Capítulo 06
Pedra-Fria
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Capítulo 06
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Pedra-Fria apareceu pelo cheiro.
Alice esperava sal, esterco, cebola frita e a fumaça comum de casas onde gente acordava cedo. Recebeu madeira queimada, cobre e incenso molhado. Parou no alto da estrada. Abaixo, telhados negros cercavam um poço de pedra. Uma torre pequena perdera o sino; a corda pendia da janela e balançava sem vento.
Lucas puxou as rédeas.
— O mapa diz cento e quarenta moradores.
— O mapa pode descer e contar.
Nenhum cão latiu. Galinhas ciscavam perto de um celeiro aberto, gordas demais para terem passado fome. Alice desmontou e tocou o chão. Cinza recente grudou nos dedos. Havia marcas de roda seguindo para o norte e pegadas descalças voltando para a vila.
— Gente saiu — disse Lucas.
— Alguma voltou.
Ela apontou as pegadas. O calcanhar esquerdo arrastava em todas. A última marca terminava atrás de uma carroça tombada.
Lucas desembainhou a espada.
— Fique atrás de mim.
Alice abriu um dos sacos de sal.
— Você ocupa espaço demais na frente.
Amarrou um punhado em pano fino, colocou outro no bolso e entregou o restante a Lucas.
— Cabeça primeiro. Sal em olho, boca e corte. Depois fogo.
— Você falou isso no brejo.
— E você continua com a cabeça presa. Ouviu bem.
Desceram a rua principal. À esquerda, uma casa tinha queimado por dentro; pratos intactos permaneciam sobre uma mesa carbonizada. À direita, sacos de sal estavam rasgados e misturados à lama. Alice se agachou, provou um cristal com a ponta da língua e cuspiu.
— Cobre.
— Sal contaminado?
— Inútil. Talvez pior.
Um ruído veio da carroça: unha raspando madeira.
O homem saiu de quatro. A perna direita dobrava para fora no joelho, mas ele avançava usando braços e dentes. Veios vermelhos rachavam a pele do rosto. A boca repetia uma frase entre os estalos.
— Fechei a porta. Fechei a porta.
Lucas ergueu a espada.
Alice jogou o saquinho. Sal explodiu nos olhos do morto. Ele gritou com a voz de um homem que ainda sentia. Lucas hesitou.
— Agora.
A lâmina entrou no pescoço e parou na coluna. O Rastejante agarrou a bota dele.
Alice pisou no pulso, puxou a faca de Lucas da bainha menor e cortou os tendões. A mão abriu. Lucas soltou a espada, mudou o ângulo e terminou o golpe. A cabeça rolou para baixo da carroça, ainda dizendo fechei.
— Sal — disse Alice.
Lucas espalhou nos cortes. Os veios estalaram.
— O que ele fechou?
— Uma porta.
— Com alguém do outro lado.
— Pergunte quando ele estiver mais disposto.
Alice limpou a faca na camisa do morto. Uma aliança de estanho prendia o dedo inchado. Ela não a tirou.
Da torre sem sino veio um grito de criança.
— Aqui!
Lucas correu antes que Alice pudesse agarrá-lo.
A porta da torre estava pregada por fora.
Lucas enfiou a espada entre as tábuas e usou o peso. O primeiro prego soltou. De dentro, alguém bateu três vezes, parou e bateu mais duas.
— Quantos vivos? — gritou Alice.
— Um!
— Quantos mortos?
O menino demorou.
— Minha mãe.
Alice sentiu o nome ausente de Mara mexer sob as costelas. Enfiou a faca sob o segundo prego.
— Ela se move?
— Às vezes.
— Fala?
— Diz meu nome.
Lucas puxou a tábua.
— Depressa.
— Se abrirmos e ela estiver junto da porta, morde o primeiro rosto — disse Alice.
— O menino está preso.
— Por isso ainda está vivo.
Lucas olhou a janela. A corda do sino descia por fora.
— Subo.
— A janela tem dois palmos.
— Ele passa.
Lucas prendeu a espada, agarrou a corda e testou o peso. Alice puxou a outra ponta para firmá-la.
— Você entra, eu abro — disse ele ao menino. — Quando vir minha mão, segure.
— Ela chama Colm — respondeu a voz. — Meu nome é Colm.
— Então venha, Colm.
Lucas subiu usando as pedras salientes. Metade da parede estava escurecida pelo fogo. Alice vigiou a porta e a rua. O morto junto à carroça parara de falar, mas unhas começaram a bater dentro da casa à direita.
Lucas alcançou a janela e enfiou o braço.
— Agora.
Um rosto magro apareceu entre as pedras. Cabelo louro grudado à testa, fuligem no nariz, olhos grandes demais. Lucas puxou pelo casaco. Colm ficou preso na altura dos ombros.
— Tire o casaco — disse Alice.
— Está amarrado!
A porta tremeu. Uma mulher falou atrás dela.
— Colm. Abra para sua mãe.
O menino parou de se debater.
— Mãe?
— Não responda — gritou Alice.
— Colm, está frio.
Lucas soltou uma das mãos da corda para rasgar o casaco. O prego superior cedeu sozinho. A tábua inclinou para fora.
Alice empurrou-a de volta com o ombro. Algo bateu do outro lado. Dentes apareceram na fresta, depois um olho vermelho.
— Lucas!
— Quase.
A mulher repetia o nome. A voz alternava carinho e fome sem mudar de tom. Alice enfiou o saquinho de sal pela abertura e esmagou-o com o cabo da faca. O Rastejante recuou guinchando. A tábua caiu.
Alice entrou.
A antiga capela media quatro passos de largura. Bancos quebrados bloqueavam o centro. A mulher usava vestido azul queimado na barra. Um ferimento aberto atravessava seu ventre. Ela veio por cima dos bancos, chamando Colm.
Alice chutou o primeiro banco. Madeira e corpo caíram juntos. A mulher agarrou sua capa. Unhas rasgaram lã.
Alice cortou a mão, recuou e lançou sal na boca aberta. O Rastejante mordeu os cristais. Veios vermelhos acenderam nas gengivas.
— Colm — disse com sangue escorrendo pelo queixo.
Alice ergueu a faca, mas o banco prendia o pescoço num ângulo ruim. A espada de Lucas entrou pela porta e separou a cabeça.
Ele estava sem o casaco. Colm se agarrava às costas dele, enrolado na camisa larga.
— Eu disse para tirar o menino — falou Alice.
— Tirei.
— Pela janela.
— Funcionou.
Ela apontou para a unha cravada na própria capa, a um dedo da pele.
— Isso também quase funcionou.
Colm desceu. Quando viu a cabeça da mãe, tentou correr até ela. Alice o segurou pela cintura. O menino se debateu, acertou seu queixo e mordeu sua mão.
— Ela está doente!
— Ela morreu.
— Está falando!
A cabeça caída moveu os lábios.
— Colm.
Alice o virou para a parede. Lucas cobriu o rosto da mulher com o próprio casaco e espalhou sal.
O menino chorou sem som. Alice manteve a mão em sua nuca até ele parar de tentar olhar.
Encontraram vivos no depósito de sal.
Sete pessoas tinham fechado a porta com sacos empilhados: Nessa, a salgadeira; o marido com febre; duas filhas; um velho chamado Oric; uma mulher grávida; e um rapaz com queimaduras nos braços. A água deles acabara pela manhã. Usavam um balde para urina e outro para recolher goteira.
Nessa ergueu uma lança quando Alice bateu.
— O menino está conosco — disse Alice.
A mulher abriu apenas uma fresta.
— Qual?
Colm se aproximou.
— Eu.
Nessa cobriu a boca. Não pareceu alívio.
— Sua mãe trancou você na capela.
— Para me esconder.
— Depois voltou.
Colm baixou os olhos.
Alice examinou os sobreviventes antes de deixá-los sair. Pupilas, unhas, gengivas, temperatura. O marido de Nessa apresentava uma linha vermelha subindo do tornozelo até a panturrilha.
— Quando cortou? — perguntou.
— Anteontem.
— Em quê?
Nessa respondeu por ele.
— Um saco. Cristal afiado.
Alice olhou os montes de sal.
— De qual poço?
— Poço da igreja.
O gosto de cobre voltou à língua. Ela ordenou que ninguém tocasse nos sacos. Lucas levou o homem para fora, sentado numa porta arrancada. Alice lavou o ferimento com água limpa, abriu a crosta e retirou um cristal avermelhado. O homem gritou e chamou Nessa de nomes que as filhas ouviram.
— Sal puro — disse Alice.
Nessa trouxe um punhado.
— Não na ferida. Façam um círculo.
— Isso segura?
— Por horas.
— E depois?
Alice não respondeu. Passou uma mistura de carvão e erva amarga na perna, mais para manter moscas longe que para curar. A febre já subia.
Lucas contou o que restava da vila. Doze mortos visíveis, talvez mais dentro das casas. Três Rastejantes presos. O incêndio alcançara o celeiro, não o depósito. Havia comida para dois dias se dividissem.
— Levamos todos — disse ele.
Alice limpava a faca.
— Com uma grávida, um queimado e um contaminado? A estrada leva dez.
— Ficam aqui e os mortos saem à noite.
— Então queimamos os mortos e esperamos uma caravana.
— Quanto tempo?
Nessa respondeu:
— Posto de cobrança recebe carroças a cada três dias.
— A última passou quando? — perguntou Alice.
— Quatro dias.
Lucas olhou a estrada.
— Pode ter desviado ao ver a fumaça.
— Ou chega amanhã — disse Alice. — Temos de escolher usando a informação que existe.
Colm estava sentado junto ao poço, os pés descalços sobre cinza. Segurava o botão queimado do casaco da mãe.
— Ele vem conosco — disse Lucas.
— Ele fica com os dele.
Nessa sacudiu a cabeça.
— Não temos como alimentar mais um.
— Tem sacos de grão no depósito.
— O marido dela matou meu irmão — disse Nessa. — Trancou a rua quando começou. A mãe de Colm abriu a porta dos fundos e trouxe os mortos.
Colm ouviu. O botão sumiu dentro do punho.
Alice quis mandar Nessa calar a boca. Em vez disso, calculou comida, passos e a febre do homem no chão.
— Ele vem até o posto — disse. — Depois entra numa caravana.
— Não sabemos se há caravana — respondeu Lucas.
— Então você o salvou sem saber para onde.
Lucas sustentou o olhar dela.
— Salvei porque ele estava vivo.
— Agora continua vivo amanhã. É a parte cara.
Nessa cuspiu no chão.
— Levem.
Alice sentiu alívio por não precisar deixar Colm com ela e desprezou esse alívio.
Passaram a tarde queimando mortos.
Lucas cortava cabeças. Oric carregava madeira. Alice abria bocas, enchia-as com sal puro e verificava mãos em busca de movimento. Colm ficou no depósito com as crianças até fugir por uma janela. Alice o encontrou diante da pira da mãe.
— Você não devia ver.
— Todo mundo viu menos eu.
Ela entregou a ele um pano molhado.
— Cubra o nariz.
— Vai doer nela?
Alice observou a lona escurecer.
— Não.
Era a única resposta macia que tinha. Colm aceitou sem agradecer.
Quando o fogo baixou, o marido de Nessa começou a falar com alguém que não estava ali. A linha vermelha alcançara o joelho. Alice o amarrou dentro do círculo de sal. Nessa tentou impedir; Lucas ficou entre as duas.
— Ele está vivo — disse a salgadeira.
— Por enquanto — respondeu Alice.
— Cure.
— Não sei.
Nessa bateu nela. A palma pegou no ouvido e deixou um zumbido. Alice não revidou. Já sentira a pele do homem: quente demais, dura sobre os veios.
— Deixem água ao alcance — disse. — Não cruzem o sal. Se parar de responder, chamem Oric para cortar a cabeça.
O velho empalideceu.
— Por que eu?
— Porque Nessa não consegue.
Lucas separou duas facas, um odre e parte do sal limpo para os sobreviventes. Isso deixava menos para a viagem. Alice contou cada punhado saindo do saco e não o impediu.
Acamparam fora da vila. Colm comeu dois ovos, vomitou o segundo e pediu outro. Alice deu pão. Lucas limpou a espada até a lua aparecer no metal.
— Você entrou na capela — disse ele.
— Porque você abriu a porta.
— Subi pela janela.
— Depois abriu a porta.
— Você teria deixado o menino?
Alice raspou sangue seco da capa.
— Teria procurado um jeito com menos dentes.
— Isso não responde.
— Resposta é luxo de quem já sabe como termina.
Lucas passou óleo na lâmina.
— Se eu tivesse esperado, a tábua cairia.
— Talvez.
— E se ele morresse?
— Você se culparia. É isso que estamos protegendo?
Lucas guardou o pano.
— Não.
Colm mexeu sob a manta.
— Minha mãe abriu a porta — disse.
Nenhum dos dois respondeu.
— Ela ouviu meu pai do lado de fora. Ele chamava. Nessa mandou não abrir.
Alice fechou os olhos por um instante. O homem junto à carroça repetira fechei a porta. Talvez fosse o pai. Talvez outra culpa.
— Durma — disse ela.
— Vou ficar igual?
Alice examinou as mãos dele outra vez. Havia um corte raso no joelho, limpo, sem calor.
— Se aparecer vermelho, você me conta.
— E você corta minha cabeça?
Lucas parou de guardar a espada.
Alice puxou a manta até o ombro do menino.
— Primeiro lavo o corte. Depois você reclama. Temos muito caminho antes de decisões maiores.
Colm virou de lado.
Durante a primeira vigília, gritos vieram da vila. Nessa chamou o nome do marido. Oric não respondeu. Depois houve um golpe, outro e o choro das filhas.
Lucas se levantou.
Alice segurou seu pulso.
— Se voltar, leva os mortos até eles.
— Eles precisam de ajuda.
— Deixamos sal, faca e instrução. Ajudar agora pode matar Colm.
Lucas olhou para o menino adormecido, depois para o brilho da pira além das árvores. Sentou de novo. A mão permaneceu fechada sobre o cabo da espada.
Ao amanhecer, fumaça preta subiu do depósito de sal.
Alice não soube se os sobreviventes tinham queimado o homem ou a si mesmos. Lucas ficou olhando até Colm acordar.
— Vamos voltar? — perguntou o menino.
— Não — disse Alice.
Lucas não a contradisse. Isso a irritou mais do que a discussão teria irritado.
Ela separou pão para Colm, apagou o fogo e examinou os pés dele. Havia bolhas abertas nos dois calcanhares. Lavou-as, passou gordura com alecrim e cortou tiras do forro de uma das próprias mangas.
— Preciso andar? — perguntou Colm.
— Precisa chegar ao posto.
— Lucas tem cavalo.
— O cavalo também tem opinião.
Lucas ajustou a sela.
— Ele monta.
Alice puxou o último nó do curativo.
— E você leva a mochila dele.
— Ele não tem mochila.
Colm apontou para a caixa de ferro presa às costas de Alice.
— Posso levar essa.
— Prefiro entregar meus dentes a você.
O menino aceitou a resposta com um encolher de ombros. Lucas o ergueu para a sela. O gesto foi cuidadoso, mas Colm endureceu quando as mãos tocaram sua cintura.
Alice viu. Lucas também. Ele soltou depressa e entregou as rédeas ao menino.
— Segure aqui.
— Eu sei montar.
— Então finja que eu não expliquei.
Colm encaixou os pés curtos contra a sela e olhou para a fumaça. Alice deixou que olhasse. Quando o cavalo avançou, ele se virou uma vez e depois prendeu os olhos na estrada.
Atrás deles, Pedra-Fria continuou queimando com o sal contaminado nos poços e sete sobreviventes reduzidos a uma coluna de fumaça. Alice carregou a conta sem transformá-la em palavra.
Fim do Capítulo 6