Capítulo 27
Cerco
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Capítulo 27
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O terceiro barril de água tinha gosto de cobre.
Alice cuspiu no chão do depósito e viu uma película vermelha abrir-se sobre a pedra. O carregador que esperava seu veredito, Tavian, apertou o gorro entre as mãos. Tinha farinha nos cílios e um corte novo no queixo.
— Esse veio do poço da praça?
— Do poço dos curtidores. A praça secou antes do meio-dia.
Alice mergulhou uma colher de madeira outra vez. O cheiro bastava, agora que sabia onde procurar: ferro molhado, igreja fechada, sangue deixado no fundo de uma bacia.
— Levem para fora da muralha interna e marquem com tinta preta. Ninguém bebe, ninguém cozinha, ninguém joga no fogo.
— Água é água — protestou um soldado.
Bren empurrou-se para longe da pilastra onde limpava a lâmina.
— Beba primeiro. Se amanhã seus dentes ainda estiverem dentro da boca, revisamos a regra.
O soldado não bebeu.
O pátio da casa Vale virara armazém, enfermaria e curral. Sacos de grão fechavam duas janelas. Feridos ocupavam a galeria. Três cabras mastigavam um estandarte de Thorne no canto, e ninguém tinha energia para salvar a honra da casa inimiga. Alice riscava contas numa porta arrancada: doze barris limpos, oito suspeitos, trinta e sete sacos de cevada, onze de aveia, quatro de sal grosso puro. O sal acabaria primeiro. Odran precisava dele para os mortos; Bren, para as ruas; Bella, para conservar carne. Os vivos disputavam com os mortos até o tempero.
— Duas medidas para cada barricada — disse Alice. — Uma para as cozinhas. Odran fica com o restante.
O intendente de Bella, Ors Dey, ergueu o queixo.
— A guarda recebe prioridade.
— A guarda não luta se passar a noite cagando água ferrugenta.
— Minhas ordens vieram da regente.
— E o gosto veio do barril. Escolha qual mata mais depressa.
Bella apareceu no alto da escada, usando a mesma armadura havia dois dias. Sangue escurecia uma das fivelas. Ela escutou Ors repetir a disputa sem interromper e desceu enquanto arrancava a luva com os dentes.
— Alice decide a água — disse. — Ors decide o grão. Se algum dos dois roubar da conta, mando o outro escolher o dedo cortado.
— Isso é governo? — perguntou Bren.
— Governo é ameaça registrada por escriba.
Lucas entrou pelo portão com seis homens e uma carroça sem uma roda. Colm vinha sentado sobre os sacos, magro demais para a cota de couro que alguém lhe dera. Alice demorou um instante para reconhecê-lo. O menino de Pedra-Fria crescera pouco; perdera a redondeza do rosto e ganhara uma cicatriz branca junto à orelha.
— Encontramos o celeiro de São Oris — disse Lucas. — Os padres tinham selado a porta e levado a chave.
Colm ergueu um martelo.
— A porta não sabia.
— Quantos sacos? — perguntou Ors.
— Vinte e nove aproveitáveis. Sete com rato, três com Ferrugem.
Alice foi até a carroça. Colm desceu antes que ela pudesse ajudá-lo.
— Você devia estar com os refugiados da porta oeste.
— A porta oeste caiu.
— Então devia estar longe daqui.
— Toda vez que um adulto diz longe, quer dizer outro lugar onde não vai olhar.
Lucas escondeu mal um cansaço que quase era sorriso. Alice tocou o ombro de Colm, pediu licença com o olhar e examinou as pupilas, a boca, as unhas. Nenhum veio vermelho.
— Carregou saco?
— Só os leves.
— Está mentindo.
— Aprendi na estrada.
O chão tremeu. Das ruas baixas veio o ruído de muitas correntes arrastadas no mesmo compasso. As cabras pararam de mastigar. Finn, encolhido junto à cisterna, levou as mãos aos ouvidos.
— Eles mudaram — disse. — O Coroado do sino chamou os Enlaçados.
Bren guardou a faca.
— Quantos?
— Não contam como gente. Contam como uma culpa grande.
Bella ordenou que fechassem o portão. Alice tomou de Tavian o pedaço de carvão e traçou uma linha sob a conta da água. Logística era uma palavra nobre para escolher quem sentiria sede.
O Enlaçado atravessou a Rua dos Tintureiros levando metade de uma carroça presa às costas.
Corpos de soldados, raízes arrancadas e placas de armadura formavam um animal sem espécie. Uma roda girava junto ao ombro e batia nos crânios fundidos a cada passo. Atrás dele vinham Rastejantes em batinas, as bocas cheias de cinza.
Bren espalhara uma faixa de sal de parede a parede. O monstro pisou nela, fumegou e continuou.
— Eu disse que não matava — gritou ele.
— Podia ter dito mais alto — respondeu Alice.
Ela e Lucas seguravam uma mesa virada contra uma porta. Do outro lado, dezessete civis esperavam passagem para o pátio Vale: lavadeiras, dois aprendizes de ferreiro, uma velha com um galo dentro do avental. A linha de defesa recuava depressa demais.
Cade apareceu na sacada da capela com um livro acorrentado ao pulso. Lia nomes de mortos absolvidos, tentando separar do Enlaçado os corpos que ainda respondiam ao rito. O primeiro nome não fez nada. O segundo arrancou um gemido de uma cabeça presa ao quadril da criatura. No terceiro, um braço caiu.
— Continue! — berrou Odran.
O velho acendia pequenos fogos em tigelas de barro. Não usava o cântico da catedral; dizia apenas nome, ofício e testemunha. Jorin Tal, tanoeiro, reconhecido por Mera Tal. Pess Varo, lavadeira, reconhecida pela irmã. Cada reconhecimento soltava um morto ou fazia o monstro hesitar.
O Coroado surgiu atrás dele.
Usava a mitra de cobre fundida ao crânio. A mandíbula pendia de um lado, mas a voz saiu clara.
— Odran de Salgária. Abandonou o altar no décimo nono ano. Deixou seis sem fogo.
Odran errou a próxima palavra.
A rua respondeu. Mãos saíram das juntas do Enlaçado e agarraram Cade pela batina. O rapaz bateu contra o parapeito; o livro caiu, preso pela corrente.
Alice sentiu a raposa subir como gosto de carne crua. Uma memória se apresentou com ela: Lucas cortando a casca dura do queijo na tenda. Empurrá-la ao espírito abriria quatro patas e perderia aquela noite inteira. Ela segurou a forma até as unhas doerem.
— Corda! — gritou.
Lucas já a lançava. Cade agarrou com a mão livre. Alice e Colm puxaram enquanto Bren atirava óleo sobre as pernas do Enlaçado. O fogo correu mal, abafado pela carne úmida.
Uma das lavadeiras saiu de trás da mesa. Era Dara Mott, que distribuíra sopa no pátio na noite anterior. Levava uma pá de forno.
— Meu marido está aí — disse.
Apontou para um rosto no peito da criatura.
— Diga o nome a Odran — pediu Alice.
— Harl Mott. Pedreiro. Roncava e roubava cobertor.
Odran repetiu. Dara enfiou a pá na boca do marido quando ela se abriu para mordê-la. Bren despejou o último óleo. O fogo pegou pelo cabo e subiu.
Harl foi o primeiro a se desprender. Caiu aos pés de Dara, queimando. Ela não recuou até Alice arrastá-la pelo cinto.
O Enlaçado tombou contra uma casa. A parede cedeu. Cade desceu da sacada pela corda, mas uma pedra atingiu Tavian, o carregador de farinha, no pescoço. Ele caiu sentado, ainda segurando um saco pequeno de sal contra o peito.
Alice ajoelhou ao lado dele. O sangue saía em pulsos grossos demais. Pressionou com as duas mãos, sabendo pela força do jato que não bastaria.
— Minha irmã está no pátio — disse Tavian. — Nessa, cabelo vermelho.
— Eu digo a ela.
— Diga que não bebi.
Ele tentou rir. O sangue entrou na boca. Alice manteve a pressão até o pulso parar, porque retirar as mãos antes parecia uma indecência.
Quando se levantou, o Coroado fugia para a catedral com metade dos Rastejantes. Bren quis seguir.
— Não — disse Alice. — Levamos os vivos.
— Ele chama outro Enlaçado.
— E os dezessete atrás da porta viram dezoito cadáveres se ficarmos.
Bren olhou para Tavian. Recolheu o saco de sal dos braços dele e assentiu.
Dara carregou Harl numa manta, embora Odran dissesse que o corpo precisava queimar. Colm levou o galo da velha. Lucas ficou por último, espada numa mão, livro de Cade na outra. Quando alcançaram o pátio, Nessa reconheceu o gorro do irmão preso ao cinto de Alice.
Alice não procurou palavra boa. Entregou o gorro e disse onde ele morrera.
Nessa não chorou. Enfiou o gorro no avental, atravessou o pátio e encontrou Ors Dey medindo cevada com uma concha rachada.
— Meu irmão morreu buscando teu sal — disse. — Minha família recebe o quê?
Ors não parou de trabalhar.
— As rações de um carregador cessam no dia da morte.
Alice tomou a concha da mão dele. Um grão preso na rachadura caiu sobre sua bota.
— Repete.
— O regulamento do cerco...
— Foi escrito antes de mortos usarem bispo como chapéu.
Bella veio da galeria, ainda retirando sangue seco da fivela com a unha. Ors recitou o regulamento para ela. Nessa manteve as mãos no avental; os nós dos dedos empurravam o tecido onde escondera o gorro.
— Tavian tinha dependentes? — perguntou Bella.
— Eu e nossa mãe. Ela não anda desde o inverno.
— Uma ração por dependente durante trinta dias.
Nessa deu um passo à frente.
— Ele valia sessenta refeições?
— Vale o que consigo entregar hoje.
— Você queimou quatro ruas e prometeu terra de cais. Meu irmão ganha papa.
Bella olhou para Alice. Alice sentiu um prazer pequeno e vergonhoso ao ver outra pessoa apertar a regente contra a própria conta.
— Dê a ela o posto dele — disse Alice. — Salário, acesso ao armazém e autoridade para conferir concha.
Ors ergueu a cabeça.
— Ela não sabe registrar.
— Sei contar saco — respondeu Nessa. — E sei quando intendente usa a concha funda para guarda e a rasa para refugiado.
O pátio ficou quieto o bastante para ouvirem uma cabra mastigar pano.
Bella examinou as duas conchas penduradas no cinto de Ors. Mandou um guarda trazê-las. A diferença era de quase dois dedos.
— A funda é medida militar — disse Ors.
— Agora é medida pública — respondeu Bella. — Nessa confere. Você ensina as marcas. Se faltar grão, ambos respondem.
Nessa aceitou sem agradecer. Tomou a concha funda e começou pela fila das crianças.
Alice lavou o sangue de Tavian numa bacia. A água ficou rosa e depois vermelha. Quando tentou trocar, um criado chamado Pellot segurou o balde.
— Só temos meio barril para a enfermaria.
Ela esfregou as mãos com cinza seca. Sangue permaneceu nas unhas. Quis achar Lucas, encostar as palmas no casaco dele e deixar outra pessoa carregar o que vira. Em vez disso, voltou a Dara.
A viúva sentara no chão com a manta de Harl no colo. A pá chamuscada repousava sobre os joelhos.
— Odran quer queimar agora — disse Alice.
— Harl odiava pressa. Levava uma manhã para pôr pedra que outro homem punha em hora.
— Era bom pedreiro?
— Parede dele não caía. Cliente envelhecia esperando.
Alice ajudou Dara a limpar cinza da boca do morto. Encontraram entre os dentes um pedaço de argamassa e uma linha de lã azul. Dara retirou ambos com a ponta da pá.
— Ele dizia que voltava cedo no dia em que morreu — contou. — Mandei trazer cebola. Brigamos porque trouxe nabo.
Alice pensou em Lucas cortando casca de queijo e sentiu a raposa arranhar por dentro, atraída pela memória que ela quase gastara. Guardar o detalhe agora parecia avareza; oferecê-lo mais tarde, mutilação planejada. Continuou limpando Harl.
— Nabo dura mais — disse.
— Cebola dá gosto.
— Morto escolhe mal mercado.
Dara soltou uma risada que virou tosse. Depois chorou com o rosto escondido na manta. Alice ficou ao lado, raspando a pá com uma faca. Não prometeu que Harl descansaria nem que o rito resolveria o que sobrara. Quando a lâmina terminou de tirar a crosta, a pá ainda estava escura.
Colm apareceu com o galo debaixo do braço.
— A velha morreu — disse. — Coração. Sem mordida.
Alice fechou os olhos. Mais um corpo, mais sal.
— Nome?
— Tessa Rul. O galo chama Rei.
Dara enxugou o rosto.
— Ponha Tessa com Harl. Eu testemunho que ela escondeu dezessete pessoas atrás da porta.
Odran recebeu os dois nomes. Nessa trouxe uma medida de sal contada na concha funda. Quando Ors tentou protestar, ela mostrou o gorro de Tavian e ele decidiu guardar a voz.
Naquela noite, comeram papa rala sem sal.
Bella dividiu o salão por ofício. Ferreiros perto da lareira; curandeiros junto às janelas; crianças no centro, longe das portas. Alice costurou o couro cabeludo de Cade enquanto ele segurava o livro entre os joelhos.
— Merrow arrancou a terceira folha — disse ele. — A do Último Sangue. Guardou no altar inferior.
— Sabe o texto?
— Copiei uma vez. A oferta precisa ser escolhida diante de testemunha viva, e a testemunha não pode pedir o que será dado. O nome herdado é escrito com cinza de absolvido. O vínculo escolhido é nomeado por quem oferece. Há uma frase depois: “O que foi dado sem herança não pode ser herdado pelo Confessor.”
Alice apertou o último ponto. Cade gemeu.
— Lembra de mais alguma coisa?
— “A porta abre por forma emprestada e fecha quando a forma perde o nome.”
Odran, sentado ao lado, esfregou as pálpebras.
— Confirma as folhas de Sybelle. E explica por que a metamorfa não volta metamorfa.
Lucas pousou sobre a mesa um mapa dos túneis. Tinha carvão no rosto e uma faixa improvisada no antebraço.
— A escada dos noviços ainda está livre. Entramos antes do amanhecer.
— Eu entro — disse Alice.
— Nós.
— A testemunha fica no limiar.
— Limiar não é rua.
— Para Vharos, pode ser a mesma coisa.
Lucas prendeu o mapa com a tigela vazia.
— Você quer que eu espere enquanto desce para uma coisa que arrancou cidades da terra.
— Quero que faça a única parte que o rito manda.
— O rito escrito pela instituição que mentiu sobre ele.
— Confirmado por Sybelle, pelas minas e por Cade. Três fontes; você gosta desse número.
Ele se levantou. A cadeira raspou.
— Gosto de fontes quando elas não pedem que eu entregue uma pessoa.
Alice sentiu a resposta formar-se com a voz de Sybelle: pessoa é recurso quando a conta exige. Mordeu a parte interna da bochecha até a frase morrer.
— Você entra comigo, Vharos lê sua casa. Ardel está na raiz do pacto. Ele usa o que seu pai fez e você tenta responder. Então deixa de ser testemunha e vira alimento.
— E se ele usar o que você sente por mim?
— Vai usar de qualquer forma.
Lucas apoiou ambas as mãos na mesa.
— Então deixe Finn testemunhar.
O menino, junto à lareira, ergueu a cabeça.
— Não — disseram Alice e Odran ao mesmo tempo.
Finn veio até a mesa.
— Estou aqui.
— Você é uma fresta para ele — disse Alice.
— Também sou a pessoa sobre quem estão falando como se eu fosse banco.
A farpa acertou. Alice tirou a mão do mapa.
— Tem razão. Quer testemunhar?
Finn olhou para a catedral pela janela quebrada. Remendos de pano batiam no caixilho.
— Não. Quero ir para um lugar onde morto nenhum saiba meu nome. Mas posso levar a folha para a praça quando vocês entrarem.
Bella aproximou-se com Ors e dois guardas.
— Isso eu aceito. A praça terá os três notários, soldados de Oren e todos os padres de bairro que não fugiram. Se o pacto aparecer, será lido sob selo.
— Aparecer como? — perguntou Lucas.
Cade abriu o livro. Mostrou uma iluminura desbotada: o altar inferior ligado por tubos de cobre ao grande braseiro da praça, usado em coroações e penitências públicas.
— A catedral foi construída para exibir confissões. O altar grava voz no cobre quando recebe sangue sob nome ritual. Os tubos levam ao braseiro. Merrow usava em segredo para fazer a praça ouvir condenados.
Bella sorriu sem humor.
— Então usamos o púlpito deles.
Do portão veio uma discussão. Nessa exigia o corpo do irmão; Odran dizia que Tavian precisava do fogo antes do amanhecer. Alice saiu para resolver e encontrou Dara sentada ao lado da manta de Harl. Duas mulheres, dois mortos, uma tigela de sal entre elas.
Odran ajoelhou com dificuldade.
— Posso fazer o rito sem Merrow — disse. — Não posso fingir que o rito nunca serviu para coisa alguma.
Nessa entregou o gorro de Tavian ao fogo primeiro. Dara ofereceu a pá chamuscada. Odran disse os nomes sem absolver culpas que não conhecia. Quando as chamas cresceram, Alice ficou até o fim.
Antes do amanhecer, restavam três barris de água limpa.
Alice bebeu meia caneca e entregou o restante a Colm. Ele tentou recusar.
— Não vou à catedral — disse ela. — Vou ao oeste com a caravana.
— Você vai mentir melhor quando tiver barba.
Colm bebeu.
Bren distribuiu sal em bolsas pequenas. Odran levou cinza dos mortos absolvidos naquela noite. Cade guardou o livro sob a batina. Finn recebeu a terceira folha copiada de memória, os dedos tremendo apesar da pose.
Lucas encontrou Alice no corredor dos barris. Ela contava as saídas quando ele pôs um embrulho sobre uma tampa. Dentro havia pão escuro, queijo e a camisa que Alice remendara na tenda.
— Por que trouxe isso?
— Porque você esquece de comer antes de virar animal.
Ela rasgou o pão. Estava duro e tinha gosto de fumaça. Comeu mesmo assim.
— Não vou pedir que fique — disse Lucas. — O texto proíbe.
— Você quer.
— Quero muitas coisas ruins para você. Quero amarrá-la num cavalo, mandar Bella fechar os portões, convencer Odran de que leu errado. Nenhuma vira direito porque consigo nomeá-la.
Alice dobrou a camisa e guardou-a no alforje.
— Você fica no limiar.
— Fico.
— Se eu mandar correr?
— Vou avaliar a qualidade da ordem.
— Irritante.
— Aceito como despedida provisória.
Ela quis beijá-lo. Quis também poupá-lo de acrescentar uma lembrança na véspera de talvez perder todas. O pensamento era feio: se a memória fosse moeda, quanto menos possuísse, menor o preço. Lucas ergueu a mão, mas esperou.
Alice tomou os dedos dele e os levou ao próprio ventre. A criança não se moveu; era cedo demais para oferecer gesto bonito.
— Isto não abre porta — disse. — Não corta fio, não compra Vharos.
— Eu sei.
— Tenho medo de esquecer você e usar a criança para preencher o buraco.
— Então escreva que não deve.
— Papel manda pouco.
— Ainda assim, às vezes impede que mentira seja a única voz.
Alice soltou a mão dele.
Na rua, o sino rachado bateu sozinho. Bren chamou. A escada dos noviços ficaria acessível por menos de uma hora.
Alice apertou a bolsa de sal, conferiu a faca de sino e seguiu. Lucas caminhou ao lado, sem tomar a frente. Atrás deles, Nessa e Dara alimentavam os fogos dos mortos. Ors repartia a última cevada. Colm carregava água para quem defenderia a praça.
Calderis não tinha sido salva. Continuava viva o bastante para discutir quem pagaria o próximo gole.
Fim do Capítulo 27