Capítulo 24
Negar Perdão
13 min read
Carregando capítulo...
Capítulo 24
13 min read
Carregando capítulo...
O quinquagésimo segundo nome era Lysa Perr.
Alice escreveu devagar. A pena arranhou o papel onde a tinta começava a secar no bico. Do lado de fora, a chuva tinha parado, e a água escorria do telhado para o tonel com intervalos tão regulares que lembravam uma contagem.
Sybelle corrigiu uma letra.
— Dois erres.
Alice riscou o nome e escreveu de novo.
— Faz diferença para quem morreu?
— Faz para quem procura.
— Você impediu que procurassem.
Bren dormia sentado junto à porta, ou fingia. A faca continuava atravessada sobre o colo. A claridade do amanhecer mostrava lama seca nas botas e fios brancos na barba.
Alice abriu o livro na primeira página. Sybelle registrara dose, reação, duração e destino. Algumas linhas terminavam em absolvido. Muitas diziam transferido. Doze tinham apenas um círculo rubro.
— O círculo.
Sybelle mexeu nas brasas.
— Reivindicado.
— Palavra de confessor.
— Morto devolvido à cela depois de o Fogo falhar. Vharos falava através deles.
— E você perguntava.
— Perguntava como cortar a reivindicação.
— Depois de provocá-la.
Sybelle colocou água no bule. As mãos tremiam agora, um tremor pequeno que a xícara conseguiria esconder.
— Eu acreditava que podia aprender a conter a Ferrugem usando condenados que a Igreja já mataria. Depois passei a escolher quem recebia absolvição e quem servia à próxima pergunta. Quando percebi a troca, já chamava crueldade de método.
Alice esperara a vida inteira por uma frase parecida. Ela chegou sem consertar coisa alguma.
— A Igreja ia oferecer você.
— Merrow ainda era jovem, escrivão do confessor de fronteira. Encontrou referência ao Último Sangue e concluiu que uma linhagem de metamorfas podia entrar no domínio sem ser lida inteira. Quiseram meu nome, minhas formas e tudo que eu guardava de quem amava. Disseram que seria honra.
— Você fugiu.
— Eu estava grávida.
A pena parou.
Sybelle olhou para o ventre de Alice, mas não tentou falar dele.
— De mim.
— De ti.
— Quem era meu pai?
— Um homem que me ajudou a abrir a primeira cela e morreu dentro dela.
Alice sentiu frio nas mãos.
— Nome.
— Aelian Senn.
A parte incompleta do registro apareceu na memória: Alice Aeli—. O corte escondia um patronímico, em vez de um segundo nome.
— Parente de Mara?
Sybelle fechou os olhos.
— Irmão mais velho da mãe dela.
O buraco ganhou bordas novas. Sybelle não arrancara apenas uma amiga; arrancara uma menina ligada ao pai que Alice nunca soubera nomear.
— Mara sabia?
— A mãe contou quando percebeu quem eras. A menina começou a fazer perguntas. Eu temi que os registros chegassem até ti por ela.
— Então abriu minha cabeça.
— Sim.
Nenhuma defesa. Alice quis que a mãe voltasse a lutar para que pudesse golpeá-la. A concordância deixou a faca sem alvo.
Bren abriu os olhos.
— Aelian morreu antes da fuga?
— Na noite. Vharos usou a boca dele para dizer meu nome ritual. Eu queimei o corpo sem terminar a absolvição. A Ferrugem entrou no esgoto da prisão. Foi o primeiro surto que não conseguimos fechar.
— A culpa é sua — disse Alice.
— Parte dela.
— Não divida agora.
— Minha — corrigiu Sybelle. — A decisão foi minha.
As folhas de liturgia antiga não completavam o rito. Uma trazia preparação de um limiar: nome da linhagem escrito em cinza de osso absolvido; sal puro em círculo aberto para permitir saída; testemunha viva do vínculo escolhido. A outra fora cortada antes da oferta.
— Por que círculo aberto? — perguntou Alice.
— Vharos se alimenta de juramento fechado. Toda forma completa parece propriedade. Entrada sem saída vira entrega.
— E a testemunha?
— Impede a Igreja de chamar coerção de vontade.
Bren se levantou.
— Isso não explica memória.
Sybelle tocou a linha quebrada.
— Vharos lê herança: nome de nascimento, dívida de sangue, o que mãe ensina à filha e casa ensina ao herdeiro. Memória escolhida é coisa que ele não concede nem transmite. Pode ser oferecida contra a reivindicação.
Alice pensou em Lucas soltando os pontos da bota, em Finn roubando queijo, em Odran escolhendo um vivo no lugar do enterro completo. Coisas pequenas, acumuladas sem ordem de sangue.
— O texto das minas dizia que o devedor perde a forma emprestada.
— Os espíritos reconhecem você pelas lembranças pagas e pelas que restam. Se cortar a linhagem, talvez não reconheçam mais.
— Talvez.
— Nunca foi feito por alguém que voltou para contar.
— Então continua incompleto.
— Merrow tem a terceira folha, no livro acorrentado sob a catedral. Eu trouxe duas quando fugi. Deixei a que descrevia a oferta porque Aelian estava morto, e eu não tinha vínculo escolhido que aceitasse perder.
Alice ouviu o que a mãe tentava oferecer sem dizer: um mapa até a cripta, a preparação, o nome de Aelian. Informação capaz de salvar e de empurrá-la para o mesmo buraco.
— O nome inteiro que Vharos quer — disse ela. — É Aelian?
— É parte. O registro completo prende teu nome ao meu, ao dele e ao pacto da Igreja. Alice Aeliana Venn, sangue confessado sob o fogo rubro. Eu convenci o escrivão de Salgária a raspar a última linha e depois apaguei a memória dele.
— Sou maior que um nome ritual.
— Para Vharos, é a alça por onde tenta carregar o resto.
Alice copiou a frase exata. Não a pronunciou. Dobrou o papel quatro vezes e o guardou numa bolsa de couro separada.
— Finn ouviu que ele quer meu nome.
— Finn esteve morto. Vharos sente o espaço onde o rito não terminou.
— O menino é criança, longe de ser porta.
— É fresta. Merrow pode usá-lo para apontar você.
Alice se levantou tão depressa que a cadeira caiu.
— Isso você guardou até agora?
— Eu precisava que acreditasses no resto.
— Ainda escolhe quando a verdade pode respirar.
Sybelle abriu as mãos.
— Se eu despejasse tudo quando chegaste, terias ido embora.
— Era meu direito.
— E morrerias sem saber preparar o limiar.
— Meu direito também.
Bren recolheu as cópias, deixando os originais sobre a mesa.
— Cavalos precisam descansar até o meio-dia — disse. — Depois partimos.
Alice entendeu a ajuda. Havia horas suficientes para terminar; não havia outra viagem, outro retorno conveniente. O que não fosse dito naquela manhã ficaria com Sybelle.
Sybelle levou Alice até o salgueiro.
Sob uma raiz grossa havia uma caixa de pedra pequena. A mãe retirou um cordão com três contas: osso de garça, vértebra de víbora, dente de raposa.
— Era de Aelian.
Alice não pegou.
— Ele era metamorfo?
— O último da família Senn. Eu aprendi com ele. Depois ensinei você como se tudo viesse de mim.
— Claro.
Sybelle pousou o cordão na raiz.
— Quando assumires forma perto de Vharos, nomes humanos vão escorregar primeiro. Leva alguém que possa chamar pelo que escolheste fazer, não pelo sangue.
— Lucas.
A mãe não fez careta, e isso pareceu esforço.
— Ou Finn. O menino te vê sem a versão que eu construí.
— E você quer ir?
Sybelle ergueu o rosto.
— Quero.
— Não vai.
— Conheço a cripta.
— Merrow conhece você. Vharos conhece a dívida. Sua presença dá a ambos uma corrente.
— Posso servir de distração.
— Ainda quer escolher como morre.
— Quero reparar.
— Quer trocar cinquenta e dois nomes por uma morte bonita.
Sybelle segurou o tronco. A casca marcou a palma.
— Então o que permites que eu faça?
Alice odiou a pergunta. Sybelle vestia submissão porque controle direto deixara de funcionar.
— Escreve tudo. Aelian, Mara, Lysa, Emon, as celas, Merrow. Escreve onde estão os corpos e quais receberam rito incompleto. Assina cada página com o nome de Confessora Velada. Bren leva uma cópia; eu levo outra.
— E depois?
— Vive.
— Isso é punição.
— É consequência. Punição seria eu fingir que sei equilibrar a conta.
Sybelle sentou na raiz. Parecia cansada, não frágil. Alice se lembrou das mãos dela costurando feridas, segurando seu rosto durante febre, apertando seu pulso antes da primeira transformação. Afeto e dano ocupavam os mesmos dedos.
— Há mais uma coisa — disse a mãe. — Quando te mandei com Lucas, apagar provas era só parte do motivo. Eu sabia que as minas tinham parte do texto. Esperava que encontrasses e fizesses o que eu não fiz.
— Desde o começo.
— Sim.
— Pedra-Fria, Colm, Finn, Toma. Todos entraram numa rota que você escolheu sem contar o destino.
— Eu não podia prever.
— Previu o bastante para me usar.
— Criei-te para sobreviver onde eu falhei.
— Criou uma filha e chamou de preparo toda vez que precisava de ferramenta.
Sybelle chorou sem ruído. Uma lágrima desceu até o queixo. Alice sentiu o impulso antigo de limpar o rosto da mãe e teve nojo de si mesma por um instante. Depois teve nojo do nojo. Nenhum dos dois ajudava.
Sybelle escreveu até o sol ficar alto.
Bren encerou as cópias e guardou cada uma em alforje diferente. Alice levou o livro dos cinquenta e dois nomes, as duas folhas do rito, o nome completo escrito sem ser pronunciado e o cordão de Aelian. Pegou o cordão apenas quando já estava junto ao cavalo.
Na soleira, Sybelle entregou uma pequena faca de lâmina escura.
— Ferro de sino antigo. Corta fio ritual se aquecido no Fogo Penitente.
Alice examinou a lâmina.
— Testou?
— Em corrente de cela. Não em Vharos.
— Então é ferramenta, não resposta.
— Sim.
Guardou-a no alforje, longe do corpo.
Sybelle ajoelhou na lama. O gesto não tinha santidade; os joelhos estalaram e a barra da saia afundou na água.
— Perdoa — disse.
Alice segurou as rédeas. O cavalo mastigava junco, indiferente.
— Não.
Os ombros da mãe caíram. Pela primeira vez, ela não pareceu mestra aguardando a resposta certa.
— Eu sabia.
— Se soubesse, não teria pedido. Ainda quer que eu faça uma coisa dentro de mim para aliviar o que existe dentro de você.
— Não sei viver sem pedir.
— Aprende. Mandou que eu aprendesse coisas piores.
Sybelle ergueu o rosto.
— Vai voltar?
Alice pensou em dizer nunca. Seria promessa, e promessas quebradas tinham fome.
— Não sei.
— E a criança?
A mão de Alice se fechou nas rédeas.
— Você não fala dela. Não dá conselho, não oferece treino, não escolhe nome. Se um dia chegar perto, será quando eu convidar.
— Não quer repetir o que fiz.
— Já repito quando controlo Finn para protegê-lo. Quando escondo de Lucas porque quero escolher a hora perfeita. A diferença é que reconheço a armadilha antes de chamar de amor.
Sybelle recebeu o golpe. Não contestou.
Alice montou. Bren seguiu primeiro pela trilha, dando a ela espaço. A porta da cabana ficou aberta. Sybelle permaneceu ajoelhada até a curva esconder metade do corpo.
Alice olhou uma vez. Viu a mãe pequena entre o salgueiro e a fumaça, viva, sem absolvição e sem morte útil.
Depois virou para a estrada de Calderis.
Não voltaria à capital para então regressar ao brejo. A viagem tinha uma direção agora. Levava três dias, cinquenta e dois nomes e uma informação capaz de preparar um limiar sem completar o rito.
No primeiro alto seco, Bren parou para dividir pão. Alice comeu uma maçã e contou a ele sobre a gravidez. Precisava que alguém na estrada soubesse caso sangrasse ou caísse.
— Lucas? — perguntou Bren.
— Quando chegarmos.
— Não espere sino, banquete nem privacidade de nobre. Cidade cercada não oferece cenário.
— Você voltou a dar conselho.
— E já me arrependo.
Naquela noite, acamparam numa elevação de pedra onde o brejo não alcançava as mantas. Bren fez fogo pequeno, protegido por três lajes, e assou duas enguias que comprara de um pescador sem perguntas.
Alice copiou a confissão de Sybelle uma segunda vez. Se um alforje se perdesse, o outro chegaria. Em cada página, acrescentou onde estava quando ouviu a frase e quem testemunhara. Maela aprovaria o método; Pell perguntaria o preço; Nilo procuraria os dentes com a língua.
Bren remendou uma correia.
— Está escrevendo o nome completo?
— Em papel separado.
— Não leia.
— Já entendi.
— Entender nunca impediu gente inteligente de fazer coisa estúpida.
Alice aqueceu a ponta da faca de sino no fogo. O metal escureceu, mas não brilhou. Testou num fio de cobre retirado do cordão de Aelian. A lâmina cortou o metal com pressão menor do que deveria.
— Ferramenta — disse.
— Ferramenta estranha.
— Ainda ferramenta.
Guardou a faca. Depois retirou do bolso uma carta curta de Lucas, escondida no embrulho de pão. Ele escrevera antes da partida: Ardel será lida com Toma. Não vou pedir que volte igual. Volte viva o bastante para discordar de mim.
Alice leu duas vezes. Na terceira, percebeu que tentava decorar a curva das letras. Dobrou a carta antes de transformar afeto em objeto de pânico.
— Sybelle sabia que eu escolheria memória de Lucas se o rito pedisse — disse.
Bren parou de costurar.
— Ela sabe onde enfiar faca.
— E talvez tenha razão.
— Razão não torna faca menos afiada.
Alice pousou a mão sobre o ventre.
— Se eu perder o que vivi com ele, a criança continua.
— Continua sendo de vocês dois.
— Para ele. Talvez não para mim do mesmo jeito.
Bren puxou a linha com os dentes.
— Está tentando sofrer uma ferida antes de saber se a lâmina chega.
— Prefiro reconhecer a armadilha.
— Reconheça. Só não monte casa dentro.
O fogo estalou. Alice pensou em Sybelle ajoelhada e sentiu pena. O sentimento veio acompanhado de raiva, como peixe preso com erva amarga. Negar perdão não exigia deixar de amar. Essa era a parte que a mãe nunca ensinara porque amor, para ela, precisava terminar em posse ou corte.
Alice dormiu pouco. Sonhou com cinquenta e duas pessoas em fila diante da cabana. Nenhuma tinha rosto. Mara estava no fim e segurava uma fita que Alice se recusava a pegar.
Ao acordar, havia sangue na manta.
Ela sentou depressa, coração batendo na garganta. Bren veio com a faca na mão. O sangue era de uma sanguessuga esmagada sob o calcanhar, gorda com o que roubara.
— Bela forma de testar um velho — resmungou ele.
Alice queimou a sanguessuga. As mãos demoraram a parar de tremer.
— Ainda quer conselho? — perguntou Bren.
— Não.
— Ótimo. Coma.
Ela comeu as duas últimas bolachas de aveia e bebeu água fervida. Depois montaram. A estrada firme começava a leste, afastando-se do brejo antes de dobrar ao norte. Cada passo do cavalo aumentava a distância sem apagá-la.
Alice tocou o cordão de Aelian dentro do bolso. O osso de garça era liso pelo uso de um homem que ela nunca lembraria. Aquilo era herança. A mão de Lucas soltando os pontos da bota era escolha.
Ainda não sabia o que o rito exigiria por inteiro. Sabia que Vharos confundia sangue com posse e que Sybelle fizera a mesma coisa durante vinte e quatro anos.
Levou a informação. Deixou o perdão.
Fim do Capítulo 24