Capítulo 03
Três Formas
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Capítulo 03
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Sybelle pôs três tigelas sobre a mesa: penas queimadas na primeira, uma pele de víbora na segunda e pelos avermelhados na terceira.
Alice continuou limpando a lama das botas. Aos vinte e quatro anos, conhecia aquela arrumação. A mãe só usava tigelas quando queria transformar uma ordem em cerimônia.
— Leve isto até o salgueiro do norte — disse Sybelle, colocando uma bolsinha de couro entre elas. — Sem abrir. Sem deixar pegada humana na margem leste.
Alice virou a bota e bateu a sola na quina do banco. Um pedaço de barro caiu dentro da tigela de penas.
— Que desperdício. Eu tinha planos para a tarde.
— Tirar sanguessuga da cabra mal chega a plano.
— A cabra discorda.
Sybelle retirou o torrão com dois dedos. A unha do indicador estava manchada de um vermelho que Alice não reconheceu entre tinturas da casa.
— Garça pela água funda. Víbora sob as raízes. Raposa até o salgueiro.
— Três memórias para levar uma bolsa que cabe no seu bolso.
— Três formas para descobrir se ainda consegue alternar.
Alice passou gordura na rachadura do calcanhar da bota. O couro absorveu pouco; precisaria de sola nova antes do inverno.
— Consigo.
— Então mostre.
— Posso mostrar que sei dizer não.
Sybelle pegou a faca de descascar e raspou a cera endurecida da mesa. Fez isso sem erguer os olhos.
— Pode. A bolsa continua indo.
Alice odiou a confiança calma daquela frase. Poderia jogar as tigelas no fogo, abrir a bolsa ou passar o dia com a cabra. Em vez disso, amarrou a bota e guardou o embrulho sob a camisa. Queria saber se ainda conseguia. Queria mais que Sybelle visse. Essa segunda vontade tinha gosto pior.
— Se eu perder a lembrança da cabra, a culpa é sua.
— A cabra ficará aliviada.
Na margem, Alice escolheu para a garça uma tarde antiga em que Wat lhe ensinara a remendar um covo. O rosto dele, o fio partido, a irritação quando ela errara o nó: tudo inteiro. A lembrança subiu como gosto de enguia defumada. A pele formigou.
Enquanto os ossos afinavam, ela recordou a primeira vez que Sybelle alinhara as mesmas três tigelas. Tinha quinze anos e já carregava buracos suficientes para desconfiar de qualquer prato vazio.
Sybelle dissera que três formas bastavam para sobreviver, desde que Alice soubesse quando não usar nenhuma.
Aos quinze anos, Alice já tinha uma pequena coleção de buracos: a melodia que a mãe cantava ao tirar parasitas de peles secas, emprestada à garça num treino que se estendeu longo demais; o gosto de mel silvestre de um verão que talvez nunca tivesse existido do jeito que ela lembrava; e o nome de um pássaro comum que Sybelle apontara na margem, sumido depois da primeira vez que ela virou víbora — restava só "aquilo de asa marrom".
O treino daquela tarde era garça de novo, mas garça longa, do tipo que Sybelle chamava de "treino de resistência": ficar na forma até o sol mudar de lado no céu, sem ninguém puxando de volta antes da hora. Alice cedeu a lembrança de uma cantiga de ninar sem letra e caiu na água rasa, ossos reorganizados, mundo estreitado a lama e reflexo.
A tarde passou devagar demais para bicho contar tempo. Quando o sol já ia baixo, Alice sentiu algo puxar fundo nela — não o corpo querendo voltar, mas o oposto: uma vontade cega de ficar, de esquecer que existia qualquer coisa além de água fria e peixe se mexendo sob a superfície. O nome Alice, quando tentou alcançá-lo, veio embaçado, como letra escrita na água.
Sybelle percebeu antes que fosse tarde demais. Entrou na lama até o joelho, sem hesitar, e segurou a garça pelo pescoço com as duas mãos — gesto que parecia brutal e que era, na verdade, a única coisa que ainda funcionava naquele estágio.
— Alice — disse Sybelle, a boca quase colada na pena molhada. — Alice Venn. Diz teu nome.
A garça debateu-se um instante, o bico batendo no ar sem mira. Depois, devagar, os ossos voltaram a se desatarraxar, e Alice caiu de quatro na lama, humana, tossindo água suja.
— Quase — disse ela, quando conseguiu falar. — Quase não voltei.
— Quase não conta — respondeu Sybelle, soltando o pescoço dela, os dedos deixando marcas vermelhas na pele. — Ou volta ou fica. Da próxima vez que "quase" acontecer, eu não vou estar com a mão livre pra te puxar.
Alice tremia, mais de medo do que de frio.
— O que eu perdi dessa vez?
Sybelle ficou em silêncio um instante, olhando para o poço de lama onde a garça tinha estado.
— A voz de quando eu chamava você de bebê — disse, por fim, sem inflexão nenhuma na própria voz, como se contasse o preço de um saco de sal. — Você não vai mais lembrar como eu soava antes de aprender a ser dura. Preço justo, considerando que quase me deu um cadáver de filha pra enterrar.
Alice não soube o que doía mais: a perda em si, ou o jeito seco como a mãe a anunciou, como quem lê um recibo.
Voltaram para a cabana em silêncio, Alice mancando um pouco — as pernas humanas sempre estranhavam o próprio peso depois de horas leves de pena e osso oco. Sentou-se perto do fogo, esfregando os pés doloridos, e tentou lembrar a voz que a mãe descrevera ter perdido. Não vinha nada. Só o vazio de sempre, do formato certo para caber uma voz que ela nunca soubera ter tido.
A víbora veio depois de três noites sem dormir, com a pele formigando antes mesmo de tocar a lama. Alice desceu ao canal estreito onde as raízes formavam túneis. Sybelle segurou a nuca dela com firmeza gentil — gentileza de ferramenta.
— Cede o medo de lugares fechados — murmurou Sybelle. — Você não usa esse medo, fica paralisada com ele. Paga e passa.
Alice pagou, e sentiu o medo de espaços fechados escorrer para fora dela como água. No lugar ficou uma frieza longa, músculos novos, olhos que enxergavam calor onde antes só havia sombra. Rastejou entre as raízes, ouviu o coração de um sapo batendo perto, cheirou peixe morto e espinheiro molhado. O pensamento dela se estreitou, sem ironia nenhuma.
Os túneis desciam em curvas apertadas, raízes de espinheiro atravessando a terra como vigas de uma casa afundada, e em alguns pontos a passagem ficava tão estreita que só um corpo sem ombros passava por ela. Água pingava de algum lugar acima, batendo em intervalos regulares numa poça funda demais para o olho de víbora medir.
No fundo de um dos túneis, uma víbora de verdade — a espécie que emprestara forma, não uma prima qualquer — bloqueava a passagem, enrolada e imóvel. Alice-víbora sentiu o impulso de atacar antes de pensar, presas contra presas, veneno contra veneno; só o reflexo humano, fino como um fio, a impediu de morder primeiro e perguntar depois. Recuou um palmo, deu a volta por uma fenda lateral mais estreita ainda, e sentiu as costelas raspando pedra dos dois lados antes de sair do outro lado do túnel.
Voltar doeu. Sybelle esfregou sal na língua dela até Alice cuspir bile.
— O que perdeu? — perguntou Sybelle.
— Não lembro. Só sei que antes eu não entrava no buraco debaixo da cabana — respondeu Alice.
Sybelle grunhiu, satisfeita.
— Memória pequena, preço pequeno. Não se acostume a pagar grande.
— Quase brigo com uma víbora de verdade lá dentro — admitiu Alice, ainda cuspindo. — Por um triz não mordi ela achando que era eu brigando comigo mesma.
Isso arrancou de Sybelle algo raro: um meio sorriso, seco, sem alegria nenhuma nele.
— Aí está o perigo. O bicho lá fora morde uma vez. Você pode continuar mordendo depois de esquecer por quê.
A raposa-do-brejo foi presente e castigo ao mesmo tempo: presente porque Alice riu pela primeira vez em meses, correndo entre os juncos, leve e astuta; castigo porque Sybelle mandou que ela escutasse uns caçadores ilegais na borda leste, homens de armas sujas falando de minas e de ferrugem nos cadáveres.
Alice emprestou a lembrança de uma manhã em que alguém sem rosto — só uma ausência no lugar onde deveria haver um rosto — penteara o cabelo dela com paciência. Doeu mais que o medo de lugares fechados: um buraco tocando o outro, dentro dela.
Aproximou-se rasteira, barriga quase colada na lama, até ficar a menos de dez passos dos homens. Um deles — o mais alto, com uma cicatriz cruzando a sobrancelha — virou a cabeça de repente, farejando o ar como se sentisse algo errado.
— Tem bicho aqui perto — disse ele, a mão indo para o cabo de uma faca.
Alice-raposa congelou, cada músculo travado, o coração batendo tão rápido que temeu que o som chegasse aos ouvidos humanos. Um segundo homem riu, descartando a ideia:
— Raposa. Sempre tem raposa nesse brejo maldito. Volta pra escuta.
O homem da cicatriz não pareceu convencido, mas voltou a atenção para a fogueira. Alice não se moveu por tempo suficiente para os músculos travarem de vez, e só recuou centímetro a centímetro quando a conversa engrenou de novo.
— ...Ardel cavou fundo demais. Agora o reino sangra por todos os lados.
— Sangra ou apodrece? Morto voltou na estrada de cinza.
— Cala a boca. Ferrugem não se nomeia em voz alta.
Alice, raposa, registrou cada sílaba. Ardel, ferrugem, reino — veneno guardado para o dia em que soubesse onde enfiar.
Voltou humana ao anoitecer, tremendo de fome animal. Sybelle deu a ela uma caneca de caldo amargo, ainda fumegando.
— O que ouviu? — perguntou Sybelle.
Alice repetiu tudo, palavra por palavra, incluindo o homem da cicatriz farejando o ar.
— Quase me acharam — completou, as mãos ainda tremendo em volta da caneca quente. — Um deles sentiu que tinha bicho perto de verdade.
Sybelle ficou quieta, olhando para o sul.
— Reino sangra — disse Sybelle, por fim. — Casas mordendo casas. Minas abertas onde não deviam ser abertas. Mortos que a Igreja não segura mais com fogo bonito. Assunto para quem tem espinho no sangue, além da conversa de bêbado.
— O que a gente tem a ver com isso? — perguntou Alice.
— O bastante. Espinheiro cresce onde enterram coisa ruim. Quando a ferrugem chegar ao brejo, você não vai rezar. Vai mudar de forma até conseguir atravessar.
Alice sentiu a náusea de uma responsabilidade colocada no colo dela como uma pedra.
— E se eu esquecer demais?
— Então eu termino o que você começou. Por isso ensino dureza antes de raposa — respondeu Sybelle.
Naquela noite, com o caldo já frio na caneca e o fogo baixando, Alice fez a pergunta que vinha engolindo havia meses.
— Por que assim? — perguntou, olhando o fogo, não a mãe. — Você podia ter me ensinado devagar. Um ano por forma, sem me deixar quase perdida na lama, quase mordida por víbora de verdade, quase farejada por caçador armado.
Sybelle passou a pedra de amolar na lâmina, devagar, o som raspando entre uma frase e outra.
— Podia — admitiu, o que já era raro vindo dela. — E se eu tivesse esse luxo, ensinaria devagar. Mas eu não sei quanto tempo o mundo lá fora ainda vai deixar você crescer sem cobrar.
— Você me deu uma desculpa bonita pra crueldade no lugar da resposta.
O rosto de Sybelle não se moveu, mas a mão parou sobre a lâmina.
— Tenho medo de duas coisas — disse, por fim, a voz mais baixa do que Alice já tinha ouvido dela. — Medo de te ensinar rápido demais e te quebrar antes da hora. E medo maior ainda: de te ensinar devagar demais e ver alguém lá fora te levar antes de você aprender a dizer não.
— Quem ia me levar? — perguntou Alice. — Do que você tem tanto medo que nem fala o nome?
— Do reino — respondeu Sybelle, o que era mentira e verdade ao mesmo tempo, e Alice sentiu isso sem saber provar. — Do jeito que ele usa gente como nós e depois finge que nunca usou.
— Isso não explica por que você mesma parece ter medo de alguma coisa específica. Não do reino em geral. De uma coisa.
Sybelle largou a pedra de amolar na mesa com um som seco, definitivo.
— Existem medos que a gente não entrega nem à própria filha, Alice. Não porque não confia. Porque entregar um medo desse tamanho é dar à pessoa que a gente ama um jeito novo de sofrer.
— Isso parece mais proteção do que dureza.
— As duas vêm do mesmo lugar, quando dá certo — disse Sybelle. — Quando dá errado, vira só dureza, e eu sei disso melhor que ninguém.
Sybelle voltou a afiar a lâmina, o assunto fechado com o mesmo gesto seco de sempre.
— Durma. Amanhã treinamos alternância. Perguntas demais custam sono, e sono você ainda precisa de graça.
Alice deitou-se sem dormir de verdade por um bom tempo, pensando que, pela primeira vez, tinha visto a mãe hesitar antes de mentir — e que a hesitação doía mais do que qualquer resposta direta teria doído.
Na semana seguinte, Alice alternou entre garça, víbora e raposa, e cada volta deixou uma lacuna nova. Como Sybelle proibia papel, ela passou a listar as perdas de cabeça: o cheiro de pão numa manhã sem dono, o nome de uma estrada que... A frase sempre parava ali, sem nome, só uma dor de dente fantasma no lugar dele.
Certa noite, Alice perguntou:
— Dá para recuperar o que a gente paga?
Sybelle não tirou os olhos da lâmina que afiava.
— Às vezes, com um preço maior. Às vezes não. Não gaste forma tentando comprar sentimento de volta.
Alice engoliu a pergunta sobre a menina sem rosto. Ficou olhando o fogo e pensou que três formas eram três facas — e que já sangrava por dentro sem precisar de lâmina externa nenhuma.
No dia em que Sybelle testou a alternância rápida, Alice quase ficou presa entre formas: garça ao amanhecer, víbora ao meio-dia, e ao voltar da segunda, por um instante, não soube se os pés dela eram patas ou dedos. O mundo chegava embaralhado — visão em duas alturas ao mesmo tempo, o cheiro de lama competindo com um resto de calor de sangue que os olhos de víbora ainda insistiam em enxergar mesmo depois de os olhos voltarem a ser humanos. Sybelle segurou o rosto dela entre as mãos ásperas.
— Diz seu nome — ordenou.
— Alice Venn — sussurrou Alice, e o alívio foi tão forte que doeu.
— De novo amanhã. Identidade se mantém com hábito caro; ninguém entrega de presente.
Alice assentiu, com suor frio na nuca. Olhou para o sul, onde os caçadores tinham falado de um reino sangrando. O suor desceu entre as omoplatas e esfriou sob a camisa.
Outra tarde, Sybelle fez Alice contar em voz alta cada lacuna da semana — ritual humilhante e útil ao mesmo tempo.
— Melodia da varanda — disse Alice.
— Perdida — respondeu Sybelle.
— A cor do lenço que Ma... — a voz dela travou, o dente doendo por dentro. — Lenço. Cor. Não o nome.
Sybelle assentiu, impassível.
— Reino sangra — repetiu, como um refrão. — Quando o sangue chegar aqui, você não vai ter lenço para chorar. Vai ter forma.
Alice cerrou o punho. Odiou a mãe. Odiou-se por querer o aceno curto que vinha depois de um exercício bem-feito. Treinou até a lua nascer, garça imóvel sobre a água.
No presente, Alice saiu da forma de raposa atrás do salgueiro do norte com lama até os cotovelos e sangue na boca. A alternância deixara as pernas humanas moles. Ela se sentou entre raízes, abriu a bolsa e encontrou três folhas dobradas, cobertas por marcas eclesiásticas que reconhecia sem conseguir ler por inteiro.
Sybelle chegara antes dela.
— Eu disse sem abrir.
Alice ergueu uma das folhas.
— E eu disse que sabia dizer não.
— Perdeu o quê?
A pergunta atravessou a provocação. Alice procurou Wat remendando o covo. Sabia que ele estivera lá, sabia o tipo de nó, mas a tarde inteira tinha sido lavada de sua cabeça. Restava a irritação sem voz e um gosto de enguia.
— Wat. Uma tarde.
— A víbora?
— A primeira vez que dormi sozinha na elevação.
— Raposa?
Alice tocou o apito de junco que levava preso por baixo da camisa. A lembrança escolhida fora uma canção de criança ouvida na vila. Ainda lembrava a melodia. Faltava a palavra que indicava a estrada para o norte.
— Um nome de caminho.
Sybelle tomou as folhas e verificou as dobras.
— Você abriu com cuidado.
Alice esperou a repreensão. Sybelle apenas guardou os documentos na bolsa.
— O reino sangra mais depressa — disse a mãe. — Amanhã, fazemos de novo.
— Amanhã eu recuso melhor.
— Recuse com as botas secas.
Sybelle seguiu pela margem. Alice ficou até as pernas pararem de tremer. Depois calçou as botas encharcadas e foi atrás dela.
Fim do Capítulo 3