Capítulo 01
Espinho no Sangue
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Capítulo 01
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Wat Fenner abriu a palma da mão no fundo da canoa de Alice e sujou três maços de erva-do-corte antes de admitir que precisava de agulha.
— Tire a mão das minhas plantas.
— Pensei que curandeira gostasse de sangue.
— Gosto quando o sangue paga.
Aos vinte e quatro anos, Alice já conhecia as tentativas de Wat para conservar a dignidade. Ele fazia piada, falava de pesca e esperava que a carne fechasse por vergonha. O pano enrolado no punho estava escuro até o pulso. A canoa balançou quando ele se sentou no banco da proa, grande demais para a embarcação estreita.
Alice encostou o remo no barranco. Tinham parado num canal onde salgueiros baixos escondiam a cabana de qualquer pessoa que não conhecesse o caminho. A água chegava preta às raízes. Mosquitos rondavam o rosto de Wat e pousavam no suor da testa.
— Como fez?
— Covo.
— O covo tinha dentes?
Wat afastou o pano. O corte atravessava a base do polegar e abria a palma como boca de peixe. Uma lasca de arame enferrujado ainda estava presa perto do osso.
— Enguia grande — disse ele. — Valia seis moedas.
— Sua mão vale sete?
— Em dia bom.
Alice despejou água fervida de uma garrafa sobre a ferida. Wat prendeu o ar entre os dentes. Ela separou a pinça, a agulha curva e o fio encerado no banco seco, depois fez que ele segurasse a lamparina. O vidro batia no aro de metal a cada tremor.
— Se derrubar fogo na canoa, costuro você dentro dela.
— Seu jeito com doentes melhorou muito desde menina.
— Aprendi a cobrar antes.
A lasca saiu com um puxão curto. Alice a deixou sobre a tábua para que Wat visse o que carregara na carne. Limpou o corte com aguardente. O cheiro forte brigou com lama, peixe e o doce podre das taboas. Wat virou o rosto e quase soltou a luz.
— Olhe para mim — disse ela.
— Prefiro a água.
— A água não vai avisar quando você desmaiar.
Os olhos dele voltaram. Alice passou a agulha pela primeira borda. A pele grossa resistiu, cedeu e fechou sob o fio. Seis pontos. No quinto, Wat começou a falar da mulher que vendia cebolas no ancoradouro; no sexto, pediu que Alice não contasse à esposa sobre a mulher das cebolas.
— Vou cobrar uma enguia por segredo.
— Roubo.
— Então conto de graça.
Ela cobriu os pontos com musgo fervido, envolveu a mão em linho limpo e amarrou o nó onde ele não conseguiria desfazer com os dentes. O polegar se movia. A cor das unhas voltava depressa. Alice sentiu o pequeno prazer de ter consertado algo que chegara aberto até ela e guardou-o onde Wat não pudesse confundir com bondade.
— Três dias fora da água. Se aparecer uma risca vermelha, mande sua mulher buscar Sybelle.
Wat olhou para a trilha escondida entre os juncos.
— Você está aqui.
— Sybelle sabe cortar um braço antes que a febre alcance o ombro.
— E você?
Alice limpou a agulha.
— Eu tento salvar o braço. Dá mais trabalho.
Ele pagou com quatro enguias defumadas e um saco de sal grosso. Alice apalpou o fundo do saco para procurar umidade, pesou-o na mão e devolveu uma enguia.
— O sal está bom.
— Sybelle teria ficado com as quatro.
— Sybelle teria ficado com a canoa.
Wat sorriu, mas o rosto apertou quando se levantou. Alice o levou até a plataforma de tábuas. Ele caminhou alguns passos e parou.
— Ainda sonha com pássaro?
A pergunta fez a cicatriz do antebraço esquerdo coçar.
— Sonho com gente que paga em moeda.
— Minha avó dizia que você ficava parada na água quando pequena. Horas. Parecia uma garça esperando o mundo cometer um erro.
— Sua avó bebia tintura de papoula.
Wat ajeitou a mão enfaixada contra o peito e seguiu pela trilha.
Alice voltou à canoa. Um dos maços de erva-do-corte estava perdido; sangue entrara entre as folhas e começava a escurecê-las. Ela o jogou no canal, lavou as tábuas e contou o que restava. Precisaria colher mais antes da chuva. Sybelle diria que permitira desperdício por conversa. Alice diria que a ferida comprara sal. As duas teriam razão suficiente para uma briga.
Ao curvar-se sobre a água, viu pernas longas e brancas no lugar do próprio reflexo. Piscou. O rosto de mulher voltou, cabelos quase pretos presos de qualquer modo, olhos verde-cinza cansados e uma mancha de sangue no queixo.
O gosto de pão queimado subiu à boca sem cheiro algum para acompanhá-lo.
Ela tinha doze anos outra vez, a mão cortada dentro da lama e Sybelle cantando perto do espinheiro.
A água do Brejo de Venn não refletia o céu. Refletia o que a garça queria ver.
Alice aprendeu isso antes de aprender a ler. Sybelle nunca lhe deu lições de mapas oficiais — só de raízes, de veneno e da hora certa de calar a boca. Naquela mesma tarde, com o cheiro de pele queimada de Wat ainda grudado nas narinas, a mãe cortou sua palma esquerda com uma lâmina de salgueiro e enfiou a mão dela na lama negra onde o espinheiro criava raízes em veios avermelhados, como veias expostas de alguém ainda respirando sob a terra.
Sybelle limpou a lâmina na bainha da saia antes de guardá-la no cinto, e só depois falou, a voz seca como couro velho:
— Isso é empréstimo, longe de magia de salão. Você paga com o que não devia dar, e a fera devolve asas por um tempo. Esquece isso, esquece quem é.
— Igual você fez com Wat — disse Alice, sem pensar direito antes de falar. — Ele pagou com enguia. Eu pago com quê?
— Wat pagou com o que sobra dele. Você paga com o que sobra de você — respondeu Sybelle. — A diferença é a distância até faltar tudo.
Alice sentiu a dor subir do corte para a garganta, junto com o gosto da lama entrando no sangue: ferrugem e musgo podre, e por cima algo doce demais, como fruta caída no sol depois da chuva. Ela engoliu em seco e não vomitou. Vomitar era fraqueza, e fraqueza era convite para o brejo engolir quem não prestasse.
Sybelle cantou baixo, uma melodia sem letra que Alice conhecia desde o ventre, dos tempos em que dormia colada às costas da mãe enquanto esta raspava parasitas de peles secas na varanda da cabana. O canto puxou algo de dentro dela — não uma lembrança inteira, só o cheiro de pão queimado numa manhã de inverno, de um tempo em que ainda havia alguém na cozinha acordando antes dela.
A pele dela formigou, e os ossos pareceram desatarraxados e recolocados menores. Alice caiu de joelhos — não de fraqueza, mas porque o centro do corpo mudara — e quando ergueu a cabeça, o mundo tinha ficado largo e baixo, cheio de cheiros que antes eram só pano de fundo.
Ela era garça.
Seu pensamento estreitou até virar só água, lama e o movimento de um peixe sob a superfície. Ela não conseguia mais se agarrar ao nome Alice — ele ficava longe, inútil, como um objeto perdido n'água. Sobreviver era ficar imóvel até a presa passar. Sybelle, na margem, virou só uma forma alta e escura: ameaça ou árvore, dependia do ângulo.
Horas depois — ou minutos, porque o tempo de bicho não se media — Sybelle puxou-a de volta com sal na língua e palavras duras. Alice vomitou na margem, humana outra vez, as mãos tremendo. Faltava alguma coisa; ela soube antes mesmo de procurar. O cheiro de pão queimado tinha ido embora com a garça, e no lugar ficou um vazio que doía não como ferida, mas como um cômodo sem móveis.
Sybelle agarrou o queixo dela e virou o rosto para a luz, como quem confere gado.
— Conte.
— O cheiro da cozinha. A manhã — disse Alice, a voz ainda rouca de lama.
— Boa. Preço pequeno — disse Sybelle, soltando o queixo dela.
Alice não perguntou por que um preço pequeno doía tanto. Perguntar era aprender uma resposta que não se esquecia.
Na manhã seguinte, Alice acordou com a boca seca e a palma latejando sob a bandagem de linho, e ficou deitada um instante tentando lembrar um cheiro que já não existia dentro dela.
Sabia que faltava alguma coisa do mesmo jeito que sabia que faltava um dente antes de a língua ir procurar o buraco. Levantou-se antes de Sybelle, reacendeu as brasas apagadas da noite com dois gravetos secos e ficou olhando o fogo pegar, à espera de um cheiro que não vinha.
Cortou uma fatia grossa do pão de taboa e a segurou perto demais das brasas, de propósito, até a casca escurecer e rachar. O cheiro que subiu era de farinha de raiz queimando — amargo, seco, errado. Alice afastou o pão. A certeza sem imagem pedia outro cheiro: mais doce, mais fundo, ligado ao calor de um fogão diferente daquele de pedra e barro rachado.
Queimou uma segunda fatia. Depois uma terceira, até o pão da semana ficar reduzido a pedaços pretos nas bordas, imprestáveis. Comeu cada um deles mesmo assim, mastigando devagar, como se a repetição pudesse forçar a lembrança a voltar pela boca já que não voltava pela cabeça.
Sybelle a encontrou ali, sentada perto do fogo com a quarta fatia na mão, os dedos pretos de fuligem.
— Desperdiçando pão — disse Sybelle, sem se aproximar.
— Procurando um cheiro — respondeu Alice, sem erguer os olhos.
Sybelle ficou parada na porta por um instante mais longo do que costumava ficar parada em qualquer lugar.
— Não volta assim — disse, por fim, a voz um grau mais baixa do que o normal, quase gentil, quase. — Preço pago não devolve troco. Só ensina a andar sem ele.
— Como você anda sem o que perdeu? — perguntou Alice.
— Rápido — disse Sybelle. — E sem parar para queimar pão.
Ela virou-se e foi cuidar das galinhas, deixando Alice sozinha com o resto do pão estragado e um vazio que, aos poucos, naquela manhã, aprendeu a chamar simplesmente de vazio — porque nome mais bonito do que esse ele não merecia ainda.
Alice raspou a fuligem da última fatia com a unha, comeu o miolo que sobrara por baixo da casca queimada, e guardou a lembrança daquela manhã inteira — o fogo, o cheiro errado, o gosto de cinza — como se substituísse, em algum lugar torto do peito, o cheiro que tinha ido embora.
Os anos seguintes se pareciam entre si: repetição com variações cruéis. Sybelle ensinava dureza como outras mães ensinavam reza, sem carinho e com castigo sempre que a filha errava por sentimento. Alice aprendeu a segurar um sapo sem esmagá-lo, a ler a maré pelo cheiro do vento e a não chorar quando a lama entrava pelas botas até o joelho e ensopava a meia de lã por dentro. Aprendeu também a odiar o som de unhas batendo na mesa: sinal certo de que Sybelle ficara impaciente e de que a lição seguinte seria pior que a anterior.
Uma dessas tardes, Alice quebrou um pote de barro ao tropeçar num raiz de espinheiro escondida na lama, e o leite de cabra que carregava se espalhou todo pelo chão da cabana. Sybelle não gritou — só bateu as unhas na mesa, três vezes, devagar, olhando o leite escorrer entre as tábuas do assoalho.
— Recolhe os cacos — disse, sem erguer a voz. — Amanhã ordenha duas vezes. Hoje dorme sem o queijo que ia fazer com esse leite.
Alice recolheu os cacos com as mãos, um por um, os dedos sangrando de leve em duas bordas afiadas, e não pediu desculpa nenhuma — desculpa não consertava pote quebrado, tinha aprendido, só atrasava o trabalho de juntar os cacos.
Certa tarde, arrancando espinheiro da borda do canal — as luvas de couro já gastas nas pontas dos dedos —, Sybelle falou olhando para o sul, onde os mapas raramente chegavam:
— O reino lá fora sangra. Casas mordendo casas. Mortos que não ficam mortos onde a culpa é grossa. Você é filha do brejo, Alice, e vila nenhuma vai salvá-la. Quando vierem buscar o que é nosso, não vai agradecer por ter sido mole.
Alice assentiu, porque discordar custava mais caro que concordar. Olhou para as próprias mãos — calos de remo, a linha pálida da cicatriz na palma esquerda — e pensou que sangrar era coisa de gente distante, dos reinos lá fora. Só bem mais tarde, na beira do sono, sentiu veios quentes sob a pele de outra pessoa, em sonho alheio.
— Isso é conversa de estrada — murmurou Alice.
— É conversa de quem ouve rio — respondeu Sybelle. — Água desce. Sangue desce. Ferrugem desce. Ignore se quiser ficar ignorante.
Alice cravou o remo na lama. Ignorância no brejo era luxo curto.
Outros vinham depois de Wat, ao longo daqueles anos — uma parteira de vila vizinha com febre que não baixava, um menino mordido por cobra-d'água, uma mulher velha que só queria um chá contra a dor nos ossos e pagava em ovos porque não tinha mais nada. Sybelle nunca recusava trabalho, mas também nunca oferecia mais do que o corpo do doente exigia: cortava, costurava, receitava, cobrava, e mandava embora. Alice aprendeu a distinguir, no rosto de cada visitante, o mesmo par de sentimentos que vira em Wat — gratidão e medo, sempre juntos, nunca um sem o outro. Ninguém no brejo chamava Sybelle de amiga. Chamavam-na de necessária, o que para Sybelle bastava.
Na véspera do treino longo — ficar em forma de garça do amanhecer até a lua alta — Alice acordou de um fragmento de memória que se recusava a fechar: duas meninas escondidas atrás de um salgueiro torto, dedos entrelaçados, risada abafada e lama secando na barra do vestido. Uma era ela. A outra tinha tranças escuras, ombros magros e uma voz que chamava por um nome que Alice quase alcançou. Quando ela tentou virar o rosto da lembrança para enxergar melhor, não havia rosto ali. Nem borrado — apenas ausente, como se alguém tivesse recortado a pele e deixado só céu cinza no lugar dos olhos, da boca, de qualquer culpa ou carinho.
Ela sentou na cama de palha, o coração batendo forte sem motivo à vista. Tentou segurar a cena antes que escapasse, mas não conseguiu: ficou só o cheiro de espinheiro molhado no ar e a certeza incômoda de que aquilo já tinha acontecido antes, faltando a parte que explicava por que doía tanto.
Sybelle bateu na porta antes que Alice terminasse de amarrar os cadarços das botas. Trazia, pendurado no ombro, o alforje de sal e um rolo de corda encerada — o mesmo que usava para amarrar Alice à margem nos primeiros treinos, anos atrás, quando ela ainda se perdia demais na água para lembrar sozinha do caminho de volta.
— Hoje fica na forma até eu mandar voltar. Se perder o nome, eu trago de volta. Se perder mais que o nome, aprende a viver com o buraco — disse ela.
— E se eu não quiser ficar tanto tempo assim? — perguntou Alice, ainda sentada na cama.
— Ninguém pergunta isso à fome quando ela chega — respondeu Sybelle, já descendo os degraus da varanda. — Vista a capa. O brejo não espera pergunta.
Alice engoliu a pergunta sobre a menina sem rosto. Sybelle nunca tolerava perguntas sobre buracos que ela própria não tinha decidido abrir à luz do dia.
Lá fora, o brejo esperava, escuro e paciente. Alice sentiu a garça antiga puxar seus ossos, faminta por mais um pedaço de quem ela tinha sido. No fundo da mente, a memória quebrada piscou outra vez — risada, lama, dedos entrelaçados — antes de apagar, como luz por trás de uma porta fechada.
Fim do Capítulo 1