Capítulo 31
Homem Sem História
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Capítulo 31
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Alice acordou do lado errado da cama.
Soube antes de abrir os olhos. Seu corpo procurava calor às costas e encontrou parede. A mão esquerda estendeu-se sobre o colchão até tocar um afundamento vazio do outro lado. Alguém costumava dormir ali ou ela esperava que alguém dormisse. Nenhuma imagem acompanhou a certeza.
Abriu os olhos.
O quarto tinha vigas queimadas, uma bacia de cobre e cortinas da casa Vale. Wenna dormia numa cadeira com a boca aberta. Uma panela esfriava sobre o braseiro. Alice tentou chamar a raposa para ouvir o corredor.
Nada respondeu.
O pânico veio tão rápido que ela arrancou a manta e caiu. Os joelhos não lembravam o próprio peso sem forma emprestada. Wenna despertou, chutou a panela e começou a praguejar.
— Devagar, senhora.
— Não me chame assim.
— Então pare de cair como nobre em missa.
Alice apalpou braços, rosto, ventre. O corpo estava inteiro. Um pequeno inchaço endurecia abaixo do umbigo. Gravidez. Lembrava-se de saber, de contar a Bren e Lucas...
O nome veio sem rosto.
— Quem é Lucas?
Wenna parou com o pano na mão.
— Vou buscar Odran.
— Primeiro responda.
— Homem alto. Escreve bonito. Come casca de queijo. Está no corredor há dois dias porque pediu para ninguém deixá-lo entrar antes de você acordar e escolher.
Alice segurou a cama. Os dedos encontraram uma farpa, mas a dor física não cobriu o buraco que se abrira.
— Pai da criança?
Wenna assentiu.
— Ao que dizem.
— E eu não lembro.
— Ao que dizem também.
Odran entrou carregando caldo. Bren veio atrás, braço numa tipoia. Finn espiava por baixo do cotovelo do caçador.
Alice deixou que Odran examinasse pupilas e pulso. Impediu Bren de apertar sua barriga com a mão boa.
— Sei reconhecer sangramento sem você.
— Bom sinal — disse ele. — Continua desagradável.
— Minhas formas?
Ninguém tentou mentir.
— Foram embora — respondeu Odran. — Como o texto avisava.
Alice fechou os olhos e chamou a garça até a cabeça doer. Nenhum gosto de água, nenhum formigamento na pele. Chorou por três animais antes de chorar pelo homem sem rosto, e odiou a ordem.
Finn sentou no chão perto da cama.
— Você escolheu — disse.
— Eu sei?
— Eu ouvi. A praça inteira ouviu.
— Isso não faz parecer escolha minha.
— Não. Só prova.
O menino tinha aprendido com notários. Alice pediu água. Quando segurou a caneca, percebeu uma mancha de tinta no lado do dedo médio. Esfregou. Não saiu. A mão lembrava uma pena guiada por outra mão.
— Quero vê-lo.
Bren abriu a porta.
Lucas entrou sem espada.
Era alto, cicatriz na sobrancelha, roupa limpa demais para os punhos ainda manchados de sangue. Alice reconheceu cada descrição que Wenna dera. O corpo fez outra coisa: a respiração prendeu, a pele da nuca aqueceu, a mão procurou a manta sobre as pernas. Intimidade sem história parecia invasão cometida por si mesma.
Ele parou longe da cama.
— Alice.
O modo como disse o nome provocou uma dor sem memória.
— Lucas Ardel?
— Sim.
— Pai?
— Sim.
Ele não acrescentou amante, companheiro ou testemunha. Alice agradeceu em silêncio e ressentiu-se por precisar agradecer.
— Conte metade — disse ela.
Lucas franziu a testa.
— Metade de quê?
— Se não contar nada, todos aqui sabem mais sobre meu corpo do que eu. Se contar tudo, troca memória por versão. Metade.
Ele puxou uma cadeira, mas esperou. Alice indicou o lugar perto da porta.
Lucas contou a estrada, não o romance. Disse que chegara ao brejo com documentos. Que Pedra-Fria queimara. Que Colm sobrevivera. Que formaram um grupo por necessidade. Falou de Salgária, Kess, minas e Calderis. Quando chegou à escolha de Toma, não suavizou:
— Preservei as provas enquanto ele estava sob pedra. Você tentou tirá-lo. Ele morreu. Minha escolha ajudou a expor Merrow e matou um homem identificável.
— Eu perdoei?
— Não.
— Bom.
Um canto da boca dele quase cedeu. Alice conheceu o movimento antes de saber por quê.
— Isso foi a metade pública — disse. — Falta a que me fez escolhê-lo.
Lucas olhou para as próprias mãos.
— Brigamos muito.
— Isso eu acreditaria sem testemunha.
— Você remendou minha camisa. Eu estraguei sua bota tentando consertar. Houve uma tenda.
Ele parou. Alice sentiu o corpo entender a palavra. As coxas apertaram, o rosto aqueceu.
— Não quero detalhes.
— Não daria.
— Eu quis?
— Você disse sim. Mais de uma vez. Perguntei sobre o amanhã. Você disse que sabia que existia.
Alice tocou o ventre. Não havia magia na resposta, apenas consequência.
— E quando contei da criança?
— Disse que era decisão sua. Pedi direito de ajudar sem direito de mandar.
— Parece fala ensaiada.
— Foi uma conversa pior que isso.
— Melhor.
Lucas retirou do casaco um maço de folhas amarrado por barbante.
— Escrevi antes do rito. Duas cópias. Esta tem o que fizemos na estrada e o que Ardel deve à criança. A outra tem o que eu lembro de nós.
— Qual está aí?
— A primeira.
Alice recebeu o papel. As letras dele causaram reconhecimento muscular. O polegar seguiu uma curva de tinta.
— Onde fica a outra?
— Comigo. Não entrego sem você pedir.
— E se nunca pedir?
Lucas respirou como se algo apertasse suas costelas.
— Continua comigo.
Ela abriu a primeira página. A confissão começava com bens: terras ainda reclamáveis na fronteira, renda de duas minas fechadas, direito de nome sem obrigação de usá-lo, tutela recusável. Depois vinham os crimes de Ardel, Toma e a assinatura de três notários.
— Você transformou paternidade em contrato.
— Era a parte que podia oferecer sem exigir sentimento.
Alice quis desprezá-lo. Em vez disso, sentiu alívio.
— Saia por enquanto.
Lucas levantou imediatamente. Na porta, ela chamou:
— Eu batia em você?
Ele tocou a própria face por reflexo.
— Uma vez.
— Pedi desculpa?
— Pediu.
— Você perdoou?
— Continuei desconfiando de sua mão por algum tempo.
— Bom.
Ele saiu.
Alice ficou três dias na cama e duas semanas reaprendendo o próprio peso.
Sem metamorfose, escada era escada. Frio alcançava pele sem pelo possível. Um cachorro latiu atrás dela no pátio e Alice virou procurando uma rota que exigiria quatro patas. Caiu sobre um cesto de lenha. Finn riu até perder o fôlego; depois ajudou a recolher cada graveto.
No quarto dia, Bella levou três notários para colher seu depoimento. Alice mandou que esperassem enquanto vomitava o caldo da manhã e lavava a boca.
— O reino pode aguardar uma bacia — disse.
Maela registrou também a frase.
Perguntaram se fora coagida, se conhecia o preço, se a gravidez participara do rito. Alice respondeu devagar. Conhecia a ameaça contra a cidade. Conhecia o custo provável, não a extensão exata. O círculo estivera aberto. A criança não fora nomeada como oferta, chave ou testemunha.
— Então por que escolheu memórias do pai? — perguntou Pell.
— Porque eram minhas, adultas e construídas sem ordem de sangue. Não porque ele fosse pai.
— O rito funcionaria se não estivesse grávida?
Odran, no canto, abriu a boca. Alice levantou a mão.
— Funcionaria. A gravidez aumentou meu medo e mudou o que virá depois. Não moveu uma pedra.
Nilo leu a resposta de volta. Alice corrigiu sacrifício materno para oferta voluntária de memória. Bella não protestou.
— Haverá gente preferindo a primeira versão — disse a rainha.
— Porque primeira versão vende santa e herdeiro.
— Exato.
— Então proíba.
— Proibir história costuma fortalecê-la.
Alice pediu que afixassem o depoimento junto ao texto do rito e multassem qualquer oficiante que exigisse gravidez em repetição futura. Maela sugeriu crime de coerção ritual. Bella aceitou.
Quando saíram, Alice encontrou Lucas no corredor. Ele ouvira tudo por uma porta aberta.
— Obrigada por não entrar — disse.
— Você não convidou.
— Antes eu precisava convidar?
— Depois da tenda, não para quartos que dividíamos. Para conversas difíceis, quase sempre.
Alice sentiu a curiosidade crescer.
— Isso foi contar?
— Foi. Desculpe.
Ela voltou ao quarto irritada consigo mesma por querer perguntar de que lado ele dormia.
No sexto dia, Wenna trocou os lençóis. A dobra que Alice deixava era sempre maior do lado direito.
— Quem dormia ali?
Wenna hesitou.
— O senhor Ardel, quando dormia.
— Roncava?
— Não sei. Não fico no quarto olhando casal.
Alice sentou na cama vazia.
— Tire a segunda almofada.
Wenna levou-a. Naquela noite, Alice não dormiu. O corpo procurou altura que já não existia e acordou a cada vez. Na manhã seguinte, pediu a almofada de volta e se odiou por isso.
Finn encontrou-a segurando o tecido contra o rosto.
— Cheira a sabão — disse Alice.
— Lucas pediu que lavassem tudo.
— Por quê?
— Para você não achar que cheiro era ordem.
Ela arremessou a almofada contra a parede.
— Até a delicadeza dele me encurrala.
Finn recolheu-a.
— Quer que eu diga que ele era horrível?
— Era?
— Às vezes. Escolheu papel e Toma morreu. Mandava eu lavar o pescoço. Contava história sem saber terminar.
— Melhor.
— Também dividia comida.
— Você estragou.
Finn pôs a almofada na cadeira.
— Não vou editar pessoa para caber no que você precisa.
Alice reconheceu ali alguma coisa que talvez tivesse ajudado a ensinar. Não soube qual parte.
Lucas não entrou sem convite. Enviava comida por Wenna, nunca bilhete. Alice reconhecia preferências que não lembrava ter formado: casca de pão mais escura, maçã menos verde, caldo sem gordura boiando. Às vezes devolvia o prato intocado só para provar que o corpo não mandava. Depois passava fome e se achava idiota.
Numa madrugada, acordou chorando com a mão sobre o lado vazio. Caminhou até o quarto de Lucas. Parou diante da porta e ouviu pena arranhando papel.
Não bateu.
Voltou para o quarto e abriu o alforje.
A camisa remendada estava no fundo. Alice a reconheceu como peça de Lucas pelo tamanho, não pela lembrança. Vestiu-a sobre a camisola. A barra chegou à metade das coxas. O corpo relaxou antes que ela pudesse impedir: ombros desceram, mandíbula soltou, respiração encontrou ritmo.
Alice arrancou a camisa.
Examinou a costura perto da barra. Pontos pequenos, regulares, feitos por sua mão. Um deles atravessava o tecido duas vezes porque alguém puxara o linho durante o trabalho. Ela soube que fora Lucas. Não viu a cena.
Pegou tesoura.
Ficou com a lâmina aberta sobre o primeiro ponto. Cortar seria transformar desconforto em prova de independência. Conservar parecia guardar relíquia de uma mulher morta que usava seu corpo.
Wenna entrou com água e encontrou Alice nessa posição.
— Se cortar, vai abrir a barra toda.
— Eu que costurei?
— Pelo acabamento, espero que não.
Alice quase sorriu.
— Costurei.
Wenna pousou a bacia.
— Então estava com pressa.
— Ou distraída.
— Isso explica homem alto.
— Você disse que não ficava olhando casal.
— Não preciso olhar panela para saber quando ferve.
Alice fechou a tesoura. Dobrou a camisa e colocou-a na cadeira, longe da cama.
No banho, encontrou outro resíduo. Havia uma área mais sensível na nuca; quando passou o pano, a pele arrepiou e trouxe uma expectativa de dedos. Tocou de novo até a sensação virar apenas pressão própria. Depois examinou as coxas, o ventre e a cicatriz do antebraço como se procurasse escrita escondida.
O corpo era testemunha sem linguagem. Podia dizer aqui houve toque, não quem tocara nem se ela quisera. Lucas dera sua versão e o rito público provara consentimento, mas Alice ressentiu-se por precisar de testemunha externa para acreditar no próprio prazer.
Sentou na água já fria.
Pensou em chamar Lucas e mandá-lo mostrar exatamente como a tocara. O desejo veio misturado a raiva. Ela poderia usar a culpa dele para obter uma noite, verificar se o corpo reconhecia o caminho e expulsá-lo depois. Parte dela gostou da ideia porque devolveria assimetria: ele sairia ferido e ela ganharia informação.
Alice esvaziou a bacia antes de agir.
Na manhã seguinte, levou a camisa até Lucas. Ele estava no pátio, afiando uma pena com faca pequena.
— Isto era seu.
Lucas olhou a peça sem pegá-la.
— Era.
— Eu usava?
— Às vezes.
— Por quê?
Ele limpou uma lasca da pena.
— Gostava.
— Resposta curta demais.
— Você pediu que eu não contasse.
— E agora estou perguntando.
Lucas pousou a faca.
— Usou na primeira noite. Depois roubava quando a sua estava molhada ou quando queria me irritar.
— Funcionava?
— Muito.
Alice estendeu a camisa.
— Fique.
— Não quero transformar em lembrança forçada.
— É roupa sua.
— Você remendou.
— Então rasgue o pedaço e divida como notário.
Ele riu. O som atingiu uma região vazia de Alice com força suficiente para fazê-la segurar a mesa.
Lucas parou imediatamente.
— Desculpe.
— Não peça desculpa por barulho.
— Você pareceu...
— Meu corpo fez coisa que não autorizou minha cabeça. Vai fazer de novo.
Ele assentiu, mas a culpa permaneceu no modo como fechou os dedos.
Alice deixou a camisa sobre a mesa.
— Guarde até eu partir. Depois ponha no alforje sem dizer.
— Isso é ordem contraditória.
— Você me conhecia. Devia estar acostumado.
Lucas tocou a costura, não a mão dela.
Alice voltou ao quarto com raiva por ele ter obedecido tão bem. Comeu pão duro até ferir a gengiva, lavou a bacia e dobrou três mantas que já estavam dobradas. Quando terminou, a camisa continuava ausente e o corpo continuava esperando seu peso.
Na manhã seguinte, pediu que ele a acompanhasse ao pátio. Caminharam sob a arcada, com dois braços de distância.
— Meu corpo espera você — disse Alice.
Lucas perdeu o passo.
— Eu não esperava que dissesse.
— Não confunda com convite.
— Não vou.
— É irritante que responda certo.
— Tenho prática de responder errado.
Ela olhou para as mãos dele. Tinta no dedo médio, no mesmo lugar que a sua.
— Talvez eu possa conhecer você de novo.
Esperança atravessou o rosto dele antes que conseguisse escondê-la. Alice odiou ser responsável por aquilo.
— Talvez — disse Lucas.
— E cada gesto seu viraria teste. Se gosto de pão queimado, você pensaria que voltei. Se não gosto, perderia outra vez. Eu viveria cercada pela mulher que fui.
— Posso não comparar.
— Pode tentar. Eu também tentaria arrancar sua lembrança por pergunta. Quem beijou primeiro, quem dormia de qual lado, que palavra eu usava. Construiria uma imitação com respostas.
Lucas apoiou a mão na mureta.
— O que quer?
— Separação. Agora, enquanto consigo escolher sem dever consolo.
Ele olhou para o jardim queimado. Um jardineiro retirava plantas mortas e empilhava raízes.
— A criança continua com direito ao que está nas folhas.
— Sim.
— Posso escrever para você sobre saúde, dinheiro e Ardel, sem contar nossa história?
— Pode. Uma carta por estação. Bella guarda cópia.
— Posso pedir para saber quando nascer?
Alice demorou. A criança mexeu, pequena contra a palma.
— Pode pedir. Eu respondo se quiser.
Lucas assentiu.
— Então concordo.
— Não precisa concordar com a separação.
— Preciso concordar com o que farei depois dela.
Sentaram na mureta sem se tocar. Lucas tirou uma maçã do bolso e cortou ao meio. Entregou uma parte. Alice mordeu. O gosto provocou lágrimas tão repentinas que ela ficou com raiva.
— Era uma coisa nossa?
— Comemos muitas na estrada.
— Isso já foi contar demais.
— Desculpe.
Ela terminou a fruta mesmo assim.
No dia da alta, Lucas levou o alforje até a escada e parou.
Finn esperava no pátio com duas bolsas e três planos incompatíveis para o próprio futuro. Bren discutia com um carroceiro sobre sal contaminado. Odran preparava enterros. Calderis não oferecia espaço para despedida limpa.
Lucas entregou a Alice metade das folhas.
— Esta é sua.
— E a outra?
Ele tocou o interior do casaco.
— Fica comigo.
Alice guardou o maço. A mão roçou a dele. Seu corpo lembrou pressão, calor e segurança; a cabeça viu um homem tentando não transformar dor em argumento.
— Não sei o que perdi — disse.
— Eu sei.
— Não use isso contra mim.
— Não uso.
— Pode ficar com raiva.
— Já estou.
A honestidade ajudou mais que gentileza.
Alice desceu. No último degrau, olhou para trás. Lucas permanecia no alto, uma mão fechada sobre a outra metade da história. Ela não sentiu saudade. Sentiu luto, bruto e sem objeto, e aceitou que o corpo chorasse por alguém que a memória não conhecia.
Depois atravessou o pátio para ajudar a enterrar os mortos.
Fim do Capítulo 31