Capítulo 10
O Menino que Ouviu
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Capítulo 10
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A vila não tinha mais nome que valesse a pena pronunciar.
Nos mapas velhos de Lucas era Cinza das Três Pontes: pontes caídas, madeira queimada e osso exposto sob um céu baixo que não chovia havia semanas. Bren parou o grupo antes da primeira casa e apontou o queixo para o chão.
— Vejam as pegadas — disse ele. — Só uma direção. Ninguém saiu andando dessa vila. Todo mundo saiu carregado, ou não saiu.
Alice entrou primeiro em forma de raposa-do-brejo, o focinho rente ao chão, farejando cobre e igreja úmida. Nada se mexeu além da poeira e de uma telha solta que o vento empurrava de um beco a outro. Passou por um poço com a corda cortada rente à borda — não apodrecida, cortada, um golpe só, limpo — e por um varal ainda de pé com três camisas enrijecidas de chuva velha, penduradas como se esperassem gente que nunca mais viria buscá-las.
Voltou humana atrás de um muro derrubado, com gosto de ferrugem na língua. Perdeu, na troca, o nome de uma canção que Sybelle cantava enquanto fervia espinheiro para os remédios — um buraco pequeno o bastante para carregar, do jeito que uma prateleira vazia na cabana ainda dói de olhar.
— Limpo? — sussurrou Bren, o sal já na mão.
— Limpo o que respira. O resto não garanto.
Avançaram pela rua principal, se é que aquilo ainda merecia o nome. Uma capela pequena tinha a porta arrancada dos gonzos e jogada de lado; dentro, os bancos estavam virados, e sobre o altar alguém tinha empilhado sapatos — dezenas deles, pares desencontrados, como se a vila inteira tivesse sido despida antes de ser levada. Lucas parou na soleira, sem entrar.
— Isso é ritual — murmurou ele. — Ou é fome.
— É os dois — disse Bren, sem se deter. — Fome de gente que não tem mais nada, e depois alguém achando que empilhar sapato resolve o medo. Não resolve. Só organiza.
Alice apertava a pasta de couro contra o peito de Lucas com o olhar — não, era ele que apertava, os documentos, selos, as provas que carregava havia semanas. Alice via o tremor que ele tentava esconder — a culpa de Ardel pesando como pedra no bolso, mesmo ali, longe de qualquer mina.
Passaram por uma casa com a fachada intacta e o interior queimado por dentro, como se o fogo tivesse nascido das próprias paredes e não soubesse sair. Num canto do quintal, uma boneca de pano queimada pela metade jazia ao lado de um brinquedo de madeira entalhado — um cavalo pequeno, sem uma perna. Alice não tocou em nenhum dos dois. Bren também não. Só Lucas se abaixou, olhou por um segundo mais longo do que precisava, e seguiu andando sem dizer nada.
— Quantos moravam aqui? — perguntou Alice, mais para preencher o silêncio do que porque esperasse resposta certa.
— Pelos poços, umas quarenta famílias — respondeu Bren, contando telhados caídos com o dedo, baixinho, como quem reza um número em vez de um nome. — Grande demais pra sumir sem ninguém em Calderis perguntar. Pequena demais pra alguém se importar de verdade.
Junto ao que sobrava de uma ferraria, encontraram uma fileira de estacas fincadas na terra, cada uma com um pedaço de pano amarrado na ponta — sinal de sepultura provisória, do tipo que gente apressada faz quando não tem tempo de cavar fundo. Bren contou as estacas em silêncio, os lábios se mexendo sem som, e não disse o número em voz alta dessa vez.
— Alguém tentou fazer certo — murmurou Lucas, olhando os panos surrados pelo vento. — Antes de fugir, ou antes de morrer também.
— Alguém sempre tenta — respondeu Bren. — Raramente sobra tempo suficiente pra terminar.
Alice farejou o ar outra vez, humana agora, sem precisar de focinho de raposa para sentir o cobre por baixo da cinza fria. Vinha mais forte perto de um poço tampado com uma tábua larga, pregada às pressas — pregos tortos, madeira nova por cima de madeira velha, um trabalho de alguém que queria selar algo depressa e não voltar para conferir se tinha dado certo. Nenhum dos três se aproximou o suficiente para levantar a tábua. Bren jogou um punhado de sal na fresta entre as tábuas, por precaução, e seguiu andando sem comentar.
O som veio então — não um grito, nem um gemido, só um raspar contínuo, madeira contra madeira, vindo de baixo dos próprios pés deles.
Encontraram Finn no porão de uma padaria.
A escada descia para uma escuridão que cheirava a fermento morto. Bren desceu primeiro, com a tocha; Lucas foi atrás, faca em punho; Alice fechou a fila com as mãos vazias, prontas.
O menino estava encolhido num canto, magro, catorze ou quinze anos, com veios vermelhos finos correndo sob a pele do pescoço. Respirava. Tremia. Não tinha o cheiro parado de um Rastejante.
— Não somos deles — disse Lucas, as mãos abertas à frente do corpo.
Finn virou o rosto para eles. A boca era de menino; a voz que saiu dela era de homem maduro, educada demais para aquela garganta fina.
— Lucas. Ainda carrega a chave da adega de Ardel? A que fica atrás do retrato da avó.
Lucas empalideceu.
— Meu tio Aldric. Morreu na execução.
— Morreu — concordou a voz. — A culpa, não. Você sabe onde cavaram primeiro. Não foi nas colinas de Ardel. Foi mais fundo. Mais perto do juramento.
Bren ergueu a tocha um palmo, como se a luz ajudasse a entender.
— Lembrado em carne viva — disse ele. — A Ferrugem gosta de testemunha. O menino morreu um minuto e voltou ouvindo.
Os pelos do braço de Alice se arrepiaram. Ela olhou para Finn e viu só os olhos dele, assustados, humanos. A voz vinha de outro lugar.
— Finn — Lucas engoliu em seco. — Você me ouve?
— Ouço tudo à noite — respondeu a voz fina. — Chamam nomes. Dizem Mara, às vezes. Dói sem eu saber quem é.
O nome bateu como pedra numa porta fechada. Alice sentiu o buraco de sempre, a menina sem rosto, mas não deixou o rosto dela se mexer.
— Como você chegou aqui embaixo? — perguntou Alice, agachando-se para ficar na altura dos olhos do menino, longe do alcance de qualquer mão dele.
Finn piscou, e por um instante a voz que voltou era só a dele, fina e rachada:
— Mamãe me empurrou pela escada quando ouviu os cavalos. Disse pra ficar quieto até ela voltar. — Engoliu em seco. — Ela não voltou.
— Quanto tempo? — perguntou Bren.
— Não sei contar mais dia — disse o menino. — Comi farinha crua. Bebi água de uma poça que desceu pela rachadura da parede.
Alice trocou um olhar com Bren. Água de poça parada era exatamente o que ele tinha ensinado a temer, dias antes, com o fígado cinza de um coelho morto.
— Não levamos ele — disse Bren, a voz baixa, quase gentil no jeito de ser dura. — Voz de morto atrai morto. Vocês viram os sapatos lá em cima. Essa vila inteira morreu de gente boa demais pra deixar um vizinho gritando sozinho.
Subiram com Finn entre os dois, de volta à rua principal, mas a decisão não veio fácil, nem rápida.
— Ele é prova viva — disse Lucas, a voz tensa. — Aldric sabia de coisas que nem Odran vai saber contar. Se largamos o menino aqui, largamos a única testemunha que já ouvimos falar da boca de um morto que conhecia os dois lados do juramento.
— Ele é isca — rebateu Bren, sem levantar a voz, o que tornava tudo pior. — Cada legoa que andarmos, a voz vai voltar, e cada vez que voltar, vai chamar mais gente errada pra perto de nós. Vocês querem carregar um sino amarrado no pescoço até Calderis?
— Ele é uma criança — disse Lucas.
— Era — corrigiu Bren. — Agora é os dois: criança e sino. Não escolhi isso, o mundo escolheu. Eu só aviso o preço antes de vocês pagarem.
Finn ficou parado entre os três, os olhos indo de um rosto a outro como quem assiste ao próprio destino ser discutido numa língua que ele quase entendia.
— Eu não quero ficar sozinho de novo — disse o menino, baixinho, com a própria voz, sem intermediário nenhum.
Ninguém respondeu de imediato. Alice fez as contas por dentro: testemunha valia alguma coisa; isca também; Sybelle teria usado o menino sem pensar duas vezes, pesado como peça de tabuleiro, útil enquanto durasse. Odiou pensar como a própria mãe. Odiou ainda mais perceber que a conta, sozinha, não bastava para decidir nada — faltava um número que nenhuma conta continha.
— E se a voz voltar no meio da noite e ele gritar um segredo que mate um de nós? — perguntou Bren, direto para Alice dessa vez, como se soubesse que ela era quem decidia mesmo quando ninguém dizia isso em voz alta.
— Então descobrimos o segredo antes que ele mate alguém — respondeu Alice. — Prefiro saber cedo que tarde. Sempre preferi.
— Prefere porque nunca enterrou ninguém por causa disso — disse Bren, sem crueldade, só constatando. — Eu já enterrei.
— Então me ensina a não deixar isso acontecer de novo — disse Alice. — Em vez de me dizer pra deixar o menino aqui embaixo pra morrer sozinho, do jeito que a mãe dele não quis.
Bren ficou quieto por um instante mais longo do que qualquer coisa que tivesse dito até ali. Cuspiu de lado, no chão de terra batida.
— Se ele morrer na estrada por nossa causa — disse Bren, a voz mais dura agora —, o peso disso cai em cima de você, moça, não em cima de mim. Eu já carreguei peso desses. Sei o tamanho.
— Então me ensina a carregar — respondeu Alice, sem recuar um passo. — Em vez de decidir por mim que eu não aguento.
Lucas olhou de um para o outro, como quem assiste a uma negociação que já não precisa da própria voz para continuar.
— Vocês dois brigam como se o menino não estivesse aqui ouvindo — disse ele, baixo.
— O menino está aqui ouvindo — confirmou Bren, sem se virar. — Melhor ouvir a briga agora do que descobrir depois, sozinho, que ninguém brigou por ele.
— Vocês não vão gostar do que eu ensino sobre isso — disse ele, por fim. — Sal na garganta à noite, três nós de pano, e ninguém, ninguém, responde à voz quando ela chamar por um nome que a gente ama. Nem você, moça. Nem Lucas.
— Combinado — disse Lucas, rápido demais, como quem tem medo de a resposta certa fugir se não for pega na hora.
— Levamos ele — disse Alice, e a frase saiu mais leve do que ela esperava, como se já estivesse decidida havia mais tempo do que a própria discussão.
— Alice — Lucas começou, surpreso com a própria vitória.
— Levamos — repetiu ela, virando-se para Bren. — Sal na garganta à noite. Você ensinou isso de verdade ou foi só conversa de fogueira?
— Era ofício — respondeu Bren. — Carrega o menino nas costas se precisar. Quando a voz voltar, segura a mão dele. Lucas não responde nada. Morto reconhece culpa; vivo alimenta.
Finn soltou a manga de Lucas só quando pisaram na rua, a luz cinzenta do fim de tarde caindo sobre os telhados caídos como um véu que ninguém tinha pedido.
Antes da estrada, precisavam tirar Finn da vila sem levar a vila junto.
Bren marcou um círculo de sal diante da ferraria e mandou o menino ficar dentro. Depois revistou a padaria, a casa vizinha e o poço pregado. Alice acompanhou Lucas até o quintal onde três corpos jaziam sob uma lona de vela. Um deles tinha a mesma trança curta de Finn.
— Não mostre — disse Lucas.
— Não vou decidir por ele o que consegue olhar.
Encontraram farinha ainda seca numa tina, duas cebolas brotadas e uma camisa quase do tamanho do menino. Alice recolheu tudo. Não escolheu brinquedo, fita ou lembrança. Se Finn quisesse carregar mortos, teria de apontá-los.
Na ferraria, Bren fazia o menino cuspir sobre um prato de ferro. Espalhou sal na saliva e esperou. Nenhum veio apareceu.
— Isso quer dizer que estou limpo? — perguntou Finn.
— Quer dizer que sua boca está limpa agora. Não vou lhe vender certeza que não tenho.
Alice entregou a camisa.
— Há corpos no quintal da casa azul. Uma mulher tem cabelo como o seu.
Finn ficou tão quieto que parecia prender até o sangue. Depois saiu do círculo.
Bren bloqueou o caminho com a lança.
— A decisão foi levar você vivo.
— É minha mãe.
— Pode ser uma coisa usando o rosto dela.
Alice tomou a lança da mão de Bren e abriu passagem.
— Vamos todos.
A mulher estava morta havia dias, mas não se movera. Tinha uma pancada na têmpora e as mãos queimadas. Finn ajoelhou sem tocar. Chamou-a de Eda uma vez. A voz respondeu debaixo da lona:
— Finnegan, tire a chave da boca dela.
Não saiu do menino. Saiu do segundo cadáver, um velho com o peito esmagado.
Lucas empalideceu ao ouvir o nome inteiro.
Bren lançou sal sobre o rosto do morto. O corpo arqueou. Alice puxou Finn pelo cinto antes que ele alcançasse a mãe.
— A chave — repetiu o velho. — Ela guardou para você.
Finn lutou contra Alice com cotovelos e unhas.
— Solta! Ela disse que a adega tinha porta de ferro. Ela disse...
O cadáver abriu os olhos.
Lucas cortou a cabeça. Bren encheu a garganta de sal. O corpo continuou batendo os calcanhares na terra até Alice derramar óleo e acender.
Finn vomitou farinha crua sobre as botas.
— Minha mãe — disse, quando conseguiu respirar.
Alice verificou Eda. Entre os dentes havia apenas sangue seco.
— A voz mentiu sobre a chave.
— Como sabia meu nome?
Ninguém respondeu. Bren embrulhou o corpo de Eda na lona e pediu fogo.
Finn se colocou diante dele.
— Ela não levanta.
— Ainda.
— Enterra.
— O chão está contaminado.
— Então carrega até outro.
Bren olhou para Alice. O peso prometido na rua já cobrava a primeira parcela.
— Não temos carroça — disse ela a Finn. — Podemos queimar aqui com sal, ou cobrir e marcar para Odran mandar buscar. Se chover antes, ela pode levantar.
O menino limpou a boca com a manga nova.
— Queima. Mas não com ele.
Apontou o velho que mentira.
Acenderam duas piras. Finn colocou uma colher de madeira junto à mãe. Não chorou enquanto a chama pegava. Chorou quando o cabo da colher rachou.
Alice ficou a dois passos. Não o abraçou. Segurou o cantil quando ele pediu água e o fez beber devagar para não vomitar outra vez. Quando tudo terminou, Finn recolheu um botão queimado da camisa de Eda e guardou no bolso.
— Posso ir agora — disse.
Na estrada, Lucas murmurou um obrigado. Alice disse para guardar o agradecimento — ainda não sabiam se tinham salvado alguém ou carregado uma isca.
Finn falou com a própria voz, rachada:
— Prefiro saber com vocês do que ouvir sozinho lá embaixo.
Alice ajeitou a capa de lã nos ombros e seguiu andando. Mara latejava no buraco de sempre, sem rosto, perigosa e viva como um dente que ainda dói.
Bren caminhava atrás, a mala de sal batendo contra a coxa a cada passo, os olhos fixos no horizonte onde Salgária esperava — promessa ou armadilha, ainda não dava para saber qual.
Pararam num riacho antes do crepúsculo. Finn lavou o rosto ali; por um instante a água devolveu o reflexo de um veio vermelho na têmpora dele, que sumiu quando o menino piscou. Lucas anotou no caderno pequeno: data, lugar, as palavras exatas de Aldric. Já não sabia dizer se estava registrando prova ou loucura, mas registrava do mesmo jeito.
Alice afiou a faca numa pedra lisa do riacho. Pensava em Sybelle mandando apagar rastros, e pensava em ter escolhido salvar um menino em vez de apagá-lo também. A distância entre as duas coisas era fina — e doía por ser fina.
— Amanhã, mosteiro — disse Bren. — Odran não gosta de surpresa. Vou na frente avisar, se ele ainda estiver vivo.
— E se não estiver? — perguntou Lucas.
— Rezamos rápido e seguimos — respondeu Bren. — Reza curta, estrada longa.
Alice guardou o silêncio como quem guarda uma faca no cinto. Finn cantarolou sem melodia nenhuma — voz dele, não do tio morto. Por ora, bastava.
Lucas caminhou ao lado dela por um trecho, a voz baixa:
— E se a voz voltar dizendo uma verdade capaz de nos destruir?
— Então destruímos depois de ouvir — respondeu Alice. — Mentira confortável já matou mais gente neste reino do que espada.
Ele não sorriu, mas assentiu. Bren, alguns passos à frente, fingiu não escutar nada — ofício de caçador também era saber a hora certa de não ser testemunha.
Na primeira fogueira, Bren ensinou Finn a amarrar sal num pedaço de pano: três nós, um para cada nome que o menino não devia responder. Finn repetiu o gesto com os dedos trêmulos até acertar. Alice esquentou o caldo mexendo devagar, provando o sal na ponta da colher como tinha visto Bren fazer. Serviu na ordem em que as tigelas chegaram às mãos: Bren, ela, Lucas e Finn. O menino reclamou da cebola, comeu mesmo assim e raspou a panela sem pedir licença.
— Por que três nós? — perguntou Finn, apertando o pano contra o peito.
— Porque dois esquece — respondeu Bren, sem erguer os olhos do que fazia. — E quatro é enfeite. Três é o número que a mão lembra sem pensar, mesmo com medo. Testei em mim mesmo, mais vezes do que gostaria de contar.
— Você já ouviu voz? — perguntou o menino.
Bren parou o que fazia por um segundo — pequeno demais para qualquer um que não estivesse prestando atenção, grande o bastante para Alice notar.
— Já — disse ele, só isso, e voltou a amarrar o próprio saco de sal com um nó extra que não explicou a ninguém.
Lucas ficou acordado até tarde copiando as frases que Finn repetira sob a posse — a letra firme, a mão que não tremia enquanto servia de registro. Alice observava da escuridão, mordendo um pedaço de pão duro. Admirava aquilo e desconfiava ao mesmo tempo: escriba bom demais às vezes escondia a própria culpa dentro da ordem que impunha ao papel.
— Dorme — disse Lucas, sem levantar os olhos do caderno. — Amanhã a estrada cobra de novo.
— Sempre cobra — respondeu ela. — Só muda a moeda.
Alice deitou de costas para o fogo. Ouviu Finn murmurar Mara uma vez, ainda dormindo, e ouviu Bren apertar o sal contra o pano do menino até ele calar. Fechou os olhos só depois que o silêncio voltou a ser silêncio de verdade.
No meio da noite, Finn acordou e tentou ir embora.
Alice o encontrou junto às montarias, amarrando o saco de farinha na sela errada. Não chamou os outros.
— Essa é a égua de Lucas. Morde.
Finn largou a fivela.
— Bren disse que eu chamo as coisas.
— Bren diz muita coisa para continuar respirando.
— O velho sabia meu nome inteiro.
Alice se encostou no tronco, deixando livre o caminho da estrada.
— Se quiser partir, não vou amarrar você. Há Salgária a dois dias, uma aldeia ao sul e ruína atrás. Escolha sabendo as distâncias.
Finn olhou para o escuro.
— Você quer que eu fique?
Ela pensou na utilidade da voz, no botão queimado, na farinha que teriam de dividir. Pensou também em Colm sendo levado por outra caravana enquanto ela continuava para o Vale. Não confundiu os dois meninos; a semelhança era uma armadilha preguiçosa.
— Quero chegar a Salgária com todas as pessoas que saíram desta fogueira. Amanhã posso querer outra coisa.
— Isso é ruim de ouvir.
— É melhor do que promessa que não cabe na estrada.
Finn desamarrou a farinha.
— Minha mãe prometeu voltar.
Alice não tentou consertar a frase.
Ele tornou às mantas por conta própria. Deitou perto de Bren, não dela. Alice ficou de vigia até o amanhecer e contou quatro vezes o estoque de comida. Levar Finn ainda parecia um cálculo ruim. A decisão continuou de pé mesmo assim.
Fim do Capítulo 10