Capítulo 02
A Lição do Nome
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Capítulo 02
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Mara apareceu na margem do canal como quem não devia estar ali: filha de um caçador de aves que passava duas vezes por ano vendendo penas e mentiras baratas. Tinha olhos escuros, um riso rápido e a audácia de chamar Alice pelo nome sem pedir licença a Sybelle.
Mara girava uma pena de garça entre os dedos quando falou, no primeiro encontro:
— Você cheira a lama e a medo. Cheiro de quem esconde coisa boa.
Alice devia mandar a menina embora. Sybelle tinha regras: ninguém da estrada, ninguém que contasse histórias fora do brejo, ninguém que visse as marcas na palma dela ou ouvisse o canto estranho à noite. Em vez de obedecer, sentiu algo se abrir no peito — não garça, não víbora, só a fome comum de um humano por outro — e disse:
— Então fica quieta e não conta pra ninguém.
Ficaram amigas em segredo, com encontros atrás do salgueiro torto, onde a lama era mais firme e os juncos escondiam os passos. O pai de Mara, Cormac, vendia penas de duas em duas semanas nas vilas ao sul e voltava sempre pela mesma trilha, o que dava tempo às duas de aprenderem o horário dele de cor: chegava ao meio-dia, bebia até o entardecer numa taberna qualquer, e só recolhia a filha ao escurecer, tarde demais para reparar na lama fresca nos joelhos dela.
Numa dessas tardes, Mara trouxe um canivete pequeno, de cabo de osso gasto, e sentou-se de pernas cruzadas na raiz mais larga do salgueiro.
— Meu pai não vai notar — disse, já cortando um pedaço de junco seco em tiras finas. — Ele conta as penas, não as facas.
— Pra que serve isso? — perguntou Alice, vendo Mara entalhar o junco com uma paciência que ela própria não tinha.
— Apito — respondeu Mara, sem erguer os olhos do trabalho. — Meu avô fazia. Fura aqui, sopra assim — e soprou, e o som saiu rachado, mais grasnado que música, e as duas riram até os ombros doerem.
Levou três tardes até o apito soar direito. Mara entregou-o a Alice com as duas mãos, cerimonioso como um padre entregando hóstia.
— Fica com o teu. Eu faço outro pra mim.
— Não temos nomes iguais pra combinar nada de irmã de sangue — disse Alice, virando o apito entre os dedos. — Só sei fazer promessa de sangue de espinho, e dói.
— Então promessa de lama — decidiu Mara, cuspindo na palma e estendendo a mão. — Enquanto o apito não quebrar, a gente ainda é amiga, não importa quantas vilas eu veja ou quantos bichos você vire.
Alice cuspiu na própria palma e apertou a mão dela, selando o trato com um aperto forte o bastante para doer um pouco — do jeito que Sybelle apertava para ensinar alguma coisa, só que sem a dor vindo depois.
Ensinava a Mara a diferença entre espinheiro e musgo inofensivo, mentindo que tinha aprendido num livro que não existia; Mara ensinava palavras de cidade que Alice repetia errado de propósito só para ouvir Mara rir de novo. Contavam histórias do reino distante como se fossem contos de fogueira: rei morto, casas brigando entre si, padres que queimavam os mortos com fogo purificador e, ainda assim, viam os mortos voltarem errados nas estradas onde a culpa era grossa demais.
— Minha mãe diz que isso é conversa de bêbado — sussurrou Alice, certa tarde.
— A minha diz que padre mente quando a coleção enche — respondeu Mara, e as duas riram até Sybelle bater numa panela dentro da cabana.
Numa das últimas tardes — embora nenhuma das duas soubesse ainda que seria das últimas —, Mara enterrou uma lata pequena de estanho sob a raiz mais funda do salgueiro, com uma pena de garça dentro e um botão de osso do casaco velho do pai.
— Quando a gente for velha — disse ela, socando a terra por cima com o calcanhar —, desenterra e vê se lembra de mim.
— Vou lembrar sem precisar de lata — disse Alice, com a certeza fácil de quem nunca tinha perdido nada de verdade ainda.
Alice aprendeu o nome Mara como aprendia a respirar: sem pensar, com gratidão. Aprendeu o peso da mão de Mara apertando a dela antes de ir embora. Aprendeu que havia um mundo além do brejo onde meninas podiam ser meninas, pelo menos por uma hora, sem pagar em memória.
Uma vez quase foram pegas. Cormac voltou cedo demais da taberna, ainda com meia garrafa de vinho ruim na cabeça, e gritou o nome da filha três vezes antes de as duas conseguirem se separar atrás do salgueiro. Alice mergulhou de barriga na lama rasa e ficou imóvel entre os juncos, o coração batendo tão forte que temia que o som chegasse até a trilha. Mara saiu andando na direção contrária de onde estava Alice, cantarolando alto demais, de propósito, para puxar o pai para longe.
— Onde andava? — a voz de Cormac chegou embolada de bebida.
— Catando ovo de pato, pai. Achei três.
Ele resmungou qualquer coisa e não perguntou mais nada. Alice ficou deitada na lama fria bem depois de os passos sumirem, o coração ainda martelando, e quando enfim se levantou, suja da cabeça aos pés, riu sozinha até doer a barriga — o tipo de riso que só vem depois de um medo que passou sem cobrar nada.
No dia seguinte, Mara apareceu com um galo no queixo, onde tropeçara fugindo no escuro.
— Valeu a pena — disse ela, tocando o hematoma com orgulho, como se fosse medalha.
— Quase morri de coração parado — disse Alice.
— Mas não morreu — respondeu Mara, dando de ombros. — E agora temos história pra contar quando formos velhas de verdade.
Sybelle soube antes que Alice confessasse. Alice nunca chegou a saber como: podia ser faro de mãe, espírito do brejo ou apenas a observação de quem criara uma filha para sobreviver, não para amar. Sybelle não gritou — gritar era coisa de vilarejo. No brejo, a punição vinha fria.
Sybelle limpava as escamas de um peixe na tábua de corte quando apontou o banco baixo com a ponta da faca.
— Senta. Repete o nome dela.
Um frio subiu pela espinha de Alice.
— Mara.
— De novo — disse Sybelle.
— Mara. Filha do caçador de aves. A gente se encontrava. Só conversava.
— Só conversava — repetiu Sybelle, sem largar a faca, o tom mais afiado que a lâmina. — E o apito de junco no teu bolso? Também é só conversa?
Alice apertou o punho em torno do apito escondido, o instinto de mentir subindo antes de qualquer plano.
— Ela me deu. Não custou nada a ninguém.
— Custou o suficiente pra vir escondido no bolso há três semanas — disse Sybelle. — Eu não crio filha escondida de mim dentro da própria casa.
— Você esconde tudo de mim o tempo inteiro! — a voz de Alice saiu mais alta do que pretendia, quase um grito. — De onde vim, quem é meu pai, por que ninguém do brejo olha pra você sem baixar os olhos primeiro. Eu tenho direito a uma coisa minha.
Sybelle largou a faca na tábua e se inclinou, o rosto perto do dela, os olhos cor de água parada.
— Não tem. Não aqui. Você deu a essa menina o que não era dela: nosso tempo, nosso nome. Agora ela sabe que existe uma garota no brejo que cheira a coisa antiga. Isso não se conserta com desculpa.
— Eu não contei sobre as formas — disse Alice, a voz quebrando. — Juro.
— Não importa. Importa que você escolheu um buraco em vez da mãe.
— Ela não é um buraco! — Alice se levantou do banco, e pela primeira vez encarou a mãe de pé, olho no olho, mesmo tremendo. — Ela é a única pessoa que gosta de mim sem eu ter que pagar nada por isso.
Por um segundo — só um, e Alice guardaria aquele segundo mesmo depois de guardar tudo o mais — algo cedeu no rosto de Sybelle, uma rachadura fina que podia ser dor ou podia ser cansaço. Fechou-se de novo antes que Alice pudesse ter certeza do que tinha visto.
— Gostar sem pagar é conto de fada — disse Sybelle. — Senta.
Alice sentou porque as pernas cederam sozinhas.
Sybelle segurou o punho dela, virou a palma cortada para cima e pressionou nela sal misturado com espinho moído até arder.
— Olha pra mim. Você empresta memória à garça sem chorar; vai emprestar esta também, a de Mara. Porque já aprendeu que tudo tem preço, e o preço de trair o brejo é perder o que te fez trair.
Alice gritou, e a dor não veio do corte: veio de algo sendo puxado de dentro, arrancado com raiz e tudo. Ela viu lampejos — tranças escuras, um riso, dedos entrelaçados, um nome chamado duas vezes — e por um instante viu o rosto inteiro de Mara, bonito e vivo, antes que a imagem se rasgasse como um pano velho.
Quando ela acordou no chão de terra batida, a boca tinha gosto de cobre. Sybelle continuava de pé, impassível.
— Como se chama? — perguntou Sybelle.
Alice abriu a boca. Havia alguma coisa ali: um lugar atrás do salgueiro, o gosto de figo seco, um buraco onde deveria haver um nome, um rosto, uma história inteira.
— Tinha alguém — disse ela, por fim. — Não lembro quem.
Sybelle assentiu, satisfeita de um jeito que Alice ainda odiaria anos depois.
— Lembra do buraco. O buraco te mantém honesta. Quando vier gente de fora, e vai vir, não entrega o brejo por um par de olhos bonitos.
Alice procurou o bolso da saia com a mão livre, sem saber por quê. Achou um pedaço de junco entalhado, gasto nas pontas, e não fazia ideia do que fosse nem por que carregava aquilo. Guardou de volta no bolso, com cuidado, como quem guarda uma coisa que pode ser importante só porque as mãos insistem em achar que é.
Nas semanas seguintes, Alice falou menos e remendava a mesma rede de pesca três vezes ao dia só para manter as mãos ocupadas. Sybelle elogiou a disciplina. Alice se odiou por sentir alívio quando a mãe sorriu — um canto de boca rápido, prêmio raro.
À noite, passava os dedos na palma cicatrizada e procurava no escuro o que faltava. Encontrava só fragmentos soltos: o cheiro de lama numa barra de vestido que não era dela, a pressão de dedos que não eram os de Sybelle, uma pergunta muda que voltava sempre — por que dói aqui?
Tentou escrever Mara na lama com um graveto, mas as sílabas não encaixavam em nada. Ficou só um som solto, sem rosto — igual à menina do sonho. Alice entendeu, com um enjoo súbito, que talvez fossem a mesma ausência vista de dois lados diferentes.
Encontrou o apito de junco enrolado num pano, no fundo do baú onde guardava as poucas coisas que eram só dela. Soprou-o sem saber por que guardava aquilo, e o som saiu rachado, mais grasnado que música. Algo no peito dela apertou, fundo, sem imagem nenhuma para se agarrar. Guardou o apito de volta no pano e não voltou a tirá-lo de lá.
Sybelle nunca nomeou Mara de novo. Alice aprendeu que alguns buracos não se perguntam em voz alta — se perguntassem, Sybelle arrancaria a pergunta também.
Um mês depois, o pai de Mara passou de novo vendendo penas, sem a filha ao lado. Alice, garça imóvel entre os juncos, ouviu o homem perguntar a um transeunte se o brejo tinha água potável, e sentiu o estômago se apertar sem saber por quê. Não chorou. O buraco não chorava — só pesava.
Sybelle, na margem, disse sem olhar para o céu:
— Lagarta que rói a própria folha vira borboleta cega. Você escolheu folha alheia. Aprenda.
Alice voltou humana atrás da cabana e vomitou água do canal. A mãe não veio buscá-la, e a ausência dela confirmava mais do que qualquer castigo físico: o preço continuava cobrando juros, mesmo depois que a dívida original tinha sumido.
Anos depois, aos vinte e quatro, Alice subiu ao topo da elevação mais alta do brejo para consertar uma armadilha que a maré arrancara do canal. A terra firme sustentava juncos baixos e um espinheiro torto. Ela levou estacas novas, um malho e linha encerada; o trabalho devia ocupar as duas mãos, mas seus olhos fugiam para o norte.
Do alto, viu luzes.
Eram fracas, tremeluzentes, um punhado delas espalhado numa curva distante onde o brejo encontrava terra seca de verdade — uma vila que Sybelle nunca tinha nomeado e que Alice nunca tinha visitado, só avistado daquela distância exata algumas vezes por ano, quando o ar estava limpo o bastante.
O peito dela apertou sem aviso, um puxão sob as costelas que não vinha de esforço nenhum. Alice largou a armadilha na lama e ficou ali, parada, olhando as luzes como quem olha uma ferida que dói mais quando o clima muda.
Não sabia por quê. Não tinha nome para dar àquilo, nenhuma imagem, nenhuma frase pronta. Só a certeza incômoda de que alguma coisa dentro dela reconhecia aquelas luzes de um jeito que a cabeça não conseguia explicar — como um animal que foge de um lugar antes de lembrar por que tinha medo dele.
Contou as luzes: sete, talvez oito. Uma cresceu quando alguém abriu uma porta perto do fogo. Alice ouviu vozes de crianças carregadas pelo vento, distantes demais para separar palavra de grito. O malho escorregou. A cabeça de ferro bateu em seu polegar.
Ela levou o dedo à boca. O gosto de sangue trouxe uma trança escura, uma pena de garça e duas mãos sujas de lama. Quando tentou alcançar o rosto, encontrou o recorte vazio. O polegar latejava. A ausência doía mais abaixo, sob as costelas, antiga e precisa.
Ficou tempo demais parada, o suficiente para o sol descer um palmo no céu. Quando finalmente se moveu, foi para consertar a armadilha, não para as luzes — mas a mão dela, sem que ela mandasse, foi primeiro ao bolso da saia, onde não havia nada além de linha e um anzol de reserva.
Sybelle a chamou de longe, impaciente, e Alice desceu o monte sem olhar mais uma vez para trás.
Naquela noite, sentada perto do fogo, Alice remendou a rede que rasgara ao cair. Sybelle cortava raízes de taboa em rodelas iguais. A faca descia, raspava a tábua e tornava a descer.
— A vila ao norte cresceu — disse Alice.
A lâmina parou sobre uma rodela.
— Vilas fazem isso até a febre chegar.
— Vi uma menina na elevação.
Sybelle empurrou as raízes para dentro da panela. Duas caíram no chão; ela recolheu apenas uma.
— Viu de longe.
— Tinha tranças.
— Metade das meninas tem.
Alice apertou a rede entre os joelhos e refez um nó que já estava firme. O apito de junco permanecia no fundo do baú. Durante anos ela evitara tocá-lo; naquela noite, sentiu o formato dele como se o carregasse contra a pele.
— Mara — disse.
Sybelle limpou a faca no avental.
— O que tem esse nome?
Alice esperou uma imagem. Veio apenas o gosto de figo seco e a dor do sal entrando na palma.
— Nada que eu consiga mostrar.
— Então termine a rede.
Sybelle pendurou a panela sobre o fogo. Alice observou a mão da mãe: firme na alça, uma queimadura antiga no indicador, nenhuma pressa. Teve vontade de virar a panela no chão e fazê-la recolher cada rodela. Em vez disso, puxou a linha até o nó entrar na carne do dedo ferido.
Do lado de fora, as luzes da vila não alcançavam a cabana. Mesmo assim, o buraco sob as costelas sangrou até Alice dormir.
Fim do Capítulo 2