Capítulo 11
Mosteiro de Salgária
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Capítulo 11
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Salgária cheirava a sal antes de cheirar a Deus.
O mosteiro ficava numa dobra da colina, e a bruma do mar interior cristalizava fina nas pedras do muro. Bren conhecia o caminho de cor: três árvores tortas, um poço seco, um muro com cruz queimada bem no centro — um aviso, não um acidente. Finn ia no meio do grupo, o sal ainda pesando na garganta desde a última vez que Aldric falara por ele. Alice guardava a raiva como quem guarda faca de reserva: Lucas não tinha respondido à voz do morto, Bren mandara, e vida valia mais que espectro. Ainda assim, a raiva não achava lugar direito para descansar.
O portão se abriu antes que batessem. Um noviço de olhos velhos demais para o rosto os deixou passar sem uma palavra, só um gesto de cabeça que apontava o caminho até o claustro.
— Ele já sabe que viemos — disse Bren.
No claustro, as velas ardiam sem tremer, protegidas do vento por nichos de pedra. Irmão Odran esperava junto à fonte seca, num hábito marrom remendado nos cotovelos, o rosto de quem se levanta cedo havia quarenta anos mesmo sem motivo novo para isso.
— Bren Kest. Trazendo caça nova, pelo visto.
— Trazendo gente viva — corrigiu Bren. — Um menino que ouviu demais lá embaixo.
Odran olhou para Finn, depois para Alice, com o reconhecimento de quem já viu brejo e empréstimo de perto antes.
— Metamorfose. A Igreja chama isso de abominação. Eu chamo de fome mal dirigida, e não julgo quem tem fome. Sente-se, filha, se quiser descansar os ossos.
Alice ficou de pé mesmo assim.
— Precisamos de abrigo, comida e estrada até o Porto de Kess.
— Vão ter as três coisas — disse Odran. — E a verdade também, se aguentarem ouvir. Mas primeiro, abrigo.
Serviram pão sem manteiga e um caldo ralo de raízes, numa sala comprida onde os monges comiam em silêncio, só o raspar de colher contra tigela de barro preenchendo o ar. Um monge mais jovem que os outros, magro a ponto de o hábito sobrar nos ombros, servia as tigelas sem erguer os olhos — até parar diante de Finn e hesitar um segundo a mais do que qualquer cortesia exigia.
— Irmão Cathal cuida dos doentes daqui — explicou Odran, notando a pausa. — Ele reconhece veio vermelho antes de qualquer um de nós reconhecer febre comum.
Cathal não disse nada. Só tocou de leve o pulso de Finn, contou alguma coisa nos próprios dedos, e assentiu para Odran como quem confirma um diagnóstico sem precisar de palavra para isso.
Os sinos tocaram antes de terminarem o caldo.
Não chamavam para oração. Três pancadas, uma pausa, outras três. Odran largou a colher. Cathal já corria para o pátio.
Uma carroça aguardava diante do portão com cinco cadáveres sob esteiras e uma mulher viva deitada entre eles. Dois lavradores seguravam as rédeas. Um terceiro discutia com o porteiro ao lado de seis sacos de cevada.
— O combinado eram oito — disse o porteiro.
— A ferrugem levou metade da colheita — respondeu o lavrador. — Se eu entregar oito, vinte vivos passam o inverno comendo casca.
Odran puxou a esteira do primeiro corpo. Veios rubros saíam dos ouvidos.
— Quando morreram?
— Dois ontem. Três na estrada.
— E ela?
A mulher respirava em assobios. Uma haste de carroça atravessara a coxa; o pano ao redor estava empapado. Alice ajoelhou e sentiu o pulso. Rápido demais, mas presente.
— Preciso de água fervida, linha e mel — disse.
Odran abriu a boca do cadáver mais recente. A língua já tinha endurecido em torno de um veio vermelho.
— Preciso começar o Fogo antes do próximo sino.
— Então comece.
O porteiro continuava diante dos sacos.
— Sem o dízimo inteiro, não abrimos a casa dos mortos.
Alice olhou para Odran.
— O cadáver conta grão?
— O mosteiro alimenta trinta monges, seis doentes e aldeias quando a neve fecha a estrada.
— E por isso cobra enterro de quem perdeu a colheita.
— Por isso ainda temos sal para o enterro.
O lavrador mais velho tirou o gorro.
— Posso trazer os outros dois sacos depois da debulha de primavera.
— Na primavera estes cinco já terão matado vocês — disse Bren.
Lucas abriu a bolsa de moedas. Odran cobriu-a com a mão.
— Prata compra sal no porto, mas não põe pão na mesa esta noite.
Alice pensou no saco de aveia preso à montaria, no pão que Odran lhes dera, nos seis sacos que sustentariam gente que ela não conhecia. A conta era indecente porque todos os números tinham fome.
— Quatro sacos ficam — decidiu. — Dois seguem com a aldeia. Nós pagamos dois com a aveia e o grão de viagem.
Lucas a encarou.
— Isso nos deixa sem ração para as montarias.
— Kess tem mercado.
— Kess fica a quatro dias.
— Então os cavalos comem capim e reclamam menos que você.
Odran estudou Alice e fez um sinal ao porteiro. As portas da casa dos mortos se abriram.
— Quatro sacos, e o mosteiro assume a dívida dos outros quatro — disse. — Registre no meu nome, não no da aldeia.
— Prior — protestou o porteiro.
— Registre, Irmão Edric.
Levaram os corpos para o ossário. Alice ficou com a mulher, que se chamava Nara e tinha dois filhos na carroça de volta. A haste não atingira a artéria, mas lascara o fêmur. Alice cortou o pano e pediu a Lucas que segurasse a perna. Finn ficou junto à porta, pálido, carregando a bacia de água.
No cômodo ao lado, Odran começou a absolvição. A voz velha atravessava a parede em cadência baixa. Sal raspava pedra. Cathal repetia as respostas.
Alice alargou a ferida. Nara gritou. Lucas segurou os ombros dela.
— Mais luz.
Finn aproximou a vela. Na chama, Alice viu uma linha vermelha dentro da carne.
— Bren.
O caçador examinou e cheirou a ponta da faca.
— Ferrugem ou minério da haste. Precisa sair.
O sino tocou uma vez.
No ossário, alguma coisa bateu contra a mesa.
Odran elevou a oração. O golpe repetiu-se. Depois outro corpo respondeu.
Nara começou a sufocar. O peito subia sem receber ar.
— Ela engoliu sangue — disse Alice. — Vire.
Lucas virou a mulher. Sangue escuro saiu da boca. O pulso falhou sob os dedos de Alice e voltou fraco.
Odran apareceu à porta com sal até os cotovelos.
— Cathal não termina sozinho.
— Ela morre se eu não tirar a lasca agora.
Atrás dele, madeira partiu. Finn deixou cair a bacia quando um cadáver rolou para fora do ossário. Trazia sal nos olhos e a boca costurada pela metade. Cathal pendurou-se às costas dele, tentando manter a mandíbula fechada.
Odran olhou do morto para Nara.
A escolha durou pouco e custou mesmo assim.
Ele agarrou a pinça da mão de Alice.
— Diga onde.
— Segure aberta. Eu tiro.
Bren e Lucas correram para Cathal. Alice enfiou dois dedos na ferida de Nara, encontrou a farpa e a arrancou. Um veio vermelho veio junto, fino como raiz de cebola. Odran derramou álcool. Nara voltou a respirar.
No ossário, o cadáver mordeu Cathal no antebraço.
Bren quebrou o joelho da criatura. Lucas enfiou sal na garganta. O fogo pegou no hábito de Cathal e no linho do morto; Finn apagou o monge com a água caída no chão.
Os outros quatro corpos começaram a bater sob as esteiras.
Odran fechou a ferida de Nara com pontos largos, entregou a agulha a Alice e tornou ao ossário. Chegara tarde para completar o rito do primeiro. Bren precisou cortar a cabeça. O fogo consumiu o cadáver sem absolvição.
Quando acabaram, uma linha rubra tinha entrado na junta entre duas pedras do chão. Sal nenhum a fez sair.
Odran ajoelhou e raspou a pedra até as unhas sangrarem.
— Pare — disse Bren. — Já desceu.
— Eu devia ter terminado.
Alice amarrou a tala na perna de Nara.
— Ela estaria morta.
— E agora há Ferrugem sob o mosteiro.
— Escolher o vivo não torna o morto menos perigoso.
Odran levantou-se devagar. Tinha fuligem na testa, onde o óleo da manhã deixara uma mancha.
— Nem torna a escolha limpa.
Cathal perdeu um pedaço do antebraço, mas não a mão. Nara acordou ao anoitecer pedindo pelos filhos. Os cinco corpos queimaram separados. Quatro receberam rito completo. O primeiro deixou sob a pedra uma pulsação vermelha que obrigaria os monges a manter sal e fogo naquele corredor por anos.
Odran mandou entregar dois sacos do próprio celeiro aos lavradores antes que partissem.
— O mosteiro vai passar fome — disse Edric.
— Então registre a fome no meu nome também.
Alice observou os sacos subirem para a carroça. O enterro fora pago em grão, sangue e uma dívida que papel algum conseguiria fingir pequena.
À noite, Odran os levou ao ossário por um motivo prático: um corpo esperava ali, envolto em linho cru, trazido naquela mesma tarde de uma aldeia vizinha por dois lavradores que já tinham ido embora com o pagamento em sal e silêncio.
— Morreu de febre — disse Odran, sem emoção na voz, o tipo de calma que só vem depois de repetir o mesmo gesto centenas de vezes. — Mas morreu devendo uma dívida de jogo ao próprio cunhado, e dívida é o tipo de culpa que a Ferrugem gosta de mastigar primeiro.
Cathal trouxe uma bacia de sal grosso e ajoelhou-se ao lado do corpo, os lábios se movendo numa oração que Alice não reconheceu — não em Rhydano comum, nem em nenhuma língua de reza que ela já tivesse ouvido em capela de vila. Odran acompanhou, uma sílaba atrás, como quem canta uma canção conhecida demais para prestar atenção na letra.
— Sal nos orifícios — narrou Odran, enquanto Cathal trabalhava, os dedos ágeis apesar da idade jovem. — Fogo nos nomes gravados na lápide, quando existe lápide. O juramento quebrado lido de trás para frente, porque palavra ao contrário confunde o que ainda não decidiu se quer lembrar de ser gente.
Lucas observava com o caderno fechado, pela primeira vez sem vontade de escrever nada daquilo.
— Isso não mata a Ferrugem — continuou Odran. — Só atrasa o cadáver até a absolvição chegar — ou até alguém mentir bem o bastante por ele.
Cathal terminou, cobriu o rosto do morto com um pano limpo e ergueu os olhos para Alice pela primeira vez desde que tinham chegado.
— A senhora cheira a rio parado — disse ele, num sussurro rouco de quem falava pouco. — Falo sem ofensa. É só o que eu sinto quando toco em quem já andou perto demais de Reerguido.
— Cathal fala pouco e vê demais — disse Odran, quase se desculpando. — Foi assim que ele sobreviveu ao próprio surto, há alguns anos. Os outros da aldeia dele não tiveram essa sorte.
Alice sentiu o peso daquela frase maior do que o tom com que fora dita.
— Que surto? — perguntou ela.
Cathal ergueu os olhos do corpo, e por um momento pareceu que seria ele a responder. Em vez disso, só tocou a própria têmpora com dois dedos, um gesto rápido, quase um tique, e voltou a arrumar o pano sobre o rosto do morto.
— Ele não gosta de contar — disse Odran. — Eu conto por ele, quando ele deixa. Hoje, não deixou. Amanhã, talvez.
Finn observava Cathal com uma atenção estranha, como quem reconhece um gesto antes de reconhecer uma pessoa.
— Ele também ouve — disse o menino, baixinho, só para Alice. — Não do jeito que eu ouço. Mas ouve.
Alice não perguntou mais nada. Odran fez um gesto de cabeça, convite para segui-lo, e Cathal ficou para trás, arrumando o corpo para o descanso que restava a ele.
Levou-os até um canto do claustro onde a pedra do chão era mais nova do que a das paredes — um remendo, malfeito de propósito, como se alguém quisesse que o remendo fosse notado.
— Aqui embaixo estão treze corpos que eu mesmo enterrei sem nome — disse Odran, batendo a sandália de leve sobre a pedra. — Uma aldeia inteira, a três dias daqui, que a Igreja decidiu que nunca tinha existido. Eu tinha vinte e poucos anos. Um bispo mais jovem do que Merrow é hoje me disse que escrever a verdade no registro condenaria a fé de meio reino, e que salvar a fé de meio reino valia mais que salvar o nome de trezentos camponeses já mortos mesmo.
— E você aceitou — disse Alice, sem acusação na voz, só constatando.
— Aceitei mentir no papel — corrigiu Odran. — Não aceitei mentir com o corpo. Enterrei cada um deles com sal, com fogo, com o juramento lido direito, do jeito certo, mesmo sabendo que o nome ia sumir do arquivo. A Igreja queria silêncio. Eu dei silêncio. Não dei abandono.
— Isso é diferença fina — disse Lucas, a testa franzida.
— É a única diferença que me restou — respondeu Odran. — Fé na Igreja eu perdi naquele dia, olhando um bispo escolher papel limpo em vez de gente enterrada direito. Fé no sagrado eu não perdi, porque o sagrado nunca me pediu pra mentir. Foi a Igreja que pediu. São coisas diferentes, mesmo usando a mesma vela.
Alice cruzou os braços, o frio da noite entrando pelas mangas da capa.
— Como você distingue uma coisa da outra? Do lado de fora, parece a mesma reza.
— Do lado de fora, sempre parece — concordou Odran. — Por dentro, a diferença é essa: a Igreja reza pedindo poder. O sagrado, se existe, nunca pediu nada de mim além de fazer o trabalho direito, mesmo sem ninguém olhando, mesmo sem crédito nenhum no fim. Eu enterro os treze sem nome uma vez por ano, na mesma data, sozinho. Ninguém em Calderis sabe que faço isso. Ninguém precisa saber.
— Minha mãe nunca rezou pra Deus nenhum — disse Alice. — Rezava pra garça, pra víbora, pra raposa. E funcionava.
— Funcionava antes de a Igreja existir, filha — respondeu Odran, sem espanto na voz. — Os espíritos que você carrega são mais velhos que qualquer catedral de pedra em Rhydan. A Igreja chegou depois, viu que o povo já se ajoelhava pra alguma coisa, e decidiu que era mais fácil vestir aquilo de sacerdote do que arrancar do peito das pessoas. Não inventaram o sagrado. Só compraram o direito de administrar ele, como quem compra poço numa terra onde já corria água antes.
— Então o que Sybelle faz comigo é mais antigo que pecado.
— É mais antigo que a própria palavra pecado — confirmou Odran. — Sua mãe errou ao cobrar o preço sem te dar o direito de escolher, não ao emprestar sua memória a um bicho. A culpa fica na mão que segura a faca, longe do espírito.
— Isso parece teimosia com roupa de fé — disse Alice, baixo.
Odran riu, um som seco e curto, o primeiro riso verdadeiro que ela ouvira dele.
— Talvez sejam a mesma coisa, filha, depois de uma certa idade.
Lucas franziu a testa, ainda preso na primeira metade da conversa.
— A Igreja diz que Reerguidos punem minas abertas, casas traidoras...
— A Igreja diz o que mantém a catedral de pé — cortou Odran, sem levantar a voz. — Há décadas surtos pequenos são apagados. Vilas que o tributo nem contava direito. Queimavam os corpos, enterravam sal, e o confessor de plantão mentia: peste, fome, o de sempre. Quando cresceu demais para esconder, culparam casas inteiras — Ardel, Mereth, quem estivesse de plantão naquela semana.
Lucas enrijeceu os ombros.
— Tem provas disso?
— Ossos que não levantaram. Nomes riscados de registros que ninguém mais lê. Não tenho coragem de levar tudo isso a um salão sem morrer enforcado por levar. É por isso que ainda respiro para te contar.
Bren cruzou os braços, encostado numa coluna.
— Por que conta isso pra gente?
— Porque a moça cheira a uma ordem que não veio de Deus nenhum. E porque o menino ouve sem ser padre — um sacramento falhando debaixo de tanta mentira acumulada que já nem sustenta o próprio peso.
Finn tremia. Alice pousou a mão no ombro dele, firme, até o tremor diminuir.
— Amanhã eu unjo os três para a estrada — disse Odran. — Sal, oração honesta. E um aviso: no porto, Lady Bella Vale compra favores do mesmo jeito que a Igreja compra silêncio. Não confundam a honestidade dela com bondade.
Alice quase sorriu.
— Já faz semanas que não confundimos bondade com nada.
Na cela, Lucas se virava sem sono na palha. Alice ficou pensando em surtos, minas, Sybelle, Mara — o sal do ossário ainda crinchando na memória dela como se estivesse debaixo da bota. Sob o corredor interditado, a Ferrugem deixada pelo rito incompleto pulsava em intervalos que ela quase confundia com o próprio coração.
— Treze corpos sem nome — murmurou Lucas, no escuro. — E ele reza por eles sozinho, uma vez por ano, sem ninguém saber.
— É mais do que Sybelle já fez por qualquer um dos mortos que ela ajudou a criar — respondeu Alice.
— Isso te dá esperança ou te deixa mais brava?
Alice pensou por um instante antes de responder, e a resposta veio mais honesta do que planejara.
— As duas coisas. Ao mesmo tempo. Acho que é assim que esperança funciona, quando o mundo já provou o tanto que pode apodrecer.
A fé continuava com Odran; quem tinha ido embora, havia anos, era a Igreja. Num reino que confundia fogo com verdade, a diferença entre as duas coisas importava mais do que qualquer sermão.
De manhã, Odran os ungiu no pátio: óleo amargo na testa, sal nos pulsos, palavras que Alice não repetiu porque soavam como um nome próprio antigo demais para ela.
— Isso não protege vocês da Ferrugem viva — avisou o monge. — Protege de serem enterrados como surto antes de terem a chance de falar.
Lucas inclinou a cabeça, grave. Bren deixou uma moeda de prata na caixa do mosteiro — pagamento por serviço, não esmola por indulgência. Cathal observava de longe, junto à fonte seca, e ergueu a mão uma única vez quando o grupo passou por ele — não um aceno de despedida comum, mais parecido com uma bênção que ele não tinha autoridade oficial para dar, e deu assim mesmo.
Partiram com pão seco nos alforjes e um mapa corrigido à mão por Odran: um atalho até Kess que evitava o posto eclesiástico da estrada principal. Finn caminhava melhor. Os olhos dele já não pareciam vidro.
Alice olhou para trás uma vez só. Viu a cruz queimada no muro, o mosteiro pequeno contra um reino podre por dentro — insuficiente, mas necessário do mesmo jeito.
— Porto agora — disse Bren. — Depois as minas. Depois Calderis, se ainda tiverem cabeça nos ombros.
— Ainda temos — respondeu Alice, e por um instante quase acreditou na própria voz.
Na última noite, Odran chamou Alice sozinha ao scriptorium. Pergaminhos secos empilhados, cheiro de tinta velha e cera de vela. Não ofereceu absolvição. Ofereceu registro.
— Escreva seu nome aqui — disse, empurrando uma folha em branco. — Não o que sua mãe deu. O que você ainda reconhece quando acorda de manhã.
Alice hesitou com a pena na mão. A metamorfose roubava pedaços dela; Sybelle roubava cômodos inteiros. Escreveu Alice, o traço torto e apressado. Odran guardou a folha dentro de um livro sem selo eclesiástico nenhum na capa.
— Se vocês morrerem em Calderis — murmurou ele — alguém vai saber que você existiu antes de qualquer salão do trono.
— Otimista — disse Alice.
— Fé residual — corrigiu Odran, com o começo de um sorriso. — Vá. Bren está esperando lá fora, e o menino precisa dormir enquanto a voz dele dorme também.
Alice saiu pelo corredor frio, pensando em décadas de surtos escondidos, em cadáveres que não se levantaram porque alguém como Odran ainda acreditava em trabalho silencioso e sem glória nenhuma. Alice encontrou ali uma resistência pequena, do tamanho exato para continuar andando, embora perdão continuasse longe.
Lucas a encontrou no pátio antes do amanhecer, com olheiras novas cravadas no rosto.
— Odran me disse que meu tio foi enterrado em registro, não em terra — murmurou ele, amargo. — Nome riscado, corpo desaparecido. A Igreja limpa o arquivo antes de sequer pensar em limpar a alma de alguém.
— Então vamos sujar o arquivo de novo — respondeu Alice.
Ele assentiu e não a tocou — respeito de quem estava aprendendo, aos poucos, onde ficavam os limites dela. Bren gritou do portão que cavalgariam dentro de uma hora. Finn comia o pão seco como quem tem medo de parar de mastigar.
O sol nasceu por trás da cruz queimada. Alice montou olhando o mosteiro encolher atrás dela, pedra pequena contra um reino podre. Bren conferiu o alforje de sal pela terceira vez. Lucas guardou a bênção de Odran junto do peito, ao lado dos documentos. A estrada para Kess serpenteou entre colinas secas, e ninguém falou dos surtos escondidos — mas ninguém deixou de pensar neles.
Quando a estrada fez a primeira curva, o mosteiro sumiu atrás da colina. Só o cheiro de sal ficou, grudado na capa de Alice, até o vento do meio-dia levar embora também isso.
Fim do Capítulo 11