Capítulo 09
Sal e Fogo
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Capítulo 09
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O frasco começou a bater na caixa antes do amanhecer.
Alice acordou com vidro contra ferro e a faca já na mão. Lucas dormia sentado contra a parede da casa de pedágio, a perna ferida estendida sobre um saco de aveia. A vela tinha virado um toco afogado em cera. No centro da mesa, a caixa que guardava a amostra do Vale tremia em golpes curtos.
— Lucas.
Ele abriu os olhos e alcançou a espada. Alice soltou o fecho da caixa com a ponta da faca. Dentro, o frasco estava quente. Os veios vermelhos da lama tinham se juntado no lado voltado para a porta.
Alguma coisa arranhou a madeira do outro lado.
Lucas se levantou sem apoiar a perna direita. O curativo já mostrava uma moeda escura de sangue.
— Fique atrás.
— Com essa perna, você fica atrás.
Alice apagou a vela entre os dedos molhados e aproximou-se da porta. O cheiro passava pelas frestas: cobre, pelo encharcado e carne aberta. Não vinha do Vale. Vinha da estrada.
A porta cedeu para dentro antes que ela tocasse a tranca. Um cão de pastoreio entrou arrastando as patas traseiras. O couro do pescoço ainda trazia metade de uma coleira. Veios rubros subiam da barriga até os olhos; a boca mastigava uma tira de pano azul.
Alice lançou a faca. A lâmina entrou abaixo da orelha e derrubou o animal, mas as patas continuaram raspando o chão. Lucas desceu a espada. O golpe partiu duas tábuas e quase acertou a mão dela.
— Cabeça não bastou — disse ele.
O cão abriu a boca outra vez. A língua estava presa por filamentos vermelhos.
— Fogo.
Tinham óleo, uma vela inútil e lenha molhada. Alice puxou a caixa de ferro para longe quando o frasco bateu com força suficiente para trincar. O cão respondeu ao som; torceu-se na direção da amostra, não deles.
Uma flecha atravessou a janela sem vidro e fincou-se no flanco do animal. Um pequeno saco de linho vinha amarrado à haste. O tecido rompeu, despejando sal grosso dentro da ferida. A carne chiou. O cão se dobrou como couro sobre brasa.
— Agora o fogo — disse uma voz do lado de fora.
Uma tocha entrou pela porta. Alice a apanhou e encostou no pelo. A chama subiu azul nas bordas, amarela no centro. Lucas fechou a porta com a bota enquanto o corpo queimava no chão.
O homem que apareceu na soleira carregava um arco curto, um casaco de couro remendado e três sacos de sal no cinto. A barba tinha cinza demais para o rosto de quarenta anos. Faltava a ponta do dedo mínimo da mão esquerda. Ele olhou primeiro para o cão, depois para o frasco na caixa e por último para Alice.
— Venn — disse.
Alice tirou a segunda faca da bota.
— Você lê sobrenome no escuro?
— Leio Sybelle no jeito de segurar lâmina. Ela também apontava antes de agradecer.
Lucas ergueu a espada.
— Diga seu nome.
— Bren Kest. Caço a coisa que vocês arrastaram para fora do vale.
O frasco deu outro golpe contra a parede de vidro. Lá fora, alguma criatura respondeu com um uivo curto.
Bren fechou a porta e passou uma linha de sal na soleira.
— Se querem discutir apresentação, façam enquanto carregam. O veio encontrou água sob a estrada. Ao meio-dia, qualquer animal que beber no baixio vai procurar esse frasco. Ao anoitecer, talvez procure vocês.
Alice olhou para a amostra. Lucas a recolhera como prova. Ela permitira porque precisava levar alguma coisa a Calderis que não fosse história de morto.
— Como sabe que veio do Vale?
Bren apontou para o pano azul preso nos dentes queimados do cão.
— Bandeira Mereth. Ele cavou uma sepultura no baixio, comeu um soldado e bebeu a água. Há raízes saindo do cadáver. Vocês abriram uma trilha quando tiraram minério de lá.
Lucas empalideceu.
— Então devolvemos a amostra.
— E deixamos a trilha terminar numa vala usada por três aldeias. Excelente forma de economizar enterros: mata todos de uma vez.
Bren se agachou junto ao cão. Usou a ponta da faca para abrir o fígado. A borda estava cinzenta, com pontos rubros do tamanho de sementes de papoula.
— Preciso do frasco para puxar o que saiu. Preciso de duas pessoas capazes de obedecer por uma hora. Depois podem voltar a se odiar.
— Não obedecemos a estranhos — disse Alice.
— Então considere que está obedecendo ao próprio erro.
Lucas colocou a caixa de ferro sobre a mesa. A mão demorou um instante no fecho.
— O documento do Vale menciona uma carga desaparecida no baixio de Orla. É este lugar?
— Duas léguas ao norte. — Bren olhou a bandagem da perna dele. — Você não corre.
— Corro o bastante.
Alice retirou os pontos, lavou o corte e refez o curativo enquanto Bren apagava o cão com terra. O caçador não tentou apressá-la. Separou sal puro em três sacos, testando cada punhado na língua, e jogou fora os cristais que tinham manchas cinzentas.
— Sal é sal — disse Lucas, fechando a fivela da pasta.
— E sangue é sangue até um morto levantar. Sal de poço tocado pela Ferrugem chama mais do que afasta. Este veio é de salina real. Custa o dobro e não tenta comer ninguém.
Alice apertou o último nó na perna de Lucas.
— Se abrir, não paro para costurar.
— Você sempre diz isso antes de costurar.
Bren observou os dois e tomou a caixa.
— Sybelle mandou a filha com um Ardel para seguir minério. Ou ficou mais corajosa, ou mais covarde.
Alice segurou o punho dele antes que levantasse a caixa.
— O que sabe sobre minha mãe?
— O suficiente para saber que esta estrada fica cheia se conversarmos aqui.
Outro uivo veio do norte. Depois um segundo.
Alice soltou Bren.
O baixio de Orla era uma faixa de lama cercada por salgueiros doentes. Penas, pegadas e marcas de casco cobriam a margem. Nenhum animal bebia. Os pássaros observavam dos galhos mais altos, em silêncio.
Bren mandou Lucas levar a caixa para o centro de uma ponte de pedras. Alice espalhou sal em dois arcos, deixando uma abertura voltada para o vale. O caçador fincou tochas apagadas a cada seis passos e derramou óleo em linhas estreitas entre elas.
— Por que a abertura? — perguntou Alice.
— Porque quero que venham por onde escolhi.
— E se escolherem outro lugar?
— Aí descubro quanto valem suas facas.
Lucas se ajoelhou na ponte e abriu a caixa. Os veios da amostra ergueram-se dentro do frasco como vermes procurando ar.
O primeiro animal saiu do mato sem ruído. Uma cabra com a barriga aberta caminhou até a borda do sal. Atrás dela vieram dois cães, um javali jovem e uma raposa cuja cauda deixava um risco vermelho na lama. Nenhum parecia morto por completo. Respiravam em espasmos e mantinham os olhos presos ao frasco.
— Feridos vivos — murmurou Alice.
— Alguns. — Bren acendeu a flecha na tocha que carregava. — Não existe cura com sal. Se o veio chegou ao olho, queimamos. Se ficou no membro, cortamos e rezamos para o bicho não nos morder.
— Você reza?
— Quando não tenho faca boa.
A cabra atravessou a abertura. Alice jogou o laço conforme Bren ensinara durante a caminhada. A corda prendeu as patas dianteiras. O animal caiu, e Bren cravou a lança no pescoço. Sal dentro da boca; fogo sobre o corte. A ordem era física e sem grandeza.
Os cães vieram juntos. Lucas derrubou um com a espada. O segundo passou por ele e saltou em direção à caixa. Alice ofereceu à raposa apenas a visão do olho esquerdo.
A pele formigou. A lembrança de uma manhã no brejo subiu como gosto de pão queimado: Wat remando, uma garça seguindo a canoa, o som de Sybelle cortando juncos na margem. Alice arrancou um detalhe — a cor da camisa de Wat. O mundo cresceu em cheiros e movimentos. Viu o cão mudar o peso antes do salto e entrou sob ele.
A faca abriu a barriga. Sangue preto caiu no ombro dela.
— Sal! — gritou Bren.
Alice rolou. Lucas lançou o saco. Os cristais grudaram no sangue, queimando através da camisa. O cão tentou voltar para a caixa. Bren incendiou a linha de óleo, e uma parede baixa de fogo o alcançou.
O javali investiu contra Lucas. A perna ferida cedeu. Ele caiu sobre a pasta de documentos, protegendo-a com o corpo antes de proteger o rosto.
Alice viu a escolha e odiou a rapidez dela.
Cravou a faca atrás da pata do javali e não encontrou o coração. Bren bateu com a lança no focinho do animal, desviando-o. Lucas rolou, deixou a pasta na lama e enfiou a espada entre as costelas.
— Outra vez — disse Bren. — Mais fundo.
Lucas empurrou até a guarda. O javali caiu sobre ele.
A raposa contaminada recuou do fogo. Tinha um veio no quadril, longe dos olhos, e respirava com a boca fechada.
— Esta vive — disse Alice.
Bren já levantava o arco.
— Ainda.
Alice se pôs na frente.
— Disse que corta o membro.
— Disse que rezamos depois. Raposa com três patas morre de fome ou espalha o veio quando a ferida abre.
— Então não foi tratamento. Foi uma maneira mais comprida de dizer que mata tudo.
A raposa tentou morder o próprio quadril. Bren manteve a flecha apontada.
— Sua mãe teria aberto o bicho para estudar quanto tempo levava.
— Não use Sybelle como rédea.
Alice retirou o garrote do estojo, aproximou-se pela lateral e jogou a capa sobre a cabeça do animal. A raposa se debateu, leve e desesperada. Bren prendeu as patas. Alice cortou acima do veio. Sangue limpo surgiu primeiro; depois uma gota rubra, grossa como resina. Ela cauterizou o coto com a ponta da faca aquecida.
Quando soltaram a capa, a raposa fugiu em três pernas e desapareceu entre os juncos.
— Se voltar contaminada, é sua — disse Bren.
— Se não voltar, também.
Lucas saiu debaixo do javali, coberto de lama. A pasta estava a dois passos, manchada na borda. Ele a pegou antes de verificar a bandagem. O pano tinha aberto.
Alice sentiu a irritação bater de novo, mas havia dois cães queimando e uma cabra ainda se mexendo. Guardou-a.
O último bicho veio do fundo da água.
Era um cavalo preso a raízes e arreios, arrastando atrás de si metade de uma carroça. Um braço humano continuava amarrado às rédeas. O anel no dedo trazia o losango de Mereth. As raízes entravam no peito do animal e saíam pelo braço do morto.
— A carga desaparecida — disse Lucas.
— O começo dela. — Bren pegou um segundo frasco. — Precisamos da raiz que liga os dois.
— Precisamos queimar — disse Alice.
— Primeiro cortamos prova.
Lucas olhou para Bren. Alice reconheceu o desejo de concordar antes que ele falasse.
— Rápido — decidiu ela. — Eu seguro. Vocês cortam.
O cavalo atingiu o arco de sal e empinou. Alice lançou a corda no pescoço, enrolou a outra ponta no salgueiro e quase perdeu dois dedos quando o nó correu. Lucas avançou pela esquerda. Bren, pela direita. A carroça virou, espalhando placas de minério rubro na água.
O baixio inteiro pareceu acordar.
Raízes subiram da lama em volta das botas de Alice. Ela cortou uma, perdeu a corda e ouviu Lucas gritar. O braço do morto agarrara o pulso dele.
Bren separou a raiz principal com três golpes. Lucas arrancou o anel do dedo antes de cortar a mão que o prendia. Alice viu o gesto, viu o metal guardado no bolso, e outra vez não soube se ele salvara prova ou alimentara uma fome.
— Fogo! — Bren lançou o frasco com a raiz para fora do baixio.
Alice derrubou a primeira tocha. A linha de óleo acendeu. Bren atingiu a segunda, depois a terceira. O fogo fechou-se ao redor do cavalo e da carroça. A caixa de ferro vibrou até Lucas fechar o frasco da amostra dentro dela.
O cheiro de pelo queimado tomou os salgueiros. O cavalo caiu por último. O braço continuou puxando as rédeas até os dedos virarem carvão.
Trabalharam até o sol ficar alto, queimando lama contaminada em pequenas covas. Bren não fazia sermão. Media sal, virava os restos, abria fígados. Alice aprendeu a procurar cinza na borda e pontos vermelhos junto à bile. Lucas registrou o anel de Mereth, a marca da carroça e a raiz cortada.
Quando terminaram, o baixio cheirava a óleo, cinza e água fervida.
— Agora a trilha termina aqui — disse Bren.
Alice limpou a faca.
— E você?
— Também pretendia seguir para Salgária. A diferença é que agora sei que o veio corre para o norte. Alguém precisa rastrear os animais antes que entrem nas salinas.
— Pode fazer isso sem nós.
— Posso. Vocês também podem entrar no próximo foco sem saber distinguir sal puro de sal morto.
Lucas guardou o anel numa bolsa separada.
— Venha até Salgária. Depois decidimos.
Alice lançou-lhe um olhar.
— Nós decidimos.
— Foi o que eu quis dizer.
Bren lavou a faca com água de um cantil, não do baixio.
— Eu venho porque o problema vem. Não sou homem de Bella, soldado de Ardel nem amigo de viagem. Se mudarem de direção e a Ferrugem não mudar, sigo sem vocês.
Era o melhor tipo de acordo que Alice conhecia: cada parte admitia onde terminava.
Acamparam numa elevação de pedra. Bren cozinhou o que restava de um coelho limpo com alho e alecrim. Lucas refez as cópias das anotações enquanto Alice costurava a perna dele pela segunda vez em dois dias.
— Você caiu sobre os documentos — disse ela.
— O javali me derrubou.
— Seu corpo escolheu a pasta.
Lucas segurou a borda da manta quando a agulha entrou.
— Ela contém a única chance de provar por que aquele cavalo estava amarrado a um morto de Mereth.
— Seu peito contém o coração que precisa levá-la a Calderis.
— Por isso rolei antes de ser pisado.
— Depois.
Bren provou o caldo e acrescentou sal.
— Se querem continuar casados com a briga, cobro metade da sopa como dote.
— Não somos casados — disseram os dois.
Bren serviu a própria tigela.
— Pior. Casado ao menos aprende quando fingir surdez.
Alice fechou o ponto com força suficiente para Lucas praguejar. Deu-lhe o restante da linha para cortar.
Depois de comer, Bren abriu a bota esquerda e mostrou o pé. Faltavam dois dedos.
— Um morto chamou com a voz da minha irmã — disse. — Eu sabia que era morto. Fui mesmo assim. Perdi os dedos e um homem que tentou me puxar para trás.
— Sua irmã morreu como? — perguntou Lucas.
— Poço contaminado. Padre recusou descer. Sybelle estava perto e sabia o que havia na água.
Alice deixou a colher na tigela.
— Ela ajudou?
— Ajudou a selar o poço depois. Antes, ficou observando quem adoecia.
O fogo estalou entre eles. Alice quis chamar Bren de mentiroso. A vontade tinha o formato exato de Sybelle fechando uma porta.
— Quando foi?
— Antes de você nascer. Eu recebia moeda da Igreja para caçar os que saíam dos poços. Sybelle recebia mais para fazer perguntas aos vivos.
— E ficou calado.
Bren passou gordura no couro rachado da bota.
— Fiquei. Sua mãe tinha nomes de homens que desapareceriam comigo. Depois fugiu. Eu disse a mim mesmo que o silêncio protegia quem restava.
— Quem pagou por ele?
— Minha irmã primeiro. O homem no túmulo depois. Gente cujo nome não aprendi, por covardia ou economia.
Alice pensou no rosto incompleto de Wat, na estrada perdida, na raposa que talvez sangrasse até morrer no mato. Gostou de Bren um pouco por ele não pedir absolvição. Ressentiu-se do gosto.
— Não me chame de filha de Sybelle como se isso explicasse minhas mãos.
— Então me dê outra explicação quando elas fizerem o mesmo que as dela.
Lucas parou de escrever.
Alice apertou a tigela quente até a palma doer.
— Você vem até Salgária porque a Ferrugem vai até lá. Eu aceito suas regras quando forem úteis. Você não manda no que faço com meu corpo e não usa minha mãe para encerrar conversa.
Bren considerou enquanto passava o cordão da bota.
— E vocês não escondem amostra, mordida nem voz. Quando eu disser que um corpo precisa queimar, discutem antes ou queimam depois de alguém perder carne.
— Discutimos enquanto acendemos — disse Alice.
— É o máximo de paz que espero de uma Venn.
Ela atirou um caroço de azeitona nele. Bren desviou sem olhar.
Lucas sorriu para o papel. Alice sentiu vontade de arrancar a folha e, pior, de saber o que ele escrevera.
Antes de dormir, Bren espalhou sal ao redor das mantas e deixou a abertura voltada para o leste.
— Por que aberta? — perguntou Lucas.
— Para a gente sair se o resto falhar.
Alice deitou com a faca sob o casaco. A amostra ficou dentro de três círculos de sal, fria pela primeira vez desde o Vale. Ao norte, um animal gritou uma vez e calou.
Quando amanheceu, encontraram pegadas de três patas perto do limite do acampamento. A raposa não atravessara o sal. Deixara no chão uma faixa de sangue limpo.
Bren examinou-a e cobriu a marca com terra.
— Sua responsabilidade passou por aqui.
— E continuou viva.
Ele entregou a Alice um saco de sal puro.
— Então carregue a parte que custa.
Seguiram para Salgária em três montarias e uma desconfiança repartida. Bren tomou a dianteira porque sabia onde a água estava limpa. Lucas vinha atrás, a pasta presa às costas. Alice cavalgou entre os dois, com sal novo no cinto e o nome perdido da estrada guardado numa tira de papel que ainda não sabia transformar em caminho.
Fim do Capítulo 9