Capítulo 08
Vale dos Cinco Fogos
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Capítulo 08
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O primeiro fogo ainda ardia.
Quatro pilares de pedra cercavam uma pira apagada na entrada do vale. O quinto tinha caído sobre corpos cobertos por cal. Chama azul escapava de uma fenda na base, pequena e firme apesar da chuva da véspera.
Alice se agachou sem atravessar o círculo de pedras. O ar tinha gosto de moeda velha. Entre os cadáveres, raízes grossas entravam por fivelas, bocas e buracos de lança.
— Guerra recente? — perguntou.
Lucas consultou uma folha da pasta.
— O confronto terminou há sete meses. Thorne segurava o vale. Mereth queria passagem para carroças de minério.
— Quem venceu?
— Mereth passou três carroças.
— Não perguntei quantas passaram.
Lucas dobrou a folha.
— Ninguém ficou com o vale.
Cinco estradas encontravam-se ali. Duas estavam fechadas por barricadas apodrecidas. Uma subia para as terras de Ardel. Outra levava a Calderis. A última voltava ao sudeste, até Pedra-Fria e o brejo além dela.
Alice sabia o nome de cada uma porque Lucas repetira durante a viagem. Estrada do Sal, Caminho de Torno, Passagem Ardel, Via Real e Estrada da Garça. A última recebera o apelido de mercadores que viam aves brancas nos pântanos.
— Amostra de solo e raiz — disse Lucas. — Entramos pelo lado norte, recolhemos e saímos.
— Você descreve enterro como ida ao mercado.
— Ajuda a começar.
Alice tirou o casaco e virou-o do avesso. O forro cinza chamaria menos atenção que a lã clara de lama seca. Prendeu o cabelo, encheu dois saquinhos com sal puro e amarrou-os nos pulsos.
— Deixe o cavalo aqui.
— Se precisarmos correr?
— Ele quebra a perna na primeira armadura. Nós quebramos depois.
Lucas levou o animal para trás de um muro caído e cobriu os alforjes com lona. Alice separou frascos, pinça, colher de ferro e o óleo verde de Sybelle.
— Sem fogo até eu mandar.
— Há um fogo ali.
— E olhe o serviço que fez.
Ela estudou o campo. Bandeiras rasgadas de Thorne pendiam em lanças. Faixas de Mereth apodreciam sob lama. Os mortos não estavam espalhados como gente caída em combate; formavam montes ligados por raízes e metal. Um elmo surgia de um peito. Duas mãos de corpos diferentes compartilhavam a mesma espada.
Alice viu uma raiz se contrair.
— Um visível é mentira — disse.
— Quantos?
— O campo inteiro.
Avançaram por uma vala de drenagem.
A lama chegava à canela e escondia pedaços de osso. Alice testava o chão com uma lança curta encontrada perto da entrada. Lucas vinha atrás, segurando os frascos dentro da camisa para impedir que batessem.
No centro do vale, três carroças queimadas permaneciam unidas pelos eixos. Minério vermelho derramara de uma delas e entrara no solo. Alice raspou uma pedra. Sob a crosta escura, veios vermelhos brilhavam.
— Isso veio das minas? — perguntou.
Lucas examinou a marca lateral da carroça: um círculo cortado por três linhas.
— Mereth. Usavam o selo nas cargas do norte.
— Prova de origem?
— Prova de transporte. Origem precisa de livro de carga.
— Mortos, minério e carroça não bastam para seus homens de cadeira.
— Bastam para acusar. Não para vencer.
Alice colocou uma lasca no frasco. O vidro aqueceu em sua mão. Ela o envolveu em sal e fechou.
Um rosto abriu os olhos debaixo da carroça.
— Água — pediu.
Alice ergueu a lança. O rosto pertencia a um soldado fundido pelo ombro à roda. A pele parecia preservada, mas uma raiz atravessava sua língua.
— Água — repetiu.
Lucas deu um passo.
— Está vivo?
— Veja o pescoço.
Não havia pulso. Havia apenas minério vermelho sob a pele.
— Água — disse o morto. — Mereth pagou. Água.
Lucas tirou carvão e papel.
— Repita.
A cabeça virou com um rangido de eixo.
— Ardel abriu.
Lucas ficou imóvel.
Alice olhou para ele.
— Escreva.
— Pode estar repetindo rumor.
— Você queria testemunho.
Ele escreveu. A ponta do carvão quebrou.
— Ardel abriu — repetiu o morto. — Thorne vendeu. Padre contou.
Uma mão saiu da lama e agarrou a bota de Lucas.
Alice cravou a lança no pulso. A mão não soltou. Outra apareceu, presa a um braço coberto por cota de malha. Lucas cortou os dedos e recuou.
O campo respirou.
Raízes esticaram-se sob a lama. Armaduras se ergueram em blocos, arrastando corpos ligados pelo quadril e pelas costelas. A carroça inclinou. O soldado fundido à roda continuou pedindo água enquanto quatro pernas o puxavam.
— Saída norte — disse Lucas.
— Fechou.
Dois montes levantavam-se na vala. Um trazia três torsos unidos pelas costas. Outro tinha uma lança presa no lugar do braço e escudos formando uma carapaça.
Alice jogou sal. Os cristais chiaram sobre carne exposta, mas as criaturas continuaram.
— Sal não mata Enlaçado.
— Informação útil antes seria cortesia.
— Você perguntou sobre Rastejante.
Lucas guardou o papel e desembainhou.
— Sul?
Alice viu a Estrada da Garça além da pira. O caminho para casa estava livre por enquanto.
— Pelas carroças.
O primeiro Enlaçado atingiu a roda com a lança.
Madeira explodiu perto do rosto de Alice. Ela rolou por baixo do eixo, sentiu raízes roçarem suas botas e saiu do outro lado. Lucas aparou o segundo golpe. A força o lançou contra um cadáver.
Alice cortou a raiz que prendia o joelho da criatura. A faca entrou pouco. Madeira e tendão tinham crescido juntos.
— Óleo — gritou.
Lucas lançou o frasco. Alice quebrou-o na armadura. Líquido verde correu pelas fendas.
— Fogo agora.
Ele acendeu a mecha na chama azul da pira e arremessou. O óleo pegou de uma vez. O Enlaçado continuou avançando, carregando o fogo entre três corpos.
Alice correu para Lucas. Uma raiz enrolou seu tornozelo e puxou. Ela caiu de rosto na lama. A faca escapou.
Lucas agarrou sua mão. O Enlaçado em chamas aproximava-se, repetindo vozes diferentes: água, soldo, mãe, abram.
— Corte a raiz — disse Alice.
— Estou tentando.
A espada bateu em madeira mineralizada.
Alice puxou o saquinho do pulso, rasgou com os dentes e apertou sal contra a pele ao redor da raiz. A coisa recuou o suficiente para ela soltar a bota. O couro ficou preso. Alice saiu apenas de meia.
— Corra.
O chão diante das carroças rompeu. Um bloco de soldados, cavalos e lanças ergueu-se como ilha arrancada do fundo. Rostos cobriam o flanco. Um cavalo sem olhos abriu a boca, e uma mão humana saiu entre seus dentes.
A passagem sul desapareceu.
— A pira — disse Alice.
— Estamos cercados.
— Debaixo.
Ela apontou para o espaço estreito entre o pilar caído e o solo. Um homem não passaria. Uma víbora, sim.
— Você vai aonde? — perguntou Lucas.
— Buscar saída.
— E eu?
— Tente não virar parte da paisagem.
Alice mordeu o interior da bochecha. Sangue encheu sua boca. Precisava escolher uma memória completa. As pequenas vinham partidas após anos de uso; cheiro sem rosto, voz sem nome, gesto sem lugar.
A Estrada da Garça apareceu inteira: Sybelle ensinando cada curva, o salgueiro rachado, a pedra branca que marcava água funda, o nome repetido até Alice conseguir voltar mesmo na neblina. Era o caminho de casa. Servia porque ainda estava intacto.
Ela hesitou.
O Enlaçado em chamas golpeou Lucas. Ele bloqueou com a espada e caiu de joelhos.
Alice ofereceu a estrada.
A memória subiu como gosto de água de brejo. A pele formigou. Costelas fecharam, braços sumiram, língua bifurcou-se. O mundo perdeu altura e ganhou calor. O nome Alice escorregou para longe.
A víbora entrou sob o pilar.
Do outro lado havia um canal antigo coberto por pedras. Calor vermelho pulsava dentro das raízes. A víbora seguiu por onde a terra era fria. Encontrou uma abertura estreita que saía atrás da pira e outra que conduzia ao centro do campo.
Uma raiz viva bloqueava o retorno. Alice mordeu. O veneno entrou em tecido morto e fez a fibra se contrair. A passagem abriu.
Ela voltou até Lucas pelo cheiro do sangue dele.
O homem estava junto ao pilar, golpeando mãos que saíam do solo. A víbora mordeu a barra de sua calça e puxou.
— Alice?
O som não significava nada. Ela mordeu de novo, sem veneno.
Lucas entendeu. Deitou de lado e enfiou o braço sob a pedra. O espaço não bastava para os ombros.
A víbora encontrou a fivela da couraça, mordeu a tira e puxou. Lucas largou espada, casaco e proteção de couro. Cavou com as mãos, arrancando pedras. Atrás dele, lanças batiam no pilar.
Ele passou raspando peito e costas. Uma ponta entrou em sua panturrilha antes que recolhesse a perna.
Alice deslizou pelo canal. Lucas veio rastejando, empurrando a pasta de documentos à frente. Mesmo sem nome humano, a víbora reconheceu o cheiro da caixa de ferro e dos papéis. Coisas que precisavam sair.
Alcançaram a abertura. Lucas rolou para fora. Alice tentou voltar e o corpo não obedeceu. O calor do campo chamava. Havia ratos sob as pedras, sangue entre raízes e nenhum motivo para vestir pele pesada.
Lucas pegou a víbora atrás da cabeça.
Ela se enrolou no braço dele e abriu as presas.
— Alice Venn — disse ele. — Brejo. Sybelle. Colm roubou seu pão.
Os sons tocaram lugares vazios. Colm trouxe cheiro de lã e medo. Sybelle trouxe faca e espinho. Alice continuava distante.
Lucas abriu a caixa de ferro. A lasca de ferrugem aqueceu o ar.
A víbora atacou. As presas bateram no metal da tampa.
— Isso você odeia — disse ele.
O gosto de cobre puxou Alice de volta. Ela caiu humana sobre as pedras, nua, tremendo e com lama dentro da boca.
Lucas fechou a caixa e desviou os olhos enquanto tirava a camisa.
— Vista.
— Minha bota.
— Ficou.
— Era a menos rachada.
Ele soltou uma risada curta, quase sem ar. Alice vestiu a camisa e amarrou a barra entre as pernas. A panturrilha dele sangrava.
— Sente.
— Eles vêm.
— Mancando, você também.
Ela partiu a haste da lança, retirou a ponta e encheu o corte com sal. Lucas praguejou e apertou a pedra até os nós dos dedos clarearem. Alice envolveu a perna com uma tira do casaco abandonado.
O Enlaçado em chamas apareceu sobre a pira.
Eles correram.
O cavalo sobrevivera porque arrebentara a rédea.
Encontraram-no meia légua ao norte, pastando junto a um marco derrubado. Alice vinha com um pé descalço e o braço de Lucas sobre os ombros. Os Enlaçados não passaram dos pilares, mas continuaram se movendo dentro do vale. À distância, pareciam árvores queimadas balançando sem vento.
Lucas sentou no chão. Alice examinou o corte outra vez. Nenhum veio vermelho. A carne estava suja e precisaria de nova lavagem.
— A amostra? — perguntou ela.
Ele abriu a pasta. O papel com as frases do morto estava amassado e úmido, legível. Dois frascos tinham quebrado. O terceiro guardava minério e lama.
— Para Calderis — disse.
— E para as minas.
— Primeiro preciso descobrir se Ardel abriu aquilo.
Alice lavou as mãos. Tentou lembrar o caminho do vale ao brejo. Sabia que havia uma estrada ao sudeste, sabia onde terminava, mas o nome não vinha. Procurou o salgueiro rachado, a pedra branca, as curvas na neblina. Tudo tinha sumido junto.
— O que perdeu? — perguntou Lucas.
Ela continuou enrolando a bandagem.
— Uma estrada.
— Qual?
Alice apontou para o sudeste.
— A de casa.
Lucas não disse que poderiam desenhar outra, nem ofereceu guardar a memória por ela. Apenas retirou o mapa e marcou a estrada com carvão.
— Posso ler isso quando precisar — disse Alice.
— Pode.
— E se o mapa molhar?
— Faço cópia.
— E se você morrer?
Lucas rasgou uma faixa da borda e entregou a ela. Nela escreveu o nome da estrada e três indicações: sulgueiro rachado, pedra branca, canal fundo.
Alice leu as palavras. Entendeu cada uma separada. Juntas, não abriram caminho algum.
Dobrou o papel e guardou dentro da caixa de ferro.
— Seguimos ao norte — disse Lucas. — Depois que eu conseguir pisar.
Alice apertou o último nó da bandagem.
— Você pisa agora. Mais devagar.
— Poderíamos voltar.
Ela olhou para a estrada sudeste. Voltar exigia confiar num mapa, em Lucas e em sinais que já não moravam no corpo. Seguir exigia atravessar campos onde os mortos cresciam em raízes.
Alice recuperou a bota reserva do alforje. Era a pior, com sola fina e couro abrindo junto ao dedo. Calçou-a.
— As minas ficam ao norte.
Lucas levantou usando a sela.
— Sybelle mandou você.
— Sybelle manda até quando não está.
— Então por que continuar?
Alice prendeu a caixa de ferro às costas. Dentro havia a amostra do cadáver, o mapa rasgado e o nome de uma estrada que não lhe pertencia mais.
— Porque já paguei a entrada.
Montaram no mesmo cavalo até a perna de Lucas parar de sangrar. Depois seguiram a pé, um de cada lado da rédea. O Vale dos Cinco Fogos ficou para trás. Alice não reconhecia o caminho de volta, mas reconhecia o cheiro de cobre que vinha do norte.
Ao escurecer, encontraram uma casa de pedágio abandonada. Alice fez Lucas sentar sobre a mesa e ferveu a pinça. A ferida tinha voltado a sangrar. Ela removeu um fio de tecido, passou álcool e fechou com quatro pontos.
— Sybelle ensinou? — perguntou ele.
— Wat ensinou a não mexer.
— Quem é Wat?
Alice abriu a boca. Lembrava a mão ferida na canoa, o covo, a enguia e a tarde que pagara à garça. O rosto dele estava incompleto.
— Um homem do brejo.
Lucas não pediu mais.
Ela examinou os próprios pés. A sola fina abrira uma bolha sob o dedão. Furou a borda com agulha limpa e pressionou a água para fora. Lucas cortou duas tiras do forro da pasta.
— Não use papel — disse Alice.
— É linho.
— Protege documentos.
— Agora protege seu pé.
Ela aceitou. A tira tinha cheiro de cera e tinta.
Comeram aveia sem cebola. Alice colocou o frasco recolhido no centro da mesa. Veios vermelhos flutuavam na lama e se voltavam devagar na direção do sangue da perna de Lucas.
— Está vendo? — perguntou.
Ele afastou a tigela.
— Vê ferido vivo.
— Ou Ardel.
— Não comece.
— Você trouxe a possibilidade.
Lucas cobriu o frasco com o mapa. O movimento dos veios cessou.
— Amanhã testamos longe de mim.
Alice deitou perto da porta. Antes de apagar a vela, retirou da caixa a faixa onde Lucas escrevera o nome da estrada. Leu três vezes. As palavras continuaram estrangeiras.
Dobrou o papel, passou cera na borda para protegê-lo da água e guardou de novo. O ato não devolveu nada. Ainda assim, quando o vento veio do sul, Alice não se levantou para segui-lo.
Fim do Capítulo 8