Capítulo 05
Ordens e Cinza
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Capítulo 05
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Sybelle queimou o cadáver antes do pão.
Alice acordou com fumaça entrando pela janela e encontrou a mãe junto ao canal, alimentando uma fogueira baixa com tábuas do galinheiro. O corpo de lona estava sobre uma grade de ferro. Sal estalava dentro dos cortes. Quando uma mão rompeu o tecido, Sybelle bateu nos dedos com a pá até os ossos caírem entre as brasas.
Lucas segurava um balde. Tinha o casaco aberto, fuligem na cicatriz da sobrancelha e a expressão de quem passara a noite ouvindo barulho ruim.
— Demorou — disse Sybelle.
Alice pegou o segundo balde.
— Se ele sair daí, mando de volta para pedir licença.
Uma parte do peito afundou. Chamas verdes correram pelos veios de ferrugem e produziram cheiro de igreja úmida. Lucas virou o rosto. Alice cobriu nariz e boca com a manga, despejou água ao redor do fogo para proteger as raízes e examinou a margem. Nenhuma gota do cadáver alcançara o canal.
— A amostra? — perguntou.
Sybelle bateu a pá na grade.
— Guardada.
— Onde?
— Onde você vai buscar quando eu mandar.
Lucas pôs o balde no chão.
— A autorização exige que eu leve prova material às minas.
— Autorização não sabe carregar balde — respondeu Sybelle. — Você leva minha filha. Ela sabe distinguir minério de carne.
Alice deixou o terceiro balde suspenso.
— Sua filha sabe ouvir quando é oferecida na conversa.
Sybelle puxou o corpo para o centro das chamas.
— Então ouça direito. Você vai com ele.
O calor do fogo alcançou Alice por baixo da camisa. Ela despejou a água fora do círculo e devolveu o balde.
— Não vou.
— Parte amanhã.
— Isso melhora muito minha recusa.
Lucas limpou fuligem das mãos num pano.
— Posso procurar outro guia.
Sybelle olhou para ele como olhava uma ferida que precisava abrir mais.
— Pode morrer com outro guia. Alice atravessa o brejo, reconhece contaminação e consegue entrar em lugar onde um homem do seu tamanho só serve para entupir a porta.
Alice sentiu o prazer indevido de ser necessária. Ele veio junto da raiva e a deixou com vontade de quebrar o balde.
— Oficialmente, o que ele investiga?
Lucas tirou uma folha dobrada do bolso.
— Mortos sem repouso ao longo da água que desce da Fronteira de Ardel. A autorização me permite recolher amostras, ouvir sobreviventes e entrar nas minas confiscadas.
— E sem o papel?
— Sou um herdeiro suspenso cavando terra que já não pertence à minha Casa.
— Um ladrão bem vestido.
— O casaco discorda.
Alice reparou no punho puído e na costura refeita sob o braço.
— Seu casaco mente pior que você.
Sybelle enfiou a pá sob o que restava do crânio.
— Alice vai garantir que a amostra chegue. Também vai destruir qualquer rastro que conduza ao brejo.
Lucas franziu a testa.
— Rastro de quê?
— Da contaminação.
A resposta veio rápida demais. Alice conhecia a velocidade com que a mãe mentia; era menor que um piscar e maior que um silêncio.
— Que tipo de rastro? — perguntou.
— Símbolos em pedra, registros com o nome Venn, gente que reconheça nossos métodos. Traz cópia do que puder. O resto vira cinza.
Lucas se aproximou do fogo.
— Minha investigação depende de documentos.
— Sua investigação depende de continuar vivo. Aprenda a separar papel útil de papel que aponta uma faca.
Alice olhou a fumaça subindo por entre os salgueiros. O brejo a recebera a vida inteira sem oferecer saída. Naquela manhã, uma estrada apareceu com cadáver, selo e homem inconveniente. Sybelle queria empurrá-la por ela, o que era motivo suficiente para ficar. A vontade de ir apertou mesmo assim.
— Decido depois de comer — disse Alice.
Sybelle assentiu como se já tivesse recebido um sim.
O mapa ocupou metade da mesa e não mostrava metade do brejo.
Lucas prendeu os cantos com uma caneca, uma faca, o pote de sal e a caixa de ferro que guardava a lasca vermelha. Alice cortou pão de taboa enquanto ele explicava as linhas. Estrada sudeste, Pedra-Fria, Vale dos Cinco Fogos, fronteira. Os nomes pareciam marcas numa pele que ela nunca tocara.
— Aqui — disse Lucas, indicando um risco estreito. — Três dias até Pedra-Fria se o chão estiver seco.
— Não está.
— Quatro.
— Seu cavalo não passa pelo canal de Junco Fundo.
— Cinco.
— Aprende depressa.
Sybelle separava ervas no outro lado: mil-folhas para sangue, raiz amarga para febre, alecrim-do-brejo para conservar carne. Cada molho entrava num saco diferente. Alice conhecia a ordem e não precisava olhar, mas vigiou as mãos da mãe.
— Quem assinou? — perguntou Alice, apontando a autorização.
Lucas girou a folha.
— Um notário real, um prelado da fronteira e o administrador que tomou as minas de Ardel.
Ela reconheceu algumas letras, não o conjunto dos cargos.
— Três homens usando palavras compridas para mandar você voltar ao lugar que matou sua família.
— Dois homens. O prelado mandou o selo.
— Corajoso.
Lucas mostrou a parte inferior, onde a cera cobria um corte no pergaminho.
— Se eu provar que as escavações continuaram depois do confisco, minha Casa ganha audiência. Se provar ligação com os mortos, Calderis terá de agir.
Sybelle amarrou um saco com força.
— Calderis age quando a cadeira ameaça cair. Mortos de vila não balançam cadeira.
— Provas balançam.
— Provas queimam.
Alice empurrou uma fatia de pão para Lucas. Ele a comeu sem reclamar da farinha grossa, o que lhe valeu uma quantidade pequena e irritante de respeito.
— Você espera que eu apague o quê? — insistiu ela.
Sybelle colocou um frasco de óleo verde sobre a mesa.
— O que reconhecer.
— Não reconheço segredos que você não conta.
— Reconhece minha letra.
Lucas parou de mastigar.
Alice também. Sybelle continuou enchendo a mochila como se tivesse pedido uma colher.
— Há documentos seus nas minas?
— Pode haver.
— Fazendo o quê?
— Trabalho antigo.
— Cura?
— Talvez.
— Você nunca diz talvez.
Sybelle testou a rolha do óleo.
— Agora digo.
Alice puxou a mochila e despejou tudo sobre a mesa. Frascos rolaram. Um pacote de sal abriu e espalhou cristais pelo mapa.
— Arrume você. Vai ter tempo enquanto eu fico.
Sybelle segurou o pulso dela.
— Você vai.
Alice tentou soltar. Os dedos da mãe apertaram sobre a cicatriz do primeiro corte.
— Tenho vinte e quatro anos.
— E desperdiça todos eles fingindo que a borda do brejo é o mundo.
— Foi você quem me manteve aqui.
— Mantive até ficar pronta.
— Pronta para quê?
Sybelle olhou para Lucas. Ele dobrou o mapa com cuidado, recolheu a autorização e se levantou.
— Vou cuidar do cavalo.
— Fique — disse Alice.
Ele parou.
— Se vão me negociar, quero testemunha.
Sybelle soltou o pulso dela.
— Pronta para ver o que acontece quando homens enterram culpa e chamam a pedra de tampa.
— E queimo sua letra.
— Se conduzir até aqui.
Lucas limpou o sal do mapa com a lateral da mão.
— Não posso concordar antes de saber o conteúdo.
— Então não concorde — disse Sybelle. — Alice decide o que você não precisa ver.
— Eu decido tudo — respondeu Alice. — O que leio, o que queimo e se volto.
Sybelle recolheu um frasco do chão.
— Desde que volte.
A frase saiu baixa. Alice quase perguntou pelo buraco sob as costelas, por Mara, pela mão que arrancara o rosto de uma menina. A pergunta chegou aos dentes e recuou. Lucas continuava ao lado da mesa, presente demais para aquela ferida.
— Saia agora — disse ela a ele.
Lucas levou mapa e documentos. Antes de fechar a porta, deixou o pão sobre o prato de Alice.
À noite, Alice encontrou Sybelle moendo espinhos na varanda.
O pilão descia devagar. A cada golpe, a casca seca soltava um cheiro amargo. Alice sentou no degrau e encerou as costuras das botas. Uma rachadura no calcanhar exigia reparo; enfiou uma tira de couro por baixo e empurrou a sovela.
— Você sabia que ele vinha — disse.
— Suspeitava.
— Vestiu o casaco preto antes de ele chegar.
— Wat avisou.
— Wat não fez você tocar o documento como se reconhecesse a mão.
Sybelle virou o pó numa tigela.
— Reconheci o tipo de ordem.
— E sua letra pode estar nas minas.
— Pode.
A sovela atravessou o couro e furou a base do polegar de Alice. Ela chupou o sangue, passou o fio e puxou até o ponto fechar.
— Quando eu voltar, você vai me contar.
— Se voltar com algo que valha contar.
— Você transforma resposta em pagamento.
— Porque pergunta sem consequência vira passatempo.
Alice jogou a bota no degrau.
— Arrancou uma menina de mim por passatempo?
O pilão parou.
As rãs continuaram no canal. Lucas mexeu no galinheiro, longe o bastante para não ouvir palavras baixas.
— Qual menina? — perguntou Sybelle.
Alice odiou a pergunta. O rosto sem feições veio como sempre, cercado de tranças e lama seca.
— Você sabe.
— Diga o nome.
— Mara.
O nome pareceu ocupar espaço entre as duas. Sybelle pousou o pilão.
— Onde ouviu?
— Dentro do buraco que deixou.
— Buracos não falam.
— Este fala quando vejo luz de vila. Fala quando cheiro figo. Fala quando encontro um apito que minhas mãos conhecem.
Sybelle esfregou pó de espinho entre os dedos.
— Algumas lembranças tornam a pessoa fácil de seguir.
— Foi você?
Alice esperou. A mãe poderia mentir; ela queria ao menos observar o trabalho da mentira.
— Fui — disse Sybelle.
Alice pegou a bota para ter o que segurar.
— Por quê?
— Você contou demais.
— Eu era criança.
— Criança também conduz caçador até casa.
— Mara não era caçadora.
— Não lembra o suficiente para afirmar.
Alice levantou. A vontade de bater na mãe passou por seu braço como febre. Sybelle não recuou.
— Devolva.
— Não posso.
— Não quer.
— As duas coisas.
Alice chutou a tigela. Pó e espinhos se espalharam pela varanda. Uma farpa atravessou a meia e entrou no pé. Ela ficou parada sobre a dor.
Sybelle se agachou e começou a recolher o material com uma folha de papel.
— É por isso que me manda? — perguntou Alice. — Para apagar de outras pessoas o que apagou de mim?
— Mando porque a ferrugem encontrou água. Mando porque você consegue chegar às minas. Mando porque, se ficar, vai gastar o resto da vida tentando me ferir com perguntas e acabar parecida comigo.
Alice puxou o espinho do pé.
— Talvez eu já esteja.
Sybelle levantou o rosto. Pela primeira vez naquela noite, pareceu cansada.
— Então escolha melhor quando tiver estrada.
Alice quase riu. A mãe oferecia escolha com as mesmas mãos que arrumavam sua mochila.
— Vou porque quero sair. Se encontrar sua letra, leio antes de queimar.
— Leia.
— Se descobrir que mentiu sobre a missão, não volto.
Sybelle recolheu o último punhado de pó.
— Volte para dizer isso.
Alice levou a bota para dentro. Remendou o calcanhar até a vela acabar, deitou vestida e dormiu em pedaços.
Partiram antes do sol.
Lucas apertou as correias da sela enquanto Alice distribuía sal, comida e frascos entre duas mochilas. A caixa de ferro ficou com ela. Sybelle entregou um embrulho de pão e quatro ovos cozidos.
— O cavalo leva você no trecho seco — disse Lucas.
— O cavalo gosta de mim?
— Gosta menos de carga.
— Temos isso em comum.
Alice prendeu a capa de lã cinza. O remendo do ombro ainda estava úmido da lavagem. As botas seguravam, embora o calcanhar novo mordesse a pele.
Sybelle conferiu as fivelas, tocou os frascos e apertou o nó do saco de sal. Não tentou abraçar.
— Garça para água. Raposa para gente. Víbora só onde houver saída estreita.
— Passei anos aprendendo.
— Passe mais um minuto ouvindo.
Alice permitiu que ela terminasse.
— Se um morto repetir culpa, não responda. Se um vivo mostrar veios vermelhos, não encoste sangue no seu. Sal arde; não cura. E não entregue memória grande por pressa de Lucas.
— Ainda estou aqui — disse ele.
Sybelle olhou para o casaco dele.
— Esse é o problema.
Lucas montou. Alice tomou a dianteira pela trilha de tábuas. Na curva do salgueiro, a cabana sumiu atrás da neblina. Ela não olhou para trás.
O chão ficou menos úmido depois do meio-dia. Juncos deram lugar a capim áspero e pedras cobertas de líquen. Alice parou para tirar a bota. O couro novo abrira seu calcanhar. Lucas desceu, segurou a rédea e ofereceu uma tira de linho.
— Tenho meu próprio pano.
— O seu envolve a amostra que pode tentar nos matar.
Ela aceitou o linho.
Enquanto enfaixava o pé, Lucas abriu o mapa sobre uma pedra.
— Pedra-Fria fica a quatro dias.
— Cinco.
— Você ainda não viu a estrada.
Alice apontou para o céu. Nuvens baixas vinham do norte, escuras como água mexida no fundo.
— Chuva amanhã. Seu mapa não sabe.
Lucas dobrou a folha.
— Cinco.
Ao entardecer, acamparam sob um carvalho torto. Lucas fez fogo com dificuldade; Alice deixou que ele gastasse metade da mecha antes de oferecer casca seca guardada no bolso interno. Comeram pão duro e um ovo cada.
— Sua mãe pediu para apagar rastros — disse ele.
Alice descascou o segundo ovo.
— Pediu.
— Vai fazer?
— Depende do rastro.
— E se for prova de que Ardel não causou a ferrugem?
— Você vai querer guardar.
— Sim.
— Então durma com a pasta dentro da camisa.
Lucas alimentou o fogo.
— Não confio em Sybelle.
— Chegou ao brejo com juízo, afinal.
— Confio menos depois de conhecê-la.
Alice mordeu o ovo. Tinha cheiro de fumaça e uma faixa cinza ao redor da gema.
— Isso também acontece.
A chuva começou durante a noite, fina o bastante para penetrar lã sem acordar de imediato. Alice abriu os olhos com o fogo morto e cinza colada às botas. O brejo já não aparecia atrás deles. À frente, a estrada escura descia entre árvores desconhecidas.
Ela apertou a caixa de ferro contra o corpo, levantou e chutou a sola de Lucas.
— Acorde, homem de papel. A estrada decidiu cobrar cedo.
Lucas sentou com uma folha seca presa ao cabelo. Levou a mão à espada, encontrou apenas a bainha vazia e procurou ao redor.
Alice ergueu a arma dele pelo cinto.
— Dorme como nobre.
— Você tirou isso de mim?
— Durante o segundo ronco.
Ele recebeu a espada e conferiu o fecho.
— Eu não ronco.
— Então havia um javali debaixo da sua manta.
Alice apagou as últimas brasas com terra molhada. Enquanto Lucas enrolava a coberta, ela separou a cinza fria num saquinho. Servia para limpar gordura, marcar retorno e esconder brilho de metal. A estrada já oferecia coisas que Sybelle não escolhera por ela.
Fim do Capítulo 5