Capítulo 07
O Menino na Estrada
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Capítulo 07
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Colm roubou o pão antes da primeira légua.
Alice percebeu quando pediu o embrulho a Lucas e o encontrou leve demais. O menino cavalgava à frente, curvado sobre o pescoço do cavalo e quieto desde Pedra-Fria.
— Bolso esquerdo — disse ela.
Colm apertou o cotovelo contra o corpo.
— Não tenho.
— Então a protuberância é um tumor de farinha.
Lucas olhou para Alice, depois para o menino.
— Deixe.
— Deixar ensina que fez direito.
Ela alcançou a rédea e parou o cavalo. Colm tentou deslizar para o outro lado; Alice agarrou a barra do casaco e o puxou até o pão cair. Estava embrulhado numa tira arrancada da própria camisa.
— Se tiver fome, pede.
— Nessa dizia que pedir avisa quem tem menos.
— Nessa ficou no depósito.
Colm encarou o chão.
Alice cortou o pão em três partes. Deu a menor a Lucas, uma ao menino e guardou a terceira.
— Comida se divide antes de andar. Se espera a fome, todo mundo mente sobre a porção.
— Você ficou com a maior — disse Colm.
— Eu carrego o sal.
— Lucas carrega os papéis.
— Papel não pesa.
Lucas abriu a pasta e entregou duas folhas dobradas ao menino.
— Segure.
Colm recebeu com cautela. O braço desceu.
— Pesam.
Alice mordeu o pão.
— Falsificação nobre.
Voltaram a andar. A chuva da noite enchia as valetas e transformava a estrada num couro escuro. Colm comeu rápido, depois lambeu as migalhas da palma.
Ao meio-dia, pediu água.
Alice apontou para um riacho.
— Pode beber?
Colm desceu e se ajoelhou.
— Não.
— Por quê?
— Você perguntou.
— Bom começo. Veja a margem.
O menino procurou. Havia pegadas de veado, fezes de raposa e uma película brilhante presa entre pedras.
— Parece óleo.
Alice enfiou um graveto. A película se quebrou em placas avermelhadas.
— Ferrugem ou barro mineral. Sem saber, ferve. Se tiver cobre no gosto, joga fora.
Lucas retirou a panela.
— Podemos usar o odre.
— O odre chega ao posto se não desperdiçarmos.
— Ele está com sede.
— E vai ficar vivo para reclamar.
Alice levou Colm cinquenta passos acima, onde água brotava debaixo de uma raiz sem tocar a estrada. Fizeram fogo pequeno, ferveram uma caneca e esperaram esfriar. Colm observou o vapor com impaciência.
— Na vila, bebíamos do poço da igreja — disse.
Alice cheirou a água.
— O sal vinha de lá também?
— Padre Emmon abençoava.
— Bênção não tira cobre.
— Ele queimou quando os mortos vieram.
Lucas mexeu a panela com uma colher.
— O padre?
— A igreja. Ele fechou por dentro.
Alice não perguntou se Emmon saíra. O menino já carregava vozes suficientes.
Depois de beber, Colm tentou montar sozinho. O pé escorregou do estribo e ele caiu de costas. Ficou imóvel, o ar expulso dos pulmões.
Lucas correu. Alice ergueu a mão.
— Espere.
Colm puxou ar com um ruído fino.
— Mexa os dedos dos pés — disse ela.
Ele mexeu.
— Mãos.
Mexeu também.
Alice apalpou costelas, coluna e nuca. Nenhuma dor aguda.
— Levante.
— Ele acabou de cair — disse Lucas.
— E o cavalo ainda está aqui.
Colm levantou com lágrimas nos olhos e raiva na boca. Alice mostrou como segurar a crina, apoiar o pé e usar impulso da outra perna. Na segunda tentativa, ele montou.
— De novo amanhã — disse ela.
— Eu odeio você.
— Guarde energia para odiar sentado.
Lucas escondeu um sorriso ao ajustar a mochila.
Na primeira noite, Colm não dormiu.
Alice o ouviu mudar de lado até a manta reunir metade das folhas do acampamento. Lucas fazia a primeira vigília junto ao fogo. Ela tentou ignorar, mas o menino começou a bater os dentes.
— Está com febre? — perguntou.
— Não.
Alice encostou os dedos no pescoço dele. A pele estava fria.
— Então pare de tremer. Atrapalha o sono.
— Minha mãe dizia isso.
Ela retirou a mão.
Lucas colocou outro galho no fogo.
— Quer contar sobre ela?
— Não.
— Então não conte.
Colm sentou.
— Nessa mentiu. Meu pai não fechou a rua. Fechou nossa porta para os mortos não entrarem.
Alice puxou a capa sobre os ombros.
— Pode ser.
— Você viu ele?
— Vi um homem.
— Tinha barba vermelha?
O Rastejante estava queimado e coberto de veios. Alice lembrava a aliança, a perna quebrada e a frase.
— Tinha aliança de estanho.
Colm abriu o punho. O botão do casaco da mãe estava ali.
— Minha mãe fez uma.
Lucas olhou para Alice. Ela odiou que ele esperasse uma resposta que não existia.
— O homem dizia que fechou a porta — falou. — Não disse por quê.
Colm deitou de novo. Os dentes pararam.
Alice tomou o lugar de Lucas na vigília. Ele entregou a ela a caneca com água morna.
— Poderia ter mentido.
— Poderia.
— Por que não?
Ela soprou uma folha que boiava na caneca.
— Mentira boa precisa servir por mais de uma noite.
Lucas enrolou-se na manta.
Pouco depois, Colm começou a gritar. Chamava pela mãe e chutava a terra. Alice tampou sua boca antes que o som alcançasse a mata. Ele acordou mordendo a palma dela.
— Se gritar na estrada, alguém vem — disse Alice.
— Pode ser gente.
— Gente também vem.
Ela o levou até uma árvore a vinte passos do fogo.
— Escolha três lugares.
— Para quê?
— Esconder comida.
— Você disse que era para pedir.
— Peça quando houver alguém. Esconda quando não souber se haverá.
Colm escolheu um buraco no tronco, uma pedra solta e raízes cobertas por musgo. Alice corrigiu os dois primeiros: animais sentiriam cheiro; chuva encontraria o segundo. Enterraram uma tira de carne seca dentro de um pano encerado sob a raiz.
— Como volto?
— Marque sem parecer marca.
Ele quebrou três galhos e os alinhou.
— Até Lucas vê.
Colm espalhou os galhos e virou uma pedra de lado claro.
— Melhor.
— Quando vamos buscar?
— Não vamos.
— Desperdício.
— Reserva. Se alguém precisar, encontra.
O menino olhou para a raiz como se a carne fosse parte da mãe que ainda podia esconder.
Ao voltarem, Lucas fingia dormir. Alice soube pelo ritmo excessivamente regular da respiração. Não o denunciou.
Na manhã seguinte, encontraram uma carroça abandonada.
Uma roda tinha saído do eixo. O burro continuava preso, vivo e rouco de sede. Duas malas estavam abertas na estrada; roupas, colheres e um brinquedo de madeira cobriam a lama. Não havia corpos.
Lucas foi soltar o animal. Alice segurou seu ombro.
— Olhe primeiro.
Ela mostrou o fio quase invisível esticado entre o mato e a carroça. Seguia até um feixe de sinos cobertos por pano.
— Alarme — disse Colm.
— Ou convite para flecha.
Alice contornou a estrada por dentro das árvores. Encontrou pegadas de cinco pessoas, todas calçadas, e um lugar onde alguém esperara ajoelhado. As marcas saíam para oeste. Nenhum sangue.
— Foram embora — disse Lucas quando ela voltou.
— Há pouco. Podem estar vendo.
Colm olhou as malas.
— Tem comida.
— Tem isca.
— E o burro?
O animal puxou a corda e mostrou as gengivas secas.
Alice entregou sua faca a Colm.
— Corte a correia sem atravessar o fio.
— Por que eu?
— É menor.
Lucas abriu a boca.
— E você fica aqui — continuou Alice. — Se ele errar, segura o burro antes que arraste o sino.
Colm se deitou e rastejou sob o eixo. A faca tremia na mão. Alice indicou onde apoiar o polegar. Ele serrou a tira, parou quando o burro se moveu e recomeçou. A correia rompeu. Lucas agarrou o cabresto.
Uma flecha saiu das árvores.
Alice a ouviu cortar folhas. Empurrou Colm atrás da roda. A seta entrou no saco de aveia preso à sela.
— Corram! — gritou Lucas.
Ele puxou o burro. Alice tomou Colm pelo colarinho e os três desceram a vala. Outra flecha bateu na carroça. Nenhuma perseguição veio.
Andaram agachados pelo leito seco de um córrego até a estrada desaparecer. O burro resistia, faminto pelo capim. Lucas arrancou a flecha do saco e examinou a ponta.
— Sem ferrugem.
— Ladrão comum — disse Alice. — Quase reconfortante.
Colm devolveu a faca.
— Deixamos a comida.
— Deixamos gente esperando que voltássemos.
— Mas o burro veio.
Alice olhou o animal. Custaria água e reduziria o passo, mas podia levar Colm quando os pés abrissem outra vez.
— Ele trabalha em troca.
Colm deu ao burro um nome, Sal, apesar de a pelagem ser marrom. Alice mandou que ele encontrasse água segura para o animal. O menino procurou corrente, ausência de película e pegadas de bicho vivo. Escolheu uma poça ruim. Na segunda tentativa, encontrou nascente entre pedras.
Enquanto Colm enchia o chapéu para Sal, Lucas costurou o rasgo do saco de aveia.
— Você o fez cortar a correia sob flecha — disse.
— A flecha veio depois.
— Poderia ter vindo antes.
— Poderia. E eu estaria entre ele e as árvores.
Lucas puxou o fio com os dentes.
— Tinha pensado nisso?
— Penso em saída antes de entrar.
Ele olhou a vala por onde tinham escapado, depois para o fio encerado que Alice lhe dera.
— Vou tentar.
Alice tomou o saco remendado. Os pontos eram feios, mas não deixavam aveia cair.
— Tente com costura primeiro.
O posto de cobrança ocupava uma ponte de pedra sobre o rio Torno.
Duas lanças cruzadas bloqueavam a passagem. Um barracão, um estábulo e uma capela pequena formavam o resto. Havia três carroças esperando: lã, panelas de cobre e barris de peixe salgado. Homens armados usavam faixas amarelas no braço.
O cobrador chamava-se Hedd. Tinha dois dedos na mão esquerda e todos os dentes da frente revestidos de prata barata.
— Pedra-Fria fechou — disse ao ver a fuligem nas roupas deles.
— Queimou — respondeu Lucas. — Há sobreviventes.
Hedd coçou o pescoço.
— Então não fechou direito.
Lucas mostrou a autorização. Hedd leu devagar, movendo os lábios.
— Ardel.
— Lucas Ardel.
— Seu pedágio é o dobro.
— Minha Casa não controla esta ponte.
— Por isso consegue pagar.
Alice observou as faixas amarelas. Duas estavam limpas; as outras tinham sangue seco. A carroça de lã levava quatro crianças escondidas sob a lona. Uma delas espiava por um rasgo.
— Para onde vão? — perguntou à mulher que conduzia os bois.
— Mosteiro de Salgária. Depois Kess, se aceitarem carga.
— Aceitam menino?
A mulher olhou Colm como avaliava um saco.
— Come quanto?
— Menos que seu boi.
— Trabalha?
Colm respondeu antes de Alice:
— Sei separar sal bom.
— Sabe agora — corrigiu Alice.
A mulher se chamava Tessa Mor. Tinha braços fortes, um dente quebrado e uma filha da idade de Colm. Aceitaria levá-lo até Salgária por seis moedas, comida e uma carta garantindo que não estava contaminado.
— Não posso garantir — disse Alice.
Tessa apertou os olhos.
— Então não levo.
Lucas pediu um quarto nos fundos do barracão. Alice examinou Colm de novo: corte no joelho limpo, temperatura normal, unhas claras, sem sonhos alheios que admitisse. Faltava tempo para ter certeza.
— Escreva que não apresenta sinais — disse a Lucas. — Hoje.
— Ela quer garantia.
— Ela recebe verdade menor.
Lucas redigiu a carta. Alice ditou os termos e fez que ele lesse duas vezes. Tessa aceitou quando Lucas acrescentou seu selo pessoal e três moedas a mais.
— Você está comprando o menino — disse Alice.
— Estou pagando a viagem.
— Para ela, dá no mesmo.
— Tem opção melhor?
Alice olhou o posto. Hedd discutia com um carroceiro por causa de peixe podre. Dois guardas jogavam dados. A capela cheirava a incenso novo, sem cobre. Tessa alimentava todas as crianças antes de comer.
— Não — disse.
Era uma palavra desagradável e limpa.
Colm ouviu o acordo sem protestar. Guardou o pão, o botão e a carta numa bolsa que Tessa lhe deu.
— Vocês vão às minas? — perguntou.
— Vamos — disse Lucas.
— Voltam?
Alice verificou o nó da bolsa.
— Se o caminho permitir.
— Isso quer dizer não?
— Quer dizer que gente adulta não sabe e inventa frases.
Colm estendeu a mão. Alice pensou que ele quisesse despedida. Em vez disso, ele abriu a palma.
— Minha carne.
— Está debaixo da raiz.
— Era minha.
Alice entregou uma tira nova.
— Esta não tem terra.
O menino guardou. Depois abraçou Lucas pela cintura. Lucas ficou rígido, então pousou a mão nos cabelos dele.
Colm parou diante de Alice.
— Você não gosta de abraço.
— Finalmente aprendeu algo útil.
Ele encostou a testa no braço dela por um instante e subiu na carroça.
Tessa amarrou a lona, conferiu a carta e partiu com os outros veículos. Colm apareceu no rasgo entre os fardos. Não acenou. Alice também não.
Hedd cobrou o pedágio de qualquer modo.
Lucas pagou com duas moedas e a fivela de bronze de um alforje. Alice entregou um frasco de pomada em troca de aveia e insultou os dentes de prata do cobrador até ele acrescentar cebolas.
Acamparam uma légua depois da ponte. Pela primeira vez desde Pedra-Fria, havia apenas duas mantas.
Alice cozinhou aveia com cebola. Lucas remendou o alforje usando arame. O resultado ficou torto, mas firme.
— Você ensinou Colm a esconder comida — disse ele.
— Ensinei a encontrar o que precisa.
— Deixou carne para alguém que talvez nunca passe.
— Não estraga por uma semana.
Lucas apertou o arame com a pinça.
— Eu teria voltado para Pedra-Fria.
— Eu sei.
— Você estava certa em me impedir.
Alice mexeu a panela.
— Não torne isso hábito. Fica caro alimentar.
— Ainda acho que fiz certo ao tirá-lo da torre.
— Você abriu a porta e eu entrei. Os dois fizeram parte da estupidez.
— E ele vive.
— Hoje.
Lucas soltou o alforje e examinou a costura.
— Você nunca deixa uma coisa boa ficar sem ferida.
— Coisa boa com ferida infecciona se ninguém olhar.
Ele assentiu. Não sorriu, não tentou vencê-la.
Comeram em silêncio. A aveia estava queimada no fundo; Lucas raspou a crosta e dividiu. Alice passou a ele a cebola menos mole.
— Você escutou na carta — disse ela.
— Sobre os sinais?
— Escreveu o que eu mandei, não o que Tessa queria comprar.
— Você sabia mais sobre o corpo dele.
— E você sabia tornar a verdade aceitável para uma carroceira.
Lucas colocou a tigela no chão.
— Isso foi elogio?
— Guarde. Não terá outro no mesmo mês.
Ele encostou as costas na árvore. Alice tomou a primeira vigília. A estrada seguia para o Vale dos Cinco Fogos, vazia sob a lua. Sem Colm, os ruídos da mata voltaram a caber no lugar. Ainda assim, ela olhou duas vezes para a manta ausente antes de dormir.
Fim do Capítulo 7