Capítulo 04
O Estrangeiro no Salgueiro
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Capítulo 04
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Alice viu o estrangeiro do outro lado de Wat Fenner, rente ao chão e escondida sob folhas de taboa.
Na forma de raposa, o homem chegava primeiro pelo cheiro: cavalo suado, couro úmido, tinta, cera e o cobre podre que pingava de um saco amarrado atrás da sela. Os nomes humanos escorregavam quando Alice permanecia tempo demais com quatro patas. Ainda segurava Wat porque o conhecia havia anos, e Sybelle porque esse nome tinha garras.
Wat recolhia os covos da noite. Ao ouvir casco na ponte, levantou com a faca de peixe na mão e sangue de enguia até o cotovelo.
— Essa trilha não leva a lugar nenhum que interesse a quem tem juízo.
O cavaleiro puxou as rédeas. Alto. Casaco escuro. Cicatriz na sobrancelha. Mãos sem luva, com calos de rédea e uma mancha de tinta no indicador.
— Procuro a curandeira do Brejo de Venn.
Wat se plantou entre o cavalo e a tábua seguinte.
— Curandeira tem nome.
— Sybelle Venn.
O nome entrou em Alice como espinho sob unha. O estrangeiro não devia conhecê-lo. Ela avançou um passo entre as folhas. O cavalo virou a orelha em sua direção.
— Tenho documentos — continuou ele.
— Papel não impede faca.
— Também tenho espada, mas imaginei que mostrar papel seria mais educado.
Wat não riu. O homem desmontou devagar e abriu as mãos antes de buscar o documento dentro do casaco. A cera vermelha trazia uma torre partida. Alice não lia selo em forma de bicho, mas reconheceu o desenho de conversas ouvidas na cabana: Ardel.
Wat pegou a folha pelo canto.
— Casa que abriu mina onde não devia.
— Casa acusada de abrir.
— Morto dentro do saco também é acusado?
O cavaleiro olhou para a carga. O rosto endureceu ao redor da boca.
— Patrulheiro. Enterrado com o rito completo, segundo o padre. Voltou três dias depois.
Uma gota caiu da lona. Onde tocou a tábua, deixou uma borda avermelhada. Wat devolveu o documento e limpou os dedos na calça.
— Leve isso pelo canal grande. Sybelle mora depois do salgueiro rachado.
Alice conhecia a mentira. O canal grande terminava num lodaçal capaz de engolir cavalo e nobre juntos.
— E o caminho que o senhor usaria? — perguntou o estrangeiro.
Wat apontou a faca para as próprias botas.
— Não tenho cavalo.
O homem dobrou o papel.
— Lucas Ardel.
— Não perguntei.
— Vai precisar do nome quando contar que me mandou morrer.
Wat raspou uma escama da lâmina com o polegar. Depois indicou a trilha estreita, a verdadeira.
— Duas curvas. Tábua clara quebra. Sybelle cobra o triplo de homem com selo.
Lucas montou. Antes de seguir, olhou diretamente para as taboas.
Alice ficou imóvel. O corpo de raposa conhecia a diferença entre acaso e mira. Ele não poderia vê-la, mas esperou um fôlego a mais antes de virar o cavalo.
Wat recolheu o último covo e falou sem olhar para o esconderijo:
— Se for morder, morde antes que sua mãe sirva chá.
Alice mostrou os dentes.
Wat pegou os peixes e tomou o atalho.
Ela correu pela margem, ultrapassou o cavalo e alcançou o telhado da cabana. Sybelle já estava na varanda. Wat devia ter batido na parede dos fundos e partido. A mãe vestira o casaco preto que só usava para receber cobradores, padres e pessoas que sabia como matar.
Lucas chegou à cabana quando a neblina ainda cobria a altura dos joelhos do cavalo. Alice se achatou no colmo úmido do telhado. O cadáver amarrado à sela deixava um rastro de gotas escuras pelas tábuas.
Sybelle saiu antes que ele batesse.
— O Brejo de Venn não está em mapa de cortes — disse ela, com a voz plana. — Ou leu o mapa errado, ou mentiu para quem te mandou.
O homem desmontou, batendo a lama das botas contra a perna da calça antes de estender um documento dobrado.
— Lucas Ardel — disse ele. — Tenho autorização da Casa para investigar a contaminação nas minas da fronteira. Preciso de um guia que conheça o pântano; meu nome chegou até aqui por canais que preferem não aparecer em papel.
— Meu nome chega onde eu deixo — respondeu Sybelle. — O saco é o quê?
— Soldado. Patrulha da estrada de cinza. Voltou errado três dias depois do enterro. Cortaram-no de novo ontem; a ferrugem no peito ainda crescia. Trouxe para quem entende de espinho ver o que a Igreja chama de milagre e o caçador chama de desgraça.
Alice sentiu fome de investigar e nojo de chegar perto ao mesmo tempo. Sybelle inclinou a cabeça — um gesto mínimo que significava entra, mas não confio.
— Entra. Não toca em nada. Alice! — chamou.
Alice voltou humana pela porta dos fundos. Entrou com o cabelo úmido e as mãos sujas de lama, como se viesse da margem, não de espiar.
Lucas olhou para ela com um cálculo educado, do tipo que mede até a faca alheia.
— Minha filha — disse Sybelle. — Alice Venn.
— Senhorita — disse Lucas, com uma reverência curta e sem ironia.
Sybelle serviu chá amargo em duas canecas de barro rachadas e empurrou uma para o lado dele. Lucas abriu os documentos encerados sobre a mesa: selos, Fronteira de Ardel, autorização provisória. Sybelle leu tudo em silêncio, sem tocar na própria caneca.
— Você traz a desgraça da sua Casa nos papéis e no saco. Por que eu ajudaria? — perguntou.
Lucas não desviou o olhar.
— Porque ferrugem não respeita casas. Porque o brejo bebe a água que desce das minas. Porque alguém em Calderis acredita que um metamorfo de pântano vê o que um padre não vê.
Alice sentiu o olhar de Sybelle cruzar o dela — um aviso.
— Exagero de cortesia — disse Sybelle, com a voz perdendo meio grau de frieza. — Senta, Alice. Ouve. Isso também é treino.
Lucas falou de minas sob túmulos antigos, de cadáveres repetindo últimas palavras, de ordens oficiais que cheiravam a armadilha política. Não disse o nome do demônio — talvez não soubesse, talvez soubesse e tivesse medo.
— Preciso cruzar o brejo até a estrada de cinza em três dias — concluiu Lucas. — Com alguém que não morra na primeira neblina.
Sybelle passou os dedos na borda do documento, quase com carinho — um gesto raro nela.
— Fala bem, para um homem acusado de profanar o túmulo da própria Casa.
Lucas endureceu a mandíbula.
— Minto mal quando mentir custa mais caro que a verdade.
Silêncio. Sybelle abriu um canto da lona na varanda. Alice viu veios vermelhos sob a pele cinzenta do morto. O cheiro subiu — cobre e incenso podre.
— Fica a noite — disse Sybelle. — Amanhã decidimos. Alice, mostra o galinheiro a ele. Longe dos documentos.
Antes do galinheiro, Sybelle fez Lucas levar o cadáver à mesa de limpar peixe.
Alice cobriu as tábuas com lona velha, separou faca, tenaz e duas tigelas de sal. O morto fora um homem jovem. Restava barba apenas no lado direito do rosto; o lado esquerdo tinha queimado até o osso. Alguém cortara a cabeça quase por inteiro e desistira perto da nuca.
— Quem tentou matá-lo da segunda vez? — perguntou ela.
Lucas segurou as pernas enquanto Sybelle desatava a lona.
— Eu.
— Trabalho incompleto.
— Havia outros três.
Alice apalpou o peito. Sob a camisa dura, veios vermelhos corriam das costelas para a garganta. Pareciam minério crescendo no lugar do sangue. Ela espetou um deles com a ponta da faca. A lâmina raspou como se tocasse pedra.
— Sal — disse Sybelle.
Alice espalhou um punhado sobre a abertura. Os veios estalaram e soltaram um cheiro de cobre aquecido. Lucas recuou meio passo, depois tornou a se aproximar.
— Isso mata?
— Já está morto — respondeu Alice.
— Impede que levante?
Sybelle abriu a camisa com a tesoura.
— Sal nos cortes. Cabeça separada. Fogo depois.
— O padre usou fogo.
— Padre usa chama para plateia. Cadáver exige paciência.
Dentro do bolso do morto havia uma tira de linho com palavras bordadas. Alice conhecia letras de receitas, marcas de carga e alguns nomes. Leu apenas a primeira: fogo. Lucas tomou o pano com cuidado.
— Oração de absolvição — disse ele. — Foi enterrado com isto entre os dentes.
— Encontrou onde?
— Na garganta. Quando tentou morder minha mão.
Alice olhou as mãos dele. Uma cicatriz recente atravessava a base do polegar.
— Lavou com quê?
— Vinho.
— Então a ferrugem vai morrer bêbada.
Lucas soltou o ar pelo nariz. Alice puxou a mão dele para perto da lamparina sem pedir licença. A cicatriz estava fechada, sem calor nem linha vermelha. Mesmo assim, pressionou até a pele embranquecer.
— Sonhos?
— Tenho dormido pouco.
— Isso não responde.
— Uma mina. Homens chamando debaixo da pedra. Começaram antes da mordida.
Sybelle ergueu os olhos do peito aberto.
— Sonhos de família não interessam.
A rapidez da resposta chamou a atenção de Alice. Sybelle voltou a cortar. A faca encontrou algo duro junto ao coração. Com a tenaz, retirou uma lasca vermelha do tamanho de uma unha.
Lucas estendeu a mão.
— Preciso levar uma amostra.
Sybelle deixou a lasca cair na tigela de barro, longe dos dedos dele.
— Precisa manter os dedos.
— Os documentos exigem prova.
— Seus documentos dormem na minha mesa. A prova dorme no fogo.
Alice cobriu a lasca com sal. Ela chiou, mas não perdeu a cor. Guardou a tigela dentro de uma caixa de ferro e passou duas voltas de arame.
— Eu levo — disse.
Lucas encarou a caixa.
— Para onde?
— Longe da sua cama.
Sybelle começou a costurar a lona em volta do corpo para queimá-lo ao anoitecer. Seus olhos passavam pelo selo de Ardel ou pela amostra, nunca pelos dois ao mesmo tempo.
No caminho estreito, Lucas tentou leveza:
— Sua mãe sempre recebe estranhos com cadáver?
— Só os que trazem desgraça útil — respondeu Alice. — Durma com a faca perto. Se levantar de noite sem avisar, eu mordo. Não pergunta se é metáfora.
Ele riu, surpreso.
— Um homem me barrou na trilha, antes daqui. Faca de peixe, mais suja de escama do que de sangue, mas segurava firme.
— Wat Fenner — disse Alice, sem precisar pensar duas vezes. — Se não te esfaqueou, é porque gostou de alguma coisa que você disse. Ele não gosta fácil.
— Disse que meu pai cavou a ruína dele.
— E cavou mesmo — confirmou Alice, sem suavizar. — Não espera que eu minta pra te fazer sentir melhor. Não é meu trabalho.
— Não pedi que fosse — respondeu Lucas.
Chegaram ao galinheiro, um puxado de madeira e taboa trançada onde seis galinhas magras ciscavam a lama à procura de minhoca. Alice jogou um punhado de grão no chão, e as aves correram cacarejando.
— Dorme aqui — disse ela, apontando um monte de palha seca num canto. — Cheira a bosta, mas é seco. Minha mãe não dá cama de verdade pra desconhecido.
— Já dormi em lugar pior — disse Lucas, olhando ao redor sem nojo nenhum, o que surpreendeu Alice mais do que devia.
— Documento bonito, cama de galinheiro — provocou ela. — Casa Ardel decaiu rápido.
— Casa Ardel decaiu de uma vez só, numa manhã só — corrigiu ele, a voz perdendo o tom leve. — Rápido é outra coisa.
Alice não pediu desculpa — não era hábito seu — mas também não insistiu na provocação. Voltou para a cabana. Sybelle ainda olhava os documentos à luz de uma vela.
— Mãe... — começou Alice.
— Amanhã — cortou Sybelle. — Hoje sonha com raposa. Homem bonito de papel também sangra.
Alice não achou Lucas bonito. Achou-o perigoso, como uma porta aberta. Deitou-se e sentiu o buraco de Mara pulsar no mesmo compasso do nome Lucas — novo, intacto, ainda não emprestado a nenhuma fera.
Da cozinha, antes de dormir, Alice ouviu Sybelle e Lucas murmurando no galinheiro, vozes baixas demais para chegar inteiras através da parede de taboa. Não resistiu: desceu pé ante pé até a porta dos fundos, cedeu meia lembrança qualquer — algo tão pequeno que nem soube nomear depois — e virou raposa só o suficiente para deslizar sem ruído até a sombra ao lado do puxado.
Não entendia todas as palavras, só o tom. A mãe usava a voz que reservava para negociar com feiticeiros de estrada: respeito fingido, ameaça real. Lucas respondia baixo, firme, sem pedir um perdão que não devia.
— ...minas não são teatro — disse Lucas.
— Nada real é teatro — respondeu Sybelle. — Por isso mando minha filha. Ela vê teatro e cospe.
Alice sentiu o pelo do focinho eriçar, orgulho de bicho reagindo antes do orgulho humano ter tempo de processar o elogio.
Lucas perguntou alguma coisa sobre linhagem — a palavra chegou clara, isolada, entre um resmungo do cavalo lá fora e o vento nos juncos. Sybelle riu, seco.
— Linhagem é dívida. Pergunte ao sangue quando ele chegar à pedra.
— Que dívida a senhora paga, exatamente? — insistiu Lucas, e por um instante a voz dele perdeu toda a cortesia de escriba.
Um silêncio comprido seguiu-se, longo o bastante para Alice contar as próprias respirações de raposa, rápidas e curtas.
— A que ninguém mais tem coragem de cobrar — disse Sybelle, por fim, e algo na voz dela soou mais cansado do que Alice jamais tinha ouvido, mesmo escondida atrás de orelhas que não eram suas.
Lucas não perguntou mais nada. Alice recuou antes que o vento virasse e entregasse o cheiro dela, voltou humana atrás da cabana, tremendo mais de frio que de medo, e ficou parada um instante tentando decidir o que doía mais: não ter entendido tudo, ou ter entendido o suficiente para sentir que a mãe escondia algo do tamanho de uma pedra de moinho.
O cheiro de cobre no morto não a inquietava tanto quanto a ideia de ser moeda de troca entre a mãe e um nobre caído. A raposa teria fugido. Alice voltou para a cama e manteve a faca sob o travesseiro.
De manhã, Sybelle mandou Alice mostrar o caminho seco até o poço velho — um teste disfarçado de hospitalidade. Lucas observou os passos dela na lama, atento demais.
— Nasceu aqui? — perguntou Lucas.
— Nasceu — disse Alice. — Cresceu. Vai sair. Três verbos, uma vida.
— E o que você espera lá fora?
— Menos salgueiro — respondeu ela. — Mais gente que acha que selo protege de ferrugem.
Lucas olhou para o saco onde o cadáver tinha estado.
— Selo não protege. Só atrasa a pergunta.
Alice quase gostou dele por isso. Era quase tão perigoso quanto confiar.
Fim do Capítulo 4