Capítulo 34
Para Oeste
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Capítulo 34
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A mula de Alice chamava-se Bispa porque mordia pobres e obedecia a quem trazia aveia.
Finn escolheu o nome na porta oeste de Calderis. O guarda riu até Bispa arrancar um pedaço da manga dele. Alice pagou o remendo com duas moedas e recusou mudar o nome.
A caravana partiu sob chuva fina. Levava sal puro, ferramentas, três famílias das Tinas e um caixão vazio que o carpinteiro pretendia vender antes de Lorn. Alice seguia na quarta carroça, não montada; a criança empurrava suas costelas e transformava sela em instrumento de interrogatório.
Calderis diminuía atrás deles. A catedral perdera duas torres. Andaimes cercavam o palácio. Na muralha, a bandeira de Bella dividia espaço com panos brancos de distritos que ainda não tinham jurado.
Finn olhou para trás até a curva.
— Está arrependido? — perguntou Alice.
— Ainda não.
— Avise antes de ficar.
— Isso não faz sentido.
— Acostume-se. Adulto dá instrução ruim quando está com medo.
Ele ajustou o manual de contas sob a capa. A faca de Bren estava presa do lado errado do cinto; Alice corrigiu uma vez. Na segunda, deixou que ele descobrisse quando o cabo batesse na costela.
No primeiro alto, Bren os alcançou a cavalo. Trazia dois sacos de sal e um embrulho de queijo.
— Esqueceu despedida? — perguntou Alice.
— Esqueci de cobrar a mula.
Ele entregou a ela um mapa de poços contaminados no oeste. Marcas pretas acompanhavam antigas rotas de batalha.
— Ferrugem não acabou — disse.
— Eu estava lá.
— Pessoas vão dizer que acabou. Rainha nova gosta de problema resolvido.
— Bella sabe contar dívida.
— Saber não impede propaganda.
Finn abraçou Bren sem aviso. O caçador ficou imóvel, braços afastados como quem recebera animal desconhecido. Depois bateu duas vezes nas costas do menino.
— Água corrente ajuda — disse. — Voz com nome errado mente. Sal vermelho vai fora. E não aceite trabalho de caçador.
— Você ofereceu.
— Eu estava febril.
Bren deu meia-volta antes que a estrada exigisse outra emoção. Alice observou até ele sumir na chuva.
O buraco no peito doeu. Por um instante, ela pensou que fosse por Bren. Depois encontrou a causa mais funda, sem rosto, reagindo a toda partida.
Viajar sem metamorfose levava mais tempo.
Alice não voava adiante para achar água nem passava sob carroça para ouvir conversa. Precisava perguntar, confiar em mapas e caminhar. A dependência irritava como bota apertada.
No sexto dia, o mapa de Bren evitou um poço contaminado. Uma família da caravana já enchera dois baldes. Alice cheirou, provou uma gota e mandou derramar.
— Rainha disse que o demônio caiu — protestou o pai.
— A rainha disse que o pacto foi exposto. Se disse mais, mentiu.
Mostrou os nódulos sob a pedra. Finn marcou o poço com tinta preta e pregou uma cópia do aviso. A prensa ainda estava em peças, mas haviam trazido cinquenta folhas de Calderis.
No oitavo dia, Alice ajudou num parto dentro de um celeiro. A mãe, Sera Noll, sangrou mais do que devia. Alice trabalhou com mãos humanas, sem olhos de garça ou sentidos de raposa. Amarrou o vaso, usou bolsa de pastor e linha fervida, contou o pulso pela própria respiração. A menina nasceu roxa e depois gritou.
Sera perguntou:
— Qual nome traz proteção?
Alice lavou sangue dos dedos.
— Nenhum. Escolha um que consiga gritar da porta.
Chamaram a menina de Nera.
Naquela noite, a criança de Alice moveu-se enquanto ela comia pão com gordura. Finn colocou a mão sobre o ventre depois de pedir.
— Chutou.
— Tem opinião sobre sopa.
— Vai usar Ardel?
— Se quiser depois.
— E Venn?
— Mesma resposta.
— Precisa de algum no registro.
— O registro pode esperar o nascimento.
Finn franziu a testa por um instante.
— Eu escolheria nome curto. Menos trabalho quando cobrador pergunta.
Alice riu. O luto sem objeto abriu espaço para o riso e depois voltou, como água entrando por várias rachaduras em vez de maré limpa.
A primeira carta de Lucas foi aberta em Pedra Alta.
Alice esperou três semanas. Carregou o papel dentro da camisa, sentiu o lacre contra a pele, quase o queimou duas vezes. O lado externo prometia saúde e bens, sem história.
Abriu numa estalagem enquanto Finn dormia.
Lucas informava que a fronteira Ardel aceitara arbitragem. Duas minas permaneceriam fechadas; uma renda de criação de ovelhas seria destinada à criança. Perguntava se Alice estava saudável e se precisava de dinheiro. Não dizia que sentia falta. Não mencionava tenda, maçã ou lado da cama.
No fim havia uma frase:
Conservo a outra metade. Não a envio. Esta contenção também é escolha, embora doa.
Alice leu três vezes. O corpo reagiu à inclinação das letras. Pressionou o papel contra o peito e chorou por um homem que não conhecia.
Respondeu de manhã:
Saudável. A criança também, pelo que sei. Aceito renda sem tutela. Lorn Baixo é o destino. Finn procura ponte. Não conte mais.
Acrescentou:
Pode escrever na próxima estação.
Dobrou antes de mudar de ideia.
Rumores chegavam mais depressa que cartas. Um mercador disse que Lucas Ardel recuperara título e noivara com uma filha de Mereth. Outro jurou que morrera numa mina. Um terceiro o vira mediando disputa entre pastores, sem brasão.
Alice perguntou ao terceiro:
— Tinha cicatriz na sobrancelha?
— Todo homem da fronteira tem cicatriz.
Ela parou de perguntar. Escreveu a Bella pedindo confirmação apenas de vida ou morte. A resposta veio com selo real:
Vivo. Sem noivado registrado. O resto pertence a ele.
Alice guardou ao lado da carta.
Lorn Baixo ficava onde dois rios se encontravam e nenhum mapa concordava sobre qual mantinha o nome.
A antiga casa de pedágio tinha metade do telhado, três quartos de parede e um espinheiro crescendo dentro da cozinha. Finn entrou primeiro.
— Dá para tirar.
Alice examinou o tronco. A planta atravessara cinza do fogão, abrira rachadura entre pedras e alcançara luz.
— Dá para contornar.
Instalaram a mesa junto ao espinheiro. O primeiro quarto virou enfermaria. O segundo guardou sal e ferramentas. Finn dormiu no sótão até começar o aprendizado com Mestra Joa, construtora de pontes, uma mulher sem dois dedos que cobrava pontualidade em palavrões.
Alice inspecionou nove poços no primeiro mês. Interditou dois, ensinou Dara — outra Dara, filha de oleiro — a reconhecer veios em gengiva e contratou um rapaz para copiar avisos. Os moradores pagavam com ovos, madeira, horas de telhado e discussões.
O primeiro poço interditado pertencia a Mestre Varo, dono da estalagem e de metade das carroças do povoado. Ele arrancou o aviso na mesma tarde.
Alice voltou com Dara, Finn e um balde de água retirado diante de seis testemunhas. Ferveu metade numa panela de ferro. A espuma deixou um aro vermelho.
— Terra argilosa — disse Varo.
Alice mergulhou uma tira de linho branco. O tecido saiu com veios que se moviam contra a trama.
— Argila não procura pulso.
Varo cruzou os braços.
— Fechar meu poço fecha a estalagem. Quem paga?
O decreto de Bella autorizava interdição, não compensação. Alice poderia mandar e partir; seria o tipo de autoridade que sempre desprezara.
— Quanto custa trazer água do rio?
— Duas carroças por dia. Mais fervura.
Finn abriu o manual de contas. Dara conhecia três famílias sem trabalho desde que a antiga balsa quebrara. Fizeram uma conta sobre a mesa da estalagem: Varo forneceria carroça, as famílias fariam transporte, a verba de inspeção pagaria lenha por quarenta dias. Depois, o município cobraria uma moeda por hóspede e nada por morador.
— Você usa meu negócio para financiar vila — disse Varo.
— Seu poço tenta matar a vila. Considere parceria.
Ele aceitou porque a alternativa era Alice pintar a porta de preto. Três dias depois, tentou reduzir o pagamento dos carregadores. Dara levou o contrato até a mesa e leu em voz alta diante dos hóspedes. Varo pagou.
O segundo poço ficava junto à oficina de Joa. Não tinha Ferrugem; tinha um carneiro morto no fundo. Finn passou uma manhã puxando o corpo e outra ouvindo piadas sobre seu primeiro trabalho de ponte.
— Ponte fica sobre água — protestou.
— Começa sabendo o que há embaixo — respondeu Joa.
Alice gostou dela por isso e desconfiou do próprio gosto. Queria que Finn permanecesse, portanto qualquer dureza que o fixasse ali parecia virtude. Vigiou a mestra durante uma semana: pagamento correto, comida suficiente, nenhum golpe. Só então parou de aparecer na oficina todo meio-dia.
A prensa chegou desmontada em vinte e três peças, duas sem marca. O rapaz contratado para copiar avisos chamava-se Ivo Dane e lia mais depressa do que trabalhava. Alice pagava por folha legível, não por hora. Ele passou a trabalhar.
Publicaram três avisos: como reconhecer sal contaminado; por que Coroados caírem não limpava solo; como registrar mortos sem entregar nome ritual. O quarto explicava que Alice não curava Ferrugem com toque, sangue ou criança. Foi o mais necessário.
Uma peregrina apareceu com o filho febril e exigiu que Alice pusesse a mão dele sobre o ventre.
— Ninguém transforma minha barriga em altar — disse Alice.
Examinou o menino. Tinha disenteria de água ruim, não Ferrugem. Ferveu casca de salgueiro para febre, preparou solução de sal puro e mel, e mostrou à mãe o poço seguro.
— Então não houve milagre?
— Houve você caminhar três léguas antes que ele secasse por dentro. Dê crédito às próprias pernas.
A mulher deixou dois ovos. Alice aceitou um.
Uma mulher tentou ajoelhar ao reconhecer Alice como a que quebrara Vharos.
— Levante — disse Alice. — Se quiser agradecer, ferva água.
O nome dela não entrou em moeda. Bella cumpriu essa parte.
Ao anoitecer, Alice cuidava da horta. Plantou alecrim-de-brejo, bolsa de pastor, erva-de-são-roque e cebola. O espinheiro roubava sol de metade do canteiro. Finn sugeriu podar. Alice cortou apenas os galhos que alcançavam a mesa.
Às vezes acordava no lado errado da cama. Deixou o outro lado vazio por meses, não como promessa a Lucas, mas porque o corpo ainda recusava ocupação. Quando um barqueiro chamado Emon a convidou para beber, Alice aceitou. Quando tentou beijá-la, ela recuou sem saber se medo ou falta de vontade. Emon não insistiu. Voltou na semana seguinte com um peixe.
A vida não esperava memória se recompor.
O parto começou durante uma inspeção de poço.
Alice estava ajoelhada sobre tábuas, mostrando a Dara oleira como recolher amostra sem tocar o balde na parede, quando uma contração dobrou sua cintura. Esperou passar e terminou a explicação.
— Você vai ter criança — disse Dara.
— Essa parte já sabíamos.
A segunda veio antes de chegarem à casa. Finn correu buscar Mestra Joa e voltou com metade da oficina atrás. Alice expulsou os aprendizes, ficou com Joa, Dara e uma parteira chamada Sena.
Do lado de fora, o espinheiro raspava a janela. Dentro, havia água fervida, panos, bolsa de pastor e a cama ainda vazia do lado direito.
O trabalho levou uma noite e metade da manhã. Alice conhecia a anatomia e odiou descobrir que conhecimento não diminuía dor. Em certo momento pediu a raposa por puro reflexo. O corpo respondeu com silêncio.
— Não consigo — disse.
Sena respondeu como se Alice falasse do parto.
— Consegue a próxima respiração.
Alice fez isso. Uma respiração, depois outra. Não houve demônio, linhagem ou luz ritual. Houve sangue, fezes, medo de rasgar e mãos humanas trocando panos.
Quando a criança nasceu, Sena anunciou uma menina. Alice pediu para vê-la antes de qualquer nome. Pele avermelhada comum, dedos completos, olhos fechados. Nenhum veio de Ferrugem.
Finn entrou depois de lavar as mãos três vezes.
— Como chama?
Alice olhou para a filha. O rosto não devolveu Lucas como memória; ainda assim, a cicatriz imaginada na sobrancelha futura apertou seu peito.
— Lira — disse. Curto o bastante para gritar da porta.
No registro de Lorn, escreveu apenas Lira. Deixou espaço para Venn, Ardel ou outro nome quando a menina pudesse escolher. Sena reclamou da irregularidade. Alice mostrou o decreto de Bella.
Enviou notícia a Lucas:
Lira nasceu viva. Eu também. Cabelo escuro. Grita com competência. O nome de casa fica aberto.
A resposta levou sete semanas.
Recebi. A renda está depositada. Obrigado pela notícia. Não irei sem convite.
Dentro havia um desenho pequeno de uma casa nas terras Ardel e as medidas do pomar, informação para uma herdeira futura, não promessa de lar. Alice guardou no baú de Lira.
Nos meses seguintes, o lado direito da cama deixou de parecer espera e virou lugar para cesto de fraldas. O corpo adaptou a ausência a outro uso. Às vezes, amamentando de madrugada, Alice chorava sem causa visível. Não contou a Lira que as lágrimas pertenciam ao pai. Não sabia se pertenciam.
Finn aprendeu a segurar a criança e a devolvê-la quando chorava.
— Ela me olha como morto — disse.
— Ela olha todo mundo como dívida de leite.
O primeiro inverno passou. Lira engordou. A ponte aguentou duas cheias. Alice e Emon, o barqueiro, beberam outra vez; não houve beijo, mas houve conversa que não precisava competir com história perdida.
Quando a terceira carta de Lucas chegou, Alice conseguiu deixá-la sobre a mesa até terminar de tratar uma queimadura. A distância começava a caber no dia sem governá-lo.
No começo do inverno, Sybelle escreveu.
A letra vinha firme no início e trêmula no fim. Contava que Mara talvez tivesse passado por uma vila costeira vinte anos antes; uma parteira lembrava fita amarela e família seguindo para oeste. Sybelle não pedia perdão. Perguntava se podia enviar sementes.
Alice ficou dois dias com a carta fechada depois de ler.
Respondeu:
Envie as sementes. Não venha.
Não perguntou por Mara. Vharos já usara aquela fome uma vez. Se procurasse, seria com testemunha, rota e escolha própria, não por promessa de devolver infância.
Finn recebeu notícia de Pedra-Fria: Colm fora nomeado auxiliar de Nessa nos armazéns e descobrira outro desvio de Ors. Odran mandou sete fórmulas de enterro e uma reclamação sobre joelhos. Bren enviou um dente de Coroado embrulhado em pano com a frase ainda há trabalho.
Lucas escreveu na estação certa.
Vivo. As minas continuam fechadas. Ouvi que Lorn levantou uma ponte antes da cheia. Espero notícias de Lira quando você decidir.
Alice respondeu:
Finn diz que a ponte ficou em pé por causa dele. Mestra Joa diz que ficou apesar dele. Ambos parecem felizes. Lira já segura meu dedo e se recusa a dormir quando seria conveniente.
Hesitou e acrescentou:
Às vezes meu corpo lembra uma ausência. Não é convite para contar.
A resposta veio um mês depois:
Entendido.
Uma única palavra. Alice encostou o polegar na tinta até borrar uma borda.
Na primeira manhã de degelo, ela subiu a colina acima de Lorn.
Lira dormia presa ao peito de Alice por uma faixa de linho. Finn carregava uma cesta de estacas para marcar o novo poço. A ponte aparecia abaixo, madeira clara sobre água cheia. Carroças passavam devagar.
— Ouvi alguém hoje — disse ele.
Alice parou.
— Morto?
— Talvez só memória. Chamou pelo nome que escolhi usar na oficina.
— O que fez?
— Pedi uma medida de viga. A voz errou.
Seguiram.
No topo, cinzas de uma fogueira antiga alimentavam espinheiros novos. Brotos vermelhos atravessavam a terra escura. Alice ajoelhou com dificuldade e verificou as folhas. Sem Ferrugem. Apenas planta fazendo o que planta fazia quando pássaro levava semente e chuva encontrava cinza.
Alice encontrou ali apenas uma planta, sem sinal de Vharos, Lucas ou criança e sem promessa de cura do reino. Tinha espinhos capazes de rasgar lã e raízes que segurariam o barranco durante cheia.
— Vamos deixar? — perguntou Finn.
— Deixe os que seguram terra. Corte os da passagem.
Ele começou a trabalhar.
Alice olhou para leste. Em algum lugar além das colinas, Lucas guardava metade de uma história. Ela poderia pedi-la um dia. Poderia também nunca pedir. A distância não parecia fecho; parecia medida concreta entre duas escolhas.
Lira acordou e empurrou o queixo contra a clavícula de Alice. Ela apoiou a mão nas costas pequenas até a menina aquietar.
Alice pensou na carta ainda fechada sobre a mesa de Lorn. Poderia haver apenas contas; poderia haver uma pergunta. Não precisava decidir no alto da colina. Pela primeira vez, adiar não pareceu medo nem estratégia herdada. Pareceu uma tarde ocupada, com poço para marcar e uma criança com fome.
Depois fincou a primeira estaca do poço novo.
O espinheiro crescia ao lado, sem coroa, altar ou nome ritual. Crescia porque encontrara chão.
Fim do Capítulo 34