Capítulo 23
Cabana Aberta
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Capítulo 23
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A cabana cheirava a ervas queimadas e ferro frio, igual à da infância, exceto por um peso novo no ar: culpa com nome e data escritos.
Sybelle serviu chá sem oferecer assento primeiro, as mãos firmes em volta do bule de barro rachado que Alice conhecia desde sempre. Alice ficou de pé. A mesa entre elas era pequena demais para caber duas verdades tão grandes ao mesmo tempo.
— Sentes o ventre — disse Sybelle, e falou como quem já sabia a resposta, sem esperar confirmação nenhuma.
Alice endureceu.
— Não vim falar disso — disse ela.
— Vens falar de tudo — respondeu a mãe, servindo a própria xícara devagar. — Só ainda não sabes pedir.
— Sei pedir que cale a boca sobre meu corpo.
Sybelle bebeu. Alice conhecia o movimento: uma pausa suficiente para obrigar a outra pessoa a preencher o espaço. Durante a infância, sempre terminara confessando travessuras que a mãe sequer descobrira.
Desta vez, Alice abriu o embrulho de comida. Cortou o queijo com a própria faca e comeu uma lasca, embora o estômago protestasse.
— Trouxe companhia — disse Sybelle.
— Bren espera no salgueiro.
Uma dobra apareceu junto à boca da mãe.
— Kest espera onde mandam desde que alguém saiba qual dívida apertar.
— Ele veio porque eu mandei.
— Então já aprendeste.
Alice pousou a faca.
— Não vim receber elogio.
— Vieste provar que saíste do meu alcance. Precisas que eu resista para a prova ter gosto.
Sybelle levantou-se e retirou do fogo uma panela de caldo. Havia enguia, raiz de taboa e folhas de azedinha. Comida de infância. Serviu duas tigelas. Alice detestou o corpo por querer aquilo.
— Calderis ensinou protocolo? — perguntou Sybelle. — Ou só maneiras novas de entregar a mesma obediência?
— Ensinou que três notários fazem uma mentira parecer limpa.
— E que uma candidata a rainha chama uso de aliança.
— Bella não diz que me ama.
A colher de Sybelle parou dentro do caldo.
— Isso faz dela melhor?
— Faz a corrente aparecer.
Sybelle voltou a comer. Tentara mudar o centro da conversa para Bella, Lucas, a criança, qualquer coisa que permitisse examinar Alice em vez de responder.
Alice largou os cadernos sobre a mesa, com força suficiente para o caldo tremer dentro das tigelas. As páginas se abriram em desenhos de veios rubros, nomes riscados, ordens da Igreja com a assinatura de Confessora Velada.
Alice largou os cadernos sobre a mesa, com força suficiente para o chá tremer dentro das xícaras. As páginas se abriram sozinhas em desenhos de veios rubros, nomes riscados, ordens da Igreja com a assinatura de Confessora Velada.
— Mara — disse Alice. Uma palavra só, cortando como faca curta.
Sybelle fechou os olhos por um instante, os dedos parados sobre a asa da xícara.
— Amiga — murmurou ela. — Filha do salgueiro. Ria demais. Perguntava demais sobre o que ouvia à noite, coisas que não eram dela para saber.
— Lembro do buraco — cortou Alice. — Não dela.
— Porque eu te amava — disse Sybelle, a voz baixa. — E amor sem controle mata metamorfa. Mara te ensinava nome humano antes de eu terminar de te ensinar forma. Arranquei. Doeu. Doeu mais em ti do que em mim, e mentiria se negasse isso agora.
— O que aconteceu com ela?
— Foi embora.
— Sozinha?
— Com parentes.
— Nome.
— Alice.
— Nome dos parentes.
Sybelle juntou as mãos. O polegar direito cobriu a cicatriz da palma esquerda, gesto que fazia quando preparava uma mentira difícil.
— Não lembro.
Alice tirou o frasco de Odran e espalhou uma pitada de cinza branca sobre a margem do caderno. A mistura permaneceu clara até tocar uma anotação raspada. Então avermelhou.
Sybelle levantou-se depressa.
— Quem te deu isso?
— Um homem que aprendeu a desconfiar da própria Igreja.
Alice soprou o excesso de cinza. Sob a raspagem surgiu parte de uma frase: Mara Senn entregue à tia Joana. Carroça oeste. Memória removida antes da partida.
— Ela viveu — disse Alice.
— Quando partiu.
— Você sabia o nome da tia.
— Sabia.
— E guardou.
— Guardar impediu que procurasses. Procurar teria levado os confessores até ela.
— Ou teria me dado escolha.
— Criança não escolhe risco que entende.
— Eu tinha nove anos. Agora tenho vinte e quatro. Quantos anos mais precisava para merecer a verdade?
Sybelle não respondeu. Alice pensou em Mara numa carroça seguindo para oeste, o rosto ainda impossível dentro da cabeça. A menina tivera de carregar sozinha a lembrança das duas.
Alice sentiu a náusea subir de novo, misturando gravidez, raiva e a memória fantasma da própria infância.
— Prisioneiros — continuou ela. — Ferrugem. Vharos. Interrogatório. Diz que foi ordem.
Sybelle riu, um riso sem nenhum humor dentro.
— Ordem é muleta de covarde — respondeu, largando a xícara. — Eu quis saber como o Confessor Rubro pensa. Quis arma antes que a Igreja me oferecesse a ele como sacramento vivo. Fugi para o brejo. Te trouxe comigo. Te criei para atravessar onde homens morrem e apagar o que não devia existir mais.
— E quando não apagavas — perguntou Alice —, o que fazias?
O fogo chiou na lareira. Sybelle deixou a pergunta sentada na mesa por um bom tempo antes de tocar nela.
— Transferia — disse, por fim. — Os que sobravam. Os que ouviam demais. A Igreja decidia o destino.
— Entregava.
— Eu não os matava.
— Entregava.
— Melhor um prisioneiro vigiado do que uma vila inteira contaminada.
Alice ouviu uma bota raspar a soleira. Bren continuava do lado de fora, como combinado, mas já se aproximara.
— Quantos? — perguntou ela.
— Não sei.
— Cadernos contam trinta e sete.
— Cadernos contam aplicações, não pessoas.
— Então mais.
Sybelle segurou a borda da mesa.
— Alguns sobreviveram.
— Mara também. Você quer prêmio por não ter conseguido terminar todos?
Alice recuou um passo, e a cabana pareceu encolher ao redor dela.
— Confessora Velada — sussurrou. — Fugitiva. Curandeira. Mãe.
— Três nomes, uma mulher só — respondeu Sybelle. — Nunca pedi perdão. Pedir seria mentir que bastava pedir.
Bren entrou quando a chuva começou.
Tirou o casaco molhado e o pendurou no mesmo gancho onde, anos antes, deixara armas enquanto Alice fingia dormir no quarto dos fundos. Sybelle olhou para o cinto de facas, para o cabelo grisalho e por fim para a mão esquerda dele.
— Tua irmã morreu — disse ela.
— Sete anos depois de você salvar.
— Então tive sete anos de razão.
Bren recebeu a crueldade sem mover o rosto.
— E Emon Saye?
Sybelle olhou para Alice.
— Trouxeste testemunha ou carrasco?
— Um homem que pagou teu silêncio.
Bren tirou da camisa uma placa fina de cobre. Nela havia riscos de contagem e três iniciais.
— Emon me deu antes de fugir das salinas. Disse que cada risco era prisioneiro que ele levou da tua sala para as celas inferiores. Cinquenta e dois. As iniciais são das crianças.
Alice pegou a placa. Os riscos não eram regulares; alguns tinham sido cavados com raiva, outros mal tocavam o metal.
— Não havia crianças — disse Sybelle.
Bren apontou a terceira inicial.
— L.P. Lysa Perr, doze anos. Ferrugem no braço depois de beber água do poço da prisão. Você disse que precisava observar progressão em corpo jovem.
Sybelle perdeu a cor.
— Ela já estava contaminada.
— Você impediu amputação.
— A amputação a mataria.
— Talvez. Você preferiu descobrir quanto tempo levava para os veios chegarem ao coração.
Alice fechou os dedos sobre a placa. A borda cortou a pele.
— Viu a menina morrer?
Sybelle olhou para o fogo.
— Vi.
— Usou o que aprendeu em mim?
A mãe demorou demais.
— Usei para impedir que a Ferrugem te reconhecesse cedo.
A versão de Sybelle se partiu ali. Não fora apenas serva de ordens, nem curandeira obrigada a escolher entre males. Controlara o experimento, escolhera quem podia sofrer e trouxera o aprendizado para criar a própria filha.
Bren colocou sobre a mesa uma segunda peça: folha encerada, assinada por Sybelle, autorizando que Emon escondesse os corpos em sepulturas sem absolvição.
— Isso soltou os primeiros Rastejantes do sul — disse ele. — Você me mandou queimar três e chamou de acidente de carcereiro.
Sybelle tocou o papel, mas não o puxou.
— Se a Igreja soubesse que a aplicação falhara, teria aberto as celas todas.
— E se Emon recusasse? — perguntou Alice.
— Recusou.
— O que fez?
— Apaguei o bastante.
Alice deu um passo. Bren se moveu entre as duas apenas o necessário para lembrá-la de que faca continuava na bota.
— Quantas pessoas além de mim? — perguntou.
— Não contei.
— Agora conta.
Sybelle fechou os olhos. Pela primeira vez desde a chegada, pareceu menor do que a cabana. Não vencida; acuada, procurando uma última passagem.
— Há um livro sob o assoalho — disse. — Lista completa. Nomes de aplicação, transferência, morte e absolvição negada.
Alice conhecia cada tábua. Mesmo assim, não conhecia o esconderijo. Sybelle ergueu a pedra do lar com um gancho e revelou uma caixa estreita protegida por couro oleado.
Dentro havia um livro, uma fita de cabelo infantil e duas folhas escritas em liturgia antiga.
Alice reconheceu no alto de uma folha as palavras que Lucas traduzira nas minas: Último Sangue.
— Onde conseguiu?
— Do homem que me treinou — respondeu Sybelle. — Ele morreu na primeira cela.
— E o resto?
— Amanhã.
Alice quase riu.
— Ainda tenta escolher a hora.
— Se leres cansada, vais confundir instrução com convite. Se me matares esta noite, perdes o que só eu posso explicar.
Era controle, mas havia medo verdadeiro preso dentro dele.
Bren verificou janelas, porta e o espaço sob a cama. Depois estendeu a manta no chão.
— Eu durmo aqui.
— Ninguém dorme — disse Alice.
Sentou à mesa e começou a copiar os cinquenta e dois nomes. Sybelle permaneceu do outro lado, corrigindo grafias quando Alice errava. A chuva entrou pela porta aberta até formar uma poça nas tábuas.
O sétimo nome era um padeiro que roubara farinha durante cerco. O décimo primeiro, uma parteira acusada de esconder nascimento sem registro. O décimo sexto não tinha crime, apenas mudo. Alice obrigou Sybelle a explicar cada abreviação.
— Ele não podia confessar — disse a mãe.
— Então serviu porque não podia contar.
— Serviu porque os carcereiros o escolheram.
— E você aceitou a escolha.
Depois do vigésimo nome, Sybelle tentou acender outra vela. A mão tremia; o pavio caiu. Alice acendeu por ela e odiou a intimidade automática do gesto.
Bren encontrou atrás do armário uma fileira de marcas na parede. Eram alturas de criança, riscadas ano a ano. Alice reconheceu as próprias até os doze. Ao lado da marca dos nove havia duas letras: A e M.
— Mara esteve aqui quando você mediu — disse.
Sybelle olhou a parede.
— Ela apareceu cedo. Trouxe ovos de pato.
— E você deixou marca.
— Antes de decidir.
Alice passou o dedo pelo M. Não veio rosto, voz nem cor de cabelo. Veio uma sensação no cotovelo: outro braço encostado ao seu enquanto duas meninas tentavam ficar eretas sob uma régua.
— Apagou a lembrança, não o corpo.
— Corpo guarda restos ruins — disse Sybelle.
— Ruins para quem?
Sybelle pegou um pano e tentou esfregar as letras. Alice segurou o pulso dela.
— Deixe.
Ficaram unidas pela mão por um instante. A força da mãe ainda era grande. Alice lembrou quantas vezes aquela mesma pegada corrigira faca, agulha e postura. Soltou primeiro porque escolher soltar não era perder.
No trigésimo nome, Bren preparou caldo novo. Sybelle reclamou que ele usava raiz demais.
— Você perdeu o direito de dirigir minha panela — disse.
— Ainda é minha casa.
— Porta aberta confunde propriedade.
Alice comeu. A criança dentro dela não era ainda peso ou movimento, apenas exigência de não atravessar a noite com estômago vazio. Sybelle observou a tigela e teve a prudência de não comentar.
No trigésimo oitavo nome, encontraram Emon Saye. O destino dizia memória corrigida; liberado. Bren sentou diante da mãe.
— Quanto tirou?
— A rota até a prisão, três rostos e a razão de temer sinos.
— Ele acordava gritando quando sino tocava.
— Memória arrancada deixa reação.
Alice apoiou a pena.
— Você sabia disso quando arrancou Mara.
— Sabia que deixaria dor. Não sabia a forma.
— Experimentou comigo.
— Tentei fazer menor.
— A mãe diz que cortou pouco. A cicatriz não aprende medida.
Sybelle recebeu a frase em silêncio. Lá fora, uma ave pescou no escuro; o bico bateu na água. A garça dentro de Alice respondeu com uma coceira na pele, oferecendo fuga por uma memória. Ela permaneceu humana.
Bren pegou a fita de cabelo.
— De Lysa?
Sybelle fez que não.
— Mara.
Alice não tocou.
— Por que guardou?
— Para lembrar do que fiz.
— Guardou para você a coisa que tirou de mim.
A mãe estendeu a fita. Alice puxou a mão para trás.
— Não quero objeto no lugar dela. Quero saber para onde foi.
— Oeste, com Joana Senn. Depois perdi o rastro.
— Perdeu ou apagou?
— Perdi.
Dessa vez, a postura não denunciou mentira. Alice quis acreditar e desconfiou da vontade.
Ao quadragésimo primeiro nome, Sybelle pediu pausa. Alice recusou. Ao quadragésimo sexto, a mãe começou a chorar e continuou soletrando. Bren não consolou nenhuma das duas.
Ao amanhecer, ainda faltavam seis nomes. A fita de cabelo continuava junto ao cotovelo de Alice. Ela não perguntou de quem era.
Ainda.
Saiu para lavar a tinta dos dedos. A água do tonel estava fria e cheia de folhas pequenas. O brejo acordava com mosquitos, rãs e o ruído de Bren rachando lenha sob o alpendre.
— Ela contou verdade suficiente para você baixar a faca — disse ele.
— E mentira suficiente para manter distância.
— É um ofício.
Alice esfregou o indicador. A tinta ficara dentro das linhas da pele.
— Quando soube que Sybelle apagava gente?
— Antes de você nascer. Só não sabia que tinha feito com você até mencionar Mara na estrada.
— Teria contado se eu não perguntasse?
Bren partiu outro graveto com o polegar.
— Quero dizer que sim.
— Isso não é sim.
— Não.
Alice agradeceu a resposta apenas não indo embora. O caçador aceitou o pouco.
Sybelle apareceu na porta com duas canecas. Ofereceu uma a Alice. O cheiro era de hortelã e casca de salgueiro, ervas seguras para enjoo. Mesmo assim, Alice derramou o líquido no chão.
— Não bebo nada que você prepara enquanto há memória em disputa.
A mãe ficou com a caneca estendida.
— Ensinei bem demais.
— Ensinou a ferida. O resto aprendi evitando você.
Sybelle colocou a caneca no degrau. Depois fitou Bren.
— Deixe-nos.
— Não — disse Alice.
Era uma palavra pequena. Mudou a disposição dos três: Sybelle na porta, Bren junto à lenha, Alice entre a casa e a trilha. A mãe já não decidia testemunha, bebida ou hora.
— Terminamos os seis nomes — disse Alice. — Depois você conta o que há nas folhas, quem foi meu pai e por que Merrow quer meu nome. Sem chá. Sem tocar em mim. Sem mandar Bren sair.
Sybelle entrou.
Alice esperou até ouvir a cadeira arrastar. Secou as mãos na capa e voltou para a mesa aberta.
Fim do Capítulo 23