que copiasse palavras simples para ocupar a cabeça.
SAL.
FOGO.
PORTA.
Finn desenhava cada letra com a língua presa entre os dentes.
Alice encontrou Sybelle na metade da segunda vela.
O nome aparecia numa lista de confessores enviados à fronteira vinte e cinco anos antes: Sybelle Venn, nome de uso retido; nome inteiro transferido ao arquivo-mãe por função velada. Ao lado, uma anotação posterior registrava fuga, violação de juramento e busca suspensa por ordem que não trazia assinatura.
Na folha seguinte havia um nascimento.
O papel fora raspado até ficar fino. Ainda restavam sulcos sob a tinta nova. Alice inclinou a página contra a vela.
Filha de Sybelle Venn. Alice...
Depois do nome, quatro letras sobreviviam: Aeli. O restante tinha sido cortado da folha. Não riscado. Alguém usara lâmina para retirar uma tira estreita e levar o nome embora.
Odran apareceu atrás dela.
— Não toque na borda.
— É meu.
— Por isso mesmo.
Alice deixou o dedo sobre a mesa.
— Alice Aeli o quê?
— Não sei.
— Você guarda quilômetros de culpa em estante e quer que eu acredite que perdeu uma palavra.
Odran puxou outra cadeira.
— Nomes rituais completos nunca ficavam num só mosteiro. O nascimento recebia uma parte. A confirmação, outra. A última ia a Calderis quando a criança completava doze anos.
Alice não tivera confirmação. Aos doze, Sybelle lhe dera uma faca nova e mandara matar uma raposa presa.
— Então o nome está incompleto.
— Aqui, sim.
— E em Calderis?
Odran olhou para o corte na página.
— Se Sybelle retirou a tira antes de fugir, talvez tenha impedido a cópia. Talvez tenha levado o nome inteiro. Talvez a Igreja já tivesse outra via.
Três possibilidades, todas com a mão da mãe fechada sobre ela.
Lucas aproximou a vela. Na margem inferior, uma frase quase apagada dizia: sangue último, nome repartido, reivindicação suspensa até inteireza.
— O que é sangue último? — perguntou.
Odran fechou o livro.
— Uma expressão anterior à liturgia atual. Já vi em lápides de minas e em ritos de linhagem.
— E reivindicação de quem?
— A pergunta que mantém bispos acordados e monges obedientes.
Alice abriu o livro outra vez.
— Copie tudo.
Lucas começou pela frase. Ela tentou copiar o próprio registro. As letras saíram tortas: Alice Aeli. O carvão quebrou no segundo nome.
— Não gosto dele — disse.
— Não precisa usar — respondeu Lucas.
— Preciso saber.
Odran empurrou uma folha limpa.
— Nome inteiro dá à Igreja o direito de casar, absolver, condenar e enterrar. A fé chama isso de reconhecer uma alma. Homens de arquivo usam para reconhecer propriedade.
— E coisas sob catedrais? — perguntou Bren, sem erguer os olhos.
Odran ficou em silêncio.
Alice percebeu a resposta no jeito como ele evitou olhar a folha.
Finn errou porque a voz pediu água.
Ele estava no corredor, levando uma jarra para Cathal. Alice ouviu uma mulher chamar atrás da porta interditada onde a Ferrugem do enterro incompleto descera sob as pedras.
— Menino. A queimadura.
Finn parou.
Bren levantou-se tão rápido que derrubou a cadeira.
— Não responde.
A voz tossiu.
— Cathal está queimando.
Era verdade. Cheiro de lã chamuscada vinha da enfermaria; o monge ferido trocava o curativo perto do braseiro. Finn olhou naquela direção.
— Ele está com Odran — disse Alice. — Continue andando.
— A água — pediu a mulher sob a pedra. — Só empurre pela fresta.
Finn apertou a jarra. A voz não usava nome morto, não prometia segredo e não soava como o tio de Lucas. Soava cansada.
— Quem é você? — perguntou.
Bren alcançou o menino no mesmo instante em que a pedra do corredor estalou.
Um veio vermelho subiu pela junta e entrou na sombra de Finn. A jarra caiu. A água espalhou-se pelo chão, levando o veio até a enfermaria.
— Sal! — gritou Bren.
Alice jogou o saco inteiro. O cristal formou uma barreira, mas metade do veio já passara sob a porta.
Cathal gritou.
Entraram e o encontraram no chão. A água tocara as cinzas do braseiro e projetara uma pasta rubra sobre a perna de uma noviça chamada Elwen. Veios abriam caminho por baixo da pele do tornozelo.
Odran segurava Cathal longe do fogo. Lucas empurrou a mesa contra a porta. Bren amarrou a coxa de Elwen e tirou a faca.
— Não — disse ela.
— Está abaixo do joelho.
— Não.
Alice ajoelhou. O veio subia depressa, alimentado por uma queimadura antiga na canela.
— Se chegar à dobra do joelho, ele leva a perna toda.
Elwen agarrou o hábito de Alice.
— Eu copio livros. Preciso caminhar entre as estantes.
— Pode caminhar com madeira. Não caminha morta.
Odran trouxe uma tira de couro. Finn apareceu na porta, branco como a parede.
— Fui eu.
— Segure a vela — disse Alice.
— Eu respondi.
— E agora segura a vela.
Finn obedeceu. Alice marcou a pele limpa. Bren cortou abaixo do joelho. Elwen mordeu o couro e ainda assim o grito atravessou o mosteiro. Lucas manteve a perna firme. Odran cauterizou.
Quando terminaram, o membro amputado continuou se contraindo no chão. Bren cobriu de sal e levou ao pátio para queimar.
Finn deixou a vela cair depois que o fogo já estava aceso.
— A voz disse a verdade sobre Cathal.
— Uma verdade pequena compra resposta — disse Bren. — Depois ela entra.
— Eu queria ajudar.
Elwen estava inconsciente. Alice lavou sangue das mãos numa bacia que ficou rosada.
— Sua vontade não devolve a perna dela.
Lucas olhou para Alice, talvez esperando que aliviasse. Ela não tinha alívio que não fosse mentira.
Finn recuou até bater na parede.
— Então devia ter me deixado na vila.
— Talvez.
O menino fechou o rosto.
Alice secou as mãos.
— Eu disse que levar você podia ser uma decisão ruim. Ainda é nossa decisão. O erro é seu. O trabalho depois dele também.
— Que trabalho?
Odran respondeu:
— Elwen vai precisar de água, comida e uma perna de madeira. Você começa carregando água sem conversar com o chão.
Finn assentiu. Chorou sem som enquanto recolhia os cacos da jarra.
Alice quis tirar o menino dali. Quis dizer que qualquer um teria acreditado. Nenhuma das vontades ajudaria Elwen a andar entre as estantes. Deixou Finn recolher até Bren tomar de sua mão um caco que cortara a palma.
Elwen acordou ao anoitecer e pediu o livro de dízimos.
— Você perdeu uma perna hoje — disse Odran.
— E o celeiro perde dez sacos se Edric somar como no inverno passado.
Finn levou o livro. Ela o fez sentar e conferir números em voz alta. Cada erro custava uma repetição. Alice observou da porta até perceber que Elwen não ofereceria absolvição nem crueldade. Daria ao menino trabalho suficiente para ocupar as mãos.
No scriptorium, Lucas terminava três cópias do registro de Alice. Uma iria com os documentos, outra ficaria com Odran e a terceira ele encerou para ela.
— Escreveu o que faltava? — perguntou Alice.
— Escrevi a falta.
A folha dizia: Alice Venn. Fragmento ritual: Aeli—. Registro mutilado antes da confirmação. Nome inteiro desconhecido.
— Parece relatório de cabra roubada.
— É o estilo que notários respeitam.
Ela dobrou a folha e guardou junto ao nome da estrada perdida.
Bren fechou o livro de caça.
— Encontrei relatos de animais seguindo cargas de minério até Kess. Mereth transportou pelo porto. Se o bloqueio ainda estiver de pé, os livros de carga não saíram da cidade.
— Que bloqueio? — perguntou Alice.
Lucas puxou um mapa.
— Bella Vale reteve navios de Mereth por dívida de seguro. Se as cargas estiverem no cais, temos origem, frete e comprador.
Odran entregou-lhes uma carta sem selo.
— Bella abre portas quando acredita que há lucro atrás delas. Não mostrem o nome ritual a ninguém no porto.
— Nem a ela?
— Principalmente a ela.
Alice passou o polegar sobre a cera que protegia sua cópia. Uma parte do nome tinha sobrevivido em página. Outra talvez estivesse com Sybelle. A última podia repousar em Calderis, perto da coisa que lia linhagens e dívidas.
Antes de partirem, ela voltou à estante baixa sozinha.
Não procurou seu nome. Procurou a mão de Sybelle.
O registro mutilado tinha duas tintas: a preta do nascimento e uma marrom nas notas posteriores. Alice comparou o traço de Venn com as receitas que carregava desde o brejo. Sybelle fazia o vê inclinado para a esquerda, como junco sob vento. A anotação da fuga trazia o mesmo defeito.
Sua mãe voltara ao registro depois do nascimento.
Alice chamou Lucas. Ele levou uma lente de vidro e examinou a margem.
— A tinta marrom tem areia do sudeste. Pode ser do brejo.
— Ela escreveu que fugiu.
— Ou corrigiu o que outro escreveu.
Sob a lente, apareceram perfurações quase invisíveis ao redor da faixa cortada. Não eram marcas de lâmina. Alguém costurara uma tira nova sobre o nome e depois a arrancara.
Lucas procurou folhas soltas na caixa do mesmo ano. Encontrou uma relação de remessas para Calderis: sal, velas, três registros de confirmação e um suplemento de nascimento Venn, custódia velada.
— Enviaram uma segunda peça — disse.
— Antes ou depois de Sybelle voltar?
— A data é de onze anos depois do nascimento.
Alice tinha idade suficiente para conhecer Mara. O buraco em sua memória vinha daquele período.
Odran entrou trazendo um balde de cinza para secar o chão molhado.
— Você disse que eu não tive confirmação.
— Não teve aqui.
— Mas Salgária enviou um suplemento quando eu tinha onze anos.
Odran largou o balde. A cinza levantou em nuvem baixa.
— Eu não era prior.
— Era monge.
— E covarde com boa memória.
Sentou diante do livro. Contou que Sybelle aparecera numa noite de inverno com uma menina febril enrolada em lã. Alice não lembrava da viagem. Sybelle exigira acesso ao registro e ameaçara abrir a pedra sob o mosteiro se recusassem.
— Ela trouxe uma tira escrita e mandou costurar sobre seu nascimento — disse Odran. — Depois ordenou que o suplemento seguisse à catedral.
— O nome inteiro?
— Não vi. Ela cobriu com a mão.
— E você obedeceu.
— O prior obedeceu. Eu levei a caixa ao mensageiro.
— Diferença fina.
Odran esfregou cinza entre os dedos.
— Naquela época, eu vivia de diferenças finas.
Alice quis saber se Mara estivera ali. Fez a pergunta sem preparar a voz.
— Eu trouxe outra menina?
Odran demorou.
— Havia alguém na mula. Pequena, cabelo claro. Sybelle disse que era criada e mandou que ficasse no estábulo.
Mara ganhava cabelo. Um estábulo. Frio.
— Ela saiu conosco?
— Quando levei a caixa ao mensageiro, a mula tinha ido. Não sei quem montava.
O pouco era pior que vazio porque dava ao vazio bordas concretas.
Lucas fechou o livro para que a poeira não entrasse.
— O suplemento deve estar no arquivo-mãe.
— Com meu nome inteiro.
— Ou com outra parte.
Alice encarou Odran.
— Por que Sybelle enviaria à Igreja aquilo que tentava esconder?
— Talvez não estivesse escondendo de todos. Talvez estivesse comprando proteção de alguém. Nomes são moeda em Calderis.
Alice guardou a cópia dentro da camisa. Sybelle lhe ensinara que afeto virava corrente. Depois levara o nome da filha até quem fabricava coleiras e pagara alguma coisa com ele.
— Escreva o que lembrou — disse.
Odran pegou a pena.
— Sob meu nome?
— Não tenho outro para cobrar.
Ele escreveu o relato inteiro, inclusive a menina no estábulo e a caixa que carregara. Lucas assinou como testemunha da declaração. Alice fez sua marca abaixo, letras duras e desiguais.
Finn apareceu com a última coluna de dízimos conferida.
— Elwen diz que devo nove jarros de água e uma perna.
— A perna demora — respondeu Alice. — Comece pelos jarros.
— E se a voz falar de novo?
— Chame alguém vivo antes de responder.
Finn olhou para Odran.
— Mesmo se disser verdade?
— Principalmente — disse o monge. — Verdade é isca cara. Morto não gasta sem esperar retorno.
Finn carregou o primeiro jarro até a enfermaria. Derramou metade na escada, voltou, encheu de novo e não reclamou. Alice observou duas viagens. Na terceira, ele já equilibrava o peso contra o quadril.
Do corredor, Finn soletrava números para Elwen.
— Dois... oito... quinze.
— Isso é doze — corrigiu ela.
— Parece quinze.
— Só para analfabeto.
Alice entrou e colocou sobre a mesa o botão queimado de Eda, que Finn deixara cair durante o acidente.
— Amanhã partimos para Kess.
Finn fechou a mão em torno do botão.
— Elwen vai ficar?
— Vai ficar trabalhando, ao contrário de você se não terminar essa coluna — disse a noviça.
Ele tornou ao livro.
Na manhã seguinte, Odran os acompanhou até o portão. A pedra contaminada permanecia cercada por sal. A consequência de sua escolha pulsava sob o mosteiro; a de Finn aprendia a andar com muletas improvisadas.
Elwen apareceu na janela da enfermaria, apoiada em duas tábuas acolchoadas. Finn ergueu a mão. Ela respondeu mostrando o livro de dízimos e gritando que a coluna dos sacos ainda estava errada. O menino quase sorriu.
Alice deixou com a noviça uma moeda de Kess para a perna de madeira. Era pouco. Elwen mordeu a moeda para testar e guardou.
— Quando voltar, traga tinta — disse. — Água você já nos deve.
Finn prometeu apenas a tinta. Alice aprovou a medida.
— Nome inteiro é porta — disse Odran a Alice. — Pode abrir dos dois lados.
— Então vou descobrir quem guarda a chave.
Ele não a abençoou. Entregou-lhe uma vela com um prego no meio.
— Para lembrar que toda leitura acaba.
Alice guardou a vela no alforje. Seguiram para o Porto de Kess com menos grão, mais documentos e uma palavra incompleta. Finn cavalgou ao lado de Bren, sem responder quando o vento entre as pedras pareceu chamar seu nome.
Fim do Capítulo 12